“Sentir que a felicidade está dentro de mim, independentemente de tudo o que possa estar a passar-se à minha volta”

 

Fica aqui apenas um resumo da nossa conversa. Vão perceber de que fibra é feita esta grande mulher! Que eu adoro e admiro. Umas das minhas pessoas. Obrigada Alexandra Macedo.

 

 

A Alexandra Macedo é uma mulher com M maiúsculo. Logo à primeira vista, não há que enganar, “what you see is what you get”. Sabe o que quer e não hesita em consegui-lo, segue a sua intuição, mesmo quando todos dizem para seguir o caminho oposto. De palavra assertiva e resposta rápida, não recusa ajuda a quem lha pede. Tem um coração grande, bondoso e sensível, e por isso o protege. Porque é assim tem de ser.

Filha única e apesar da morte prematura do pai, aos seus apenas 4 anos, do qual ainda guarda muitas recordações, teve uma infância feliz, rodeada da família, sempre em brincadeiras com as primas e com muito espaço para o sonho e a alegria.

Hoje em dia, é Directora de uma das mais bem sucedidas agências de manequins do país, http://www.bestmodelsagency.com, à qual tenho muito orgulho de pertencer, autora de três livros:
“12 pessoas para seres modelo”;
“De corpo e alma”;
“Manequins, agências e C.ª”
Dá a cara pela sua ca(u)sa, a Fundação Infantil Ronald MacDonald.http://www.fundacaoronaldmcdonald.com/contactCasaPorto.aspx
É uma mulher de sucesso e uma super mãe. Como é que consegue tudo isto?

CA – És filha única? Quais eram as tuas brincadeiras em criança?
AM – Eram imensas, dependiam do sítio onde estava. Em minha casa e em casa das minhas primas, brincávamos muito às lojas. Esvaziávamos os armários e vendíamos tudo. Quando estávamos na aldeia, na Régua, cada uma tinha a sua profissão. Eu era peixeira e vendia peixe que eram as folhas das árvores, dentro do tanque da roupa. Cada uma tinha sempre a mesma profissão. A minha prima mais nova, para a qual não tínhamos muita paciência, era a Educadora de Infância. Estendíamos uma manta com as bonecas todas à volta e ela ficava lá quieta a tomar conta das bonecas. (risos) No Algarve, as brincadeiras eram muito mais na praia. Houve uma altura em que um tio nosso, que era muito precavido, e umas férias, comprou-nos um barco e juntamente com ele, uma corda, e nós andávamos no barco com ele, na areia, a apanhar banhos de sol e a agarrar a corda do nosso barco.

CA– Não sentiste a solidão de ser filha única?
AM – Nessa altura não. Quando era pequena nunca. Eu perdi o meu pai muito cedo, com 4 anos. Fiquei sozinha com a minha mãe, mas não tenho nenhuma recordação de solidão, nem nada parecido. Tinha muitas primas e primos. Do lado do meu pai, cá no Porto, essencialmente duas primas muito chegadas, a nossa prima mais velha, a Mané, que não entrava muito nas nossas brincadeiras -era muito intelectual- e a Teresa, que é mais velha do eu 2 anos, mas nós éramos muito próximas. Sempre a brincar a tudo: com as bonecas, as Tuchas, Nancy’s, tudo… tínhamos uma relação tão próxima que toda a gente pensava que as irmãs éramos nós aas duas (eu e a Teresa) e a filha única era a Mané.

Quando eu verdadeiramente me senti filha única, foi na doença da minha mãe, já adulta. Não tinha com quem dividir, partilhar, tudo, não só o problema em si, como o facto de estar eu sempre a dar força e energia à minha mãe, sempre sozinha. Nessa altura, foi quando eu senti o peso de ser filha única. Ter tido uma irmã ou um irmão teria ajudado muito.

CA– Quando foste mãe, nunca quiseste ter só um filho?
AM– Não, sempre quisemos ter dois. E até gostávamos de ter tido o terceiro, mas o volume de trabalho e a vida acabaram por não nos permitir.

