João é uma pessoa de pessoas, que não seria feliz sem as suas: a sua família e os seus amigos.

Aqui têm uma pequena parte da conversa deliciosa que tive com o João Carvalho. Vocês não terão a sorte de o ouvir  trautear a canção de embalar que criou para as filhas,  mas fica aqui parte da letra, o que já é muito bom.

 

Letra de uma canção de embalar (para vocês acompanharem com uma melodia. De embalar, claro. )

“Matilde do meu coração

O teu pai chama-se João

Gosta de ti como de melão

E isso é tão bom…”

 

Autoria: João Carvalho

Sim, o João Carvalho, o mesmo que é um dos responsáveis por dois dos mais carismáticos festivais de música do país: o Primavera Sound e o ímpar Festival Paredes de Coura.

Para além de letras de canções de embalar, também inventa histórias para as filhas (Matilde de 9 e Carolina de 5 anos). A mulher já lhe disse que devia escrever  um livro de histórias. É que não são umas histórias quaisquer, são, a maioria, inspiradas nas vidas de alguns dos seus ídolos: Nelson Mandela, Martin Luther King, Steve Biko, isto na fase anti-apartheid, revolucionários, mas também há espaço para os músicos, bailarinos… “Reinvento as histórias de personalidades históricas para que elas percebam um pouco mais do mundo em que vivemos. “Já lhes contei tantas histórias, que hoje em dia as minhas filhas já me perguntam se esta ou aquela figura existiu mesmo ou é só uma invenção do pai.” (risos)Este homem que faz da música a sua vida e é capaz de ouvir mais de 10 álbuns novos num fim-de-semana, adora os seus momentos de silêncio. Encontra-os nas suas leituras, mas também nas caminhadas que muitas vezes faz sozinho.  E é nessas alturas, enquanto contempla o céu, as árvores e as janelas das casas, que aproveita para pensar na vida. Outra coisa de que gosta muito é de mexer na terra. Um dia vai voltar a semear alfaces que é coisa que também lhe dá muito gozo. Aqui vos deixo o resuma da  conversa que tive com o João Carvalho, um homem feliz, cujo maior sonho é continuar a ter a vida que tem! Que fixe!

Em menino, “vibrava com “Modern Talking” enquanto simulava tocar guitarra com uma vassoura lá de casa”, e que andava (muito contrariado) na Fanfarra dos Bombeiros de Paredes de Coura. Nunca saberemos a responsabilidade que esta passagem ( ainda que contrariado) pela fanfarra terá tido no despoletar da sensibilidade para a música. Nunca saberemos. Isto sou só eu a especular, mas eu posso especular. Se quiserem especular também, leiam a entrevista que se segue.

CA-A que brincavas quando eras miúdo?

JC – Brincávamos a tudo. Aos Índios e Cowboys. Lembro-me que fizemos uma casa na árvore. Imitávamos músicos. Vibrava com “Modern Talking” enquanto tocava guitarra de uma vassoura a minha guitarra. Jogávamos à bola. Brincávamos muito na rua. Éramos muito mais felizes antigamente do que as crianças de agora, que passam a vida agarradas aos écrans…

Andava na Fanfarra dos Bombeiros de Paredes de Coura, tocava tambor. Eu não gostava nada daquilo. Passava a vida a dizer que não queria ir para a Fanfarra. Fazia de tudo para não ir. Há até uma história que  meu pai, ainda hoje recorda. Eu tinha aí uns 12 anos, que mostra o que eu fazia só para não ter de ir. Aquilo obedecia a uma farda, calçado e tudo. E eu engendrei um plano para não ir. Fiz desaparecer um dos sapatos, deitei-o fora. Andou tudo a procurar o sapato e só apareceu passados uns 15 dias, no ciclo preparatório, mesmo em frente a minha casa. Atirei o sapato por cima do muro de minha casa para o sítio mais distante que consegui.

