“Há duas coisas importantes na vida. Só duas: o amor e o medo. E é nesta alternância que nós somos aquilo que somos.”

É fã nº 1 do Rato Mickey e um dos, senão o,  Médicos Legistas português mais conceituado. Honra-se de ser o primeiro português a ser escolhido para a vice-presidência da Academia Internacional de Medicina Legal e Medicina Social e eu honro-me de termos estado à conversa. O que é o amor e o que em criança queria ser quando fosse grande, se há vida para lá da morte. Estes foram apenas alguns dos muitos rumos que a nossa conversa tomou. De tudo e de nada, falámos essencialmente da vida. Fica aqui um excerto. O resto está no vídeo.

 

 CA- Em criança, o que queria ser quando fosse grande?

PDPC– Em criança, sempre tive uma perspectiva única: ser médico. Desde sempre! Ser médico-legista resultou de um convite que me foi feito para encetar esta carreira e adaptei-me à circunstância pela necessidade de encontrar solução para grandes problemas sociais: as diferenças, as injustiças… E dentro da perspectiva da Medicina Legal encontrei esse clima.

 

CA-O que sentiu quando viu o 1.º cadáver da sua carreira?

PDPC – Teria vinte e poucos anos, foi numa aula de Anatomia e foi uma experiência extraordinariamente desagradável, porque o primeiro cadáver que eu vi estava fragmentado e escuro, cheirava imenso a Formol, fazia-nos lacrimejar… Foi uma sensação muito desagradável.

 

CA- Defende o pensamento positivo. O que leva um homem da Ciência a promover o  pensamento positivo?

PDPC – O pensamento positivo traduz-se pela experiência real. Há as pessoas que consideram que o copo está meio cheio, outras dizem que está meio vazio. A prática mostra que todas as pessoas optimistas, com boa disposição, que cultivam o futuro com esperança, essas pessoas, estatisticamente têm, em média, mais 7,5 anos da vida.

 

CA-Como o aplica na sua vida?

PDPC – Eu, por natureza, sou optimista. Fui sempre. Para todas as situações mais aflitivas, sempre encontrei solução. Mesmo em situações de pânico em que toda a gente se aflige, eu fico extraordinariamente calmo. Sempre fui assim. Há sempre algo de positivo em todas as situações. É preciso ver com atenção.

 

CA- Qual é o seu maior sonho?

PDPC – O meu maior sonho seria, egoisticamente falando, durar até aos 100 anos! É um sonho. Todos os sonhos são realizáveis. Devemos lutar pelos nossos sonhos. O sonho é essencial à vida.

CA- O que é um dia perfeito para si, Professor?

PDPC – O começo do dia para mim é sempre muito positivo, porque eu mexo os dedos dos pés e das mãos e digo para mim: Estou vivo! E isso é o essencial para começar bem o dia. Depois, procuro resolver todas as situações que me possam proporcionar prazer, porque o prazer como rotina leva a que todas as nossas células trabalhem de uma certa maneira, rotinadas na memória de certas reacções químicas de prazer e bem-estar. O problema é que nós não modelamos o nosso comportamento nesta perspectiva. Nós somos muitas vezes educados para o medo. O medo é a coisa pior que há.

Há duas coisas importantes na vida. Só duas: o amor e o medo. E é nesta alternância que nós somos aquilo que somos. As pessoas não devem ter medo, ninguém deve ter medo. O indivíduo deve educar-se a si próprio, para nas situações mais adversas tentar resolvê-las, sem medo. Claro que é preciso ter medo, mas apenas em quantidades q.b. Em situações de medo, costumo dizer que devemos contar até 100, devagarinho e depois tentar resolver a situação, calmamente.