CA– Mãe presente e mulher de carreira, conselhos para as super-mulheres de hoje.
AM – É preferível ter 10 minutos a 100% com os nossos filhos, do que estar uma tarde inteira com eles, mas distraídas com as nossas preocupações, com o telefone… sem estarmos verdadeiramente presentes. Quando estamos com os nossos filhos, temos de estar com eles mesmo, disponíveis para os ouvir e sentir. É isso que faz toda a diferença.
Ainda hoje, os meus filhos, a Carolina, com 25 anos e o Nuno com 21, eu posso estar “a mil”, a stressar, na agência, que se um deles me liga, com um problema qualquer, eu paro o meu trabalho, desligo de tudo e dou-lhes o tempo que eles precisam para falar comigo. E eles sentem isso. Eles sabem que quando precisam da mãe, seja em que momento for, eu estou lá. Sinto muito orgulho nisso, mas não sou perfeita. Também falhei como mãe, no entanto sei que houve coisas importantes que lhes ensine. Uma muito importante foi, desde pequeninos, a pedirem desculpa e a aceitarem as desculpas dos outros. Eu também lhes pedia desculpa quando falhava. Eu tinha com eles essa humildade, essa proximidade, e assim, eles foram percebendo que falhar é humano. A mãe e o pai também erram, e pedem desculpa, tal como eles.

CA– Como aconteceu a moda na tua vida? Era o teu sonho de criança?
AM– Não. Nem me passava pela cabeça. Quando era pequenina queria ser médica e bailarina. Não fui uma coisa nem outra. Médica, porque a minha tia preferida na altura era médica e a influência vinha daí. Bailarina sempre foi um sonho. Fiz ballet e dança praticamente até a Carolina nascer, nunca a nível profissional, mas fiz sempre e era uma coisa que me dava prazer, que me completava. Não tendo sido bailarina, acho que fui realizando esse sonho.

Mas, acabei por ir para Direito, por exclusão de partes. O meu pai fez Direito e a minha mãe fez Matemática e Biologia. Era professora. Eu sempre fui mais das Letras. Quando cheguei ao 10.º ano, por influência da minha mãe, segui Ciências, porque achava que tinha mais opções profissionais… fiz o 10º ano com uma média miserável de 13 valores. No fim do ano, convenci a minha mãe que eu tinha mesmo de seguir Letras e assim fiz. Terminei com 19! Contra factos, não havia argumentos. Do que eu gostava mesmos era de História. Mas, também não me imaginava a dar aulas, que era a saída profissional da altura para quem tirava esse curso. Por isso, segui Direito. Eu achava que devia ser giro, lidar com pessoas. Eu gostava, já nessa altura, de trabalhar com pessoas. Fiz o terceiro ano, mas como tudo na minha vida, as coisas vão caindo nos meus braços. E, por isso é importante nós sabermos aceitar, perceber o que a vida nos traz. Naquela altura, no 3.º ano, o meu namorado, marido hoje, tinha tirado o Curso de Estilismo, trabalhava em moda, uma coisa absolutamente nova. Na altura, em Portugal não havia nada disso e foi o construir de tudo do zero. Apaixonei-me por esta área. Nunca mais voltei ao curso de Direito. Entretanto, casei, engravidei e tudo foi acontecendo.

CA– E a tua vida foi seguindo ao sabor da tua intuição?
AM –Sempre! Sigo sempre a minha intuição, mesmo que às vezes ache que vou dar o pior passo da minha vida, mas se é aquilo que eu penso que está certo, então é aquilo que eu faço. Em 2003, 2004, eu sentia que o escritório da BEST em Lisboa, as coisas lá, já algum tempo não estavam a correr bem. E, um certo dia, acordei, meti-me no carro, fui até Lisboa. Despedi toda a gente e fechei a agência de Lisboa, num dia! Tudo resolvido muito rapidamente. Mal ou bem, a BEST manteve-se, deu o salto, sedimentou-se. Passados 4 ou 5 anos, voltei a abrir escritório em Lisboa, em moldes completamente diferentes. Já não era aquela coisa megalómana de ter um escritório, com 12 assoalhadas, na Avenida da Liberdade, fomos para o LX Factory. Agora, até já estamos em Alcântara, num espaço melhor. Mas, isto para dizer que nesta e noutras decisões da minha vida, sigo sempre a minha intuição. Por mais que às vezes, toda a gente à minha volta me diga que estou errada, eu acabo sempre por seguir a minha intuição e acerto, sempre!