Não gostava da Fanfarra, porque achava tudo muito aborrecido. Hoje, olhando para trás, até era engraçado, mas na altura achava uma chatice. Tinha de andar nas procissões, horas debaixo do sol e depois eu queria era namorar…

 

CA – Começaste a namorar cedo? Lembras-te da primeira namorada?

JC – Quem não se lembra da primeira namorada. Claro que lembro.  (risos…)

 

CA – Gostavas de ir para a escola?

JC-Gostava de ir para a escola, por causa dos intervalos, para jogar à bola. (risos…)

 

CA -Qual era a tua disciplina preferida?

JC – Era Meio Físico. Adorava perceber como é que o mundo funciona. Hoje a minha filha, Matilde (a mais velha, tem 9 anos), passa a vida a corrigir-me, “Pai, hoje é Estudo do Meio, já não se diz Meio Físico!” por acaso, a disciplina preferida dela é História. O que é óptimo, porque quer dizer que é uma menina interessada pelo que aconteceu e que é muito curiosa. A Matilde é muito boa aluna, vai ser muito melhor aluna do que eu fui. Eu era um péssimo aluno. Não estudava. Não queria saber. Gostava da escola pelos intervalos e pelas brincadeiras com os amigos.

 

CA-Foi na escola que fizeste os amigos que ainda manténs hoje?

JC-Sabes que eu sou uma pessoa de raízes. Ainda hoje mantenho os mesmos amigos de infância. Claro que também fiz amigos no meio musical e tenho alguns muito fortes, mas o meu porto de abrigo são os meus amigos de sempre. O Carlos Alves, o Job Barreiro, o Filipe Lopes, o Bolinhas e mais, muitos mais, vou sempre esquecer-me de alguém…são os meus amigos de infância. Sou indiscutivelmente uma pessoa de relações e preciso deles na minha vida.

 

 

CA – As raízes são importantes para ti?

JC – Sim. Sim. Preciso de voltar às raízes.  Preciso do cheiro da terra de Coura. Preciso de ser interrompido enquanto estou a tomar café e vem alguém contar-me a coisa mais banal, mas que me preenche. Preciso desses momentos, de voltar a Coura, de ver a cor daquele céu, que não é igual em mais lado nenhum do mundo.  Ainda um dia destes comentava que se há probabilidades de chuva no Porto, chove torrencialmente em Coura, é sempre assim… Se está frio no Porto, em Coura congelamos. É assim…

 

CA – Querias ser uma rock star?

JC -Sempre gostei muito de música. Tal como me lembro do meu primeiro beijo, também me recordo muito bem da primeira vez que despertei para a música. Ouvi os “Imagination” e senti que havia ali algo de diferente. Na altura, tínhamos acesso aos tops de música, não havia internet, não se comprava discos. Eu fui comprar a cassete do Rod Stewart com dinheiro que me deu a minha avó. Sabia de cor o “Baby Jane” dele. Ainda hoje ele é o meu guilty pleasure. É um artista que ainda ouço. Falta-me ver um concerto dele. Tenho de ir ver… a música sempre me fascinou, mas nunca quis ser artista. Lembro-me perfeitamente de ficar fascinado com o Festival Vilar de Mouros, em 1982. Lembro-me de ficar fascinado por quem organizava. Lembro-me que passou a notícia no telejornal da RTP, na altura só havia um canal, e falarem no nome do dr. Barge e de eu tentar perceber quem era e porque razão tinha organizado um evento assim. Mais do que querer saber das bandas que iam tocar, a mim fascinava-me tentar perceber o que motivava alguém a organizar uma coisa daquelas.

 

 

CA – Há 30 anos onde te imaginavas agora?

JC-Não imaginava nada. Nunca fiz planos para o futuro. Nem agora faço. Eu vou deixando o tempo fluir. Vivo muito o momento presente. Sempre o fiz. Hoje em dia sou um bocado conhecido por estar sempre a relativizar… a vida é tão curta e tão bonita que eu quero é desfrutar dos meus momentos em família, entre amigos e ser feliz no trabalho. Passo a vida a dizer isso muito às pessoas.