Às vezes somos inimigos de nós próprios, a má alimentação é uma forma de agressão. A alimentação é uma peça fundamental em termos de comportamento. O intestino é fundamental, porque é no intestino que se vão elaborar as moléculas essenciais para que o cérebro possa constituir os neurotransmissores químicos cerebrais essenciais ao pensamento. Não há uma educação para a importância da alimentação. As pessoas não sabem porque não devem comer fritos, batatas fritas, o excesso de açúcar…

 

CA- O amor é um conjunto de reações bioquímicas ou é um dos maiores mistérios da vida que nos ultrapassa e para o qual não temos explicação?

PDPC – Nós não podemos reduzir a vida apenas a reações bioquímicas. Há outras componentes importantes naquilo que nós somos. Em primeiro lugar, a genética obviamente, representam 30% do que nós somos. Mas, mais importante são os 70% restantes, preenchidos pela aprendizagem, pela educação e pela interacção com o meio. E esta interacção com o meio, é hoje em dia, prevalente.  Claro que o cérebro funciona através de estímulos eléctricos e químicos, fundamentalmente por aprendizagem. De forma que nós podemos ser felizes se quisermos. Um cérebro normal nasce com estruturas suficientes para ser feliz e a educação que nos é incutida e as aprendizagens que fazemos na vida é que nem sempre nos conduzem para a felicidade, antes pelo contrário. O amor não se explica. É uma emoção.

CA- Com tantos mistérios e perguntas sem resposta que temos na vida, porque é que temos de tentar encontrar uma explicação para tudo?

PDPC – Fomos educados numa perspectiva de uma autonomia crescente, menor sujeição a uma força superior, a uma divindade, nós queremos dominar tudo. Ancestralmente, a humanidade não queria ter uma explicação para tudo. A vida era diferente. Havia sempre a crença numa entidade superior. Por exemplo, os povos primitivos ainda hoje adoram a sombra de um avião e desconhecem o que é um avião.  Não procuram a explicação. Limitam-se a aceitar o facto e a usufruir. É a opção mais tranquilizadora. É inquietante quando queremos encontrar a explicação para tudo. Eu acho que o conhecimento é importante, mas não nos dá muita felicidade. Nesse aspecto, a ignorância proporciona-nos a aceitação tácita daquilo que nos acontece e nós não percebemos bem, a começar por aceitar que não temos de compreender tudo.  É fundamental confiar, confiar no outro. Quando temos uma dor de dentes e vamos ao dentista, basta-nos sentarmo-nos na cadeira que a dor já atenuou, porque estamos a confiar. Estamos a confiar na capacidade que o dentista tem para nos curar, que é algo que nos ultrapassa, e nós confiamos.

CAAcredita na vida após a morte?

PDPC – A concepção da morte como paragem definitiva, é só para 20% da humanidade, porque os restantes 80% acreditam na vida pós-morte. Eu acredito que, efectivamente, haverá uma circunstância existencial após a morte.

 

CA –  Qual é o segredo da sua felicidade?

PDPC – O segredo da minha felicidade é fazer aquilo que me dá prazer.  E isso pode ser muitas coisas, depende da circunstância, depende do momento. Pode ser estar com os amigos, por exemplo, ouvir música, um determinado tipo hoje, amanhã outro tipo de música. E eu procuro, de um ponto de vista emocional, e tenho essa sorte, fazer aquilo que quero. A plenitude, a realização, a concretização dos projectos. Quem não tem projectos, não pode ser feliz!

 

O Prof. Dr. José Eduardo Pinto da Costa dispensa apresentações, mas vale a pena listar um currículo tão singular e de tão alto nível.

 

  • Professor Catedrático jubilado do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto,
  • Foi Professor Catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e professor de Psicologia Forense, Neuropsicopatologia, Psicofarmacologia e Criminologia Clínica, na Universidade Lusíada do Porto.
  • É Professor Catedrático de Medicina Legal na Universidade Portucalense
  • É Director Científico do Instituto CRIAP
  • É Director do Centro Médico-Legal Porto

 Obrigada Professor!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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