Eu fico feliz com as pequenas coisas, fico feliz por abrir as janelas de casa e estar sol, fico feliz por ir buscar a lenha e acender a lareira, fico feliz por ir montar Legos com as minhas filhas. Devemos ser felizes com as pequenas coisas, porque a vida é realmente curta. Se passarmos a vida a lamentar-nos, quando damos por elas, estamos velhotes e não aproveitámos nada.

 

 CA – És um rapaz sortudo ou trabalhador?

JC – (risos) Eu acho que sou um bocado dos dois. Aqui na Ritmos e PicNic trabalhamos muito. Trabalhamos muito e também temos tido sorte. Também nos calham alguns azares. Fazem parte da vida. Isto é um puzzle. Coisas boas, coisas más e vais encaixando isso tudo. No meu caso, o resultado tem sido bom. Sou uma pessoa com sorte sim.

 

 

CA – Tens algum amuleto, algum ritual, antes de cada festival? Do que se possa revelar, claro!

JC – Posso divulgar tudo, estou aqui de coração aberto, como diz um dos meus grandes amigos, o Vitor Pereira, que é agora o Presidente da Câmara Municipal de Coura. E, como ele disse, isto em 2015, ele tinha acabado de ser eleito Presidente da CMCoura, essa edição do festival tinha corrido especialmente bem e ele estava muito sentimental.  Chorou duas ou três vezes enquanto me abraçava e eu fui-lhe dizendo “Colinho (que é assim que eu o trato), controla-te, há aqui tanta gente que nos conhece a ver-nos e tu a chorares. Ao que ele responde: “eu estou a marimbar-me para a minha privacidade” e lá nos abraçamos mais uma vez! (risos)

Respondendo à tua pergunta relativa ao ritual antes do festival. Não tenho. Tenho sempre algum medo, principalmente da chuva e tenho o receio normal que as pessoas não se divirtam, que alguma banda cancele…mas as principais preocupações são com as pessoas, porque hoje em dia, já se vende os bilhetes com alguma antecedência.

 

CA – Se os teus festivais deixassem de dar dinheiro, que farias da tua vida?

JC – Abria um restaurante. Adoro cozinhar. Não me interessa a parte de gestão, nem pensar! Do que mais gosto é a de gerir os cozinheiros, eu próprio cozinhar, ir às compras, levantar cedo e ir escolher as carnes, os peixes. Era isso que gostava de fazer.

 

CA – Qual é o teu maior sonho?

JC – Não tenho nenhuma em concreto… O meu maior sonho é ser feliz, é continuar a ter a vida que tenho. Estou bem, vivo bem, sou feliz, tenho saúde, espero ter uma velhice tranquila entre Coura, Nova Iorque, Tóquio, Porto, Braga. Quero muito viajar, mas viver metade do tempo em Coura e a outra metade na cidade. Eu e os meus amigos. Falamos muito em ficarmos juntos na velhice, em Coura.

 

CA – O que achas que as tuas filhas aprendem com o pai?

JC – Valores, o sentido de justiça, a solidariedade. E tenho a certeza absoluta que já aprendem. Todos os dias eu faço questão de perguntar às minhas filhas (Matilde e Carolina) como lhes correu o dia e ouço-as, não pergunto por perguntar, ouço-as mesmo. E elas vão contando episódios em que percebo que são solidárias, que no dia-a-dia se preocupam com as situações de injustiça, têm sentido crítico para distinguir o que está bem do que está mal, se vêem algum coleguinha a precisar de ajuda, vão lá dar-lhe a mão e isso enche-me de orgulho, é o maior valor que eu posso transmitir-lhes. Espero estar a cumprir bem o meu papel, porque é uma responsabilidade muito grande ser pai.

Obrigada João por seres uma das minhas pessoas!

 

 

Realização e Fotografia – Igor Sterpin TUCANDEIRA FILMS

https://www.linkedin.com/in/igor-sterpin-4778a474/

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