As pessoas retraem-se. Têm medo de seguir a sua intuição, porque ficam a pensar que é trocar o certo pelo incerto, e não seguem aquilo que a sua intuição lhes diz, mas o que a intuição nos diz é que está certo.

CA– A BEST já não te dava o suficiente que fazer e ainda foste agarrar esta ca(u)sa. O Amor é infinito? É isso que dás a esta ca(u)sa? E aposto que é o que recebes?
AM– Foi um convite que veio, mais uma vez, na altura certa, porque, como já tinha dito, tudo na minha vida acontece quando eu me começo a interrogar e achar que tenho espaço para mais alguma coisa. Foi assim que me aconteceu o convite para escrever o meu primeiro livro. Já vou no terceiro e acho que não escrevo mais. Vou ficar por aqui, acho que já partilhei tudo o que tinha a partilhar. (risos…) não sei… Não prevejo o futuro, mas por agora é assim que eu penso. E, dizia eu, quando foi do primeiro livro, eu andava a pensar que era importante alertar as pessoas para certos assuntos e recebi um telefonema do João Carlos Alvim e escrevi o que veio a ser o meu primeiro livro “12 Passos para seres modelo”
No caso específico da Casa Ronald MacDonald, também foi assim. Recebi um telefonema do Francisco Nadais, marido da Marita, a convidar-me para integrar a Comissão de Proximidade, para iniciar em 2017. Disseram-me que era importante divulgar a causa e achavam que eu era uma pessoa que poderia fazer isso pela Fundação Infantil Ronald MacDonald. Só tinha de visitar a Casa e depois daria a resposta. Claro que mal entrei, como qualquer pessoa que entre nesta casa, fica rendida a esta energia. É fabulosa.

Apaixonei-me pelo projecto e posso dizer-te que, das principais lições que aprendi nesta vida, foi aqui que eu aprendi. Eu acho que sou muito esperta, muito forte. Ao aceitar este desafio, fiz um pacto comigo mesma: o de que não me ligaria emocionalmente a nenhuma destas crianças. Vou lá, vou dar-lhe só o meu tempo e o meu carinho, mas só quero saber o mínimo da vida delas, não me vou envolver. Vou proteger-me e consegui andar assim um ano inteiro. Em Dezembro, no Jantar de Natal, que somos nós que oferecemos aos pais. Somos nós que trazemos a comida, tratamos da mesa, arrumamos a cozinha e juntamo-nos todos numa mesa enorme. Eu fiquei com duas senhoras, duas mães, uma de cada lado, que partilharam comigo as razões pelas quais estavam na Casa http://www.fundacaoronaldmcdonald.com/contactCasaPorto.aspx, que doenças é que as filhas tinham. E eu comecei a ficar com um nó na garganta. Comecei a pensar na relatividade das coisas. Estas senhoras a partilharem comigo sofrimentos graves, eu não imagino o que será ter um filho gravemente doente, com a possibilidade de o perder. E eu, com um nó a apertar-me a garganta, continuei a ouvi-las, a falar com elas, como podia, o que achava que podia, mas eu nem sabia bem o que dizer, era só uma mão que dava, ou um abraço. Nestas situações, não há muito a fazer. Quando chegou a altura em que não aguentava mais, fui para a cozinha, meter louça na máquina… nisto, sinto alguém ao meu lado e quando olhei, estava uma rapariga, uma mãe novinha, eu nunca a tinha visto aqui na Casa, e ela estava a chorar. Perguntei-lhe porquê. Ela disse-me: “vou perder o meu filho esta noite.” E eu não consegui dizer-lhe nada. A única coisa que consegui fazer, foi dar-lhe um abraço e chorar com ela. A Casa dá-me muito mais do que alguma vez eu posso dar em troca. Trabalhar para esta Casa traz-me uma gratidão enorme e sobretudo, a importância do relativizar tudo nesta vida. Comparado com o que estas pessoas estão aqui a passar, os nossos problemas não são nada, nada, nada… E, posso agora dizer que só agora consegui perguntar à Isabel (Isabel Aragão) se realmente o menino tinha morrido naquela noite e tinha. Tinha mesmo morrido naquela noite. É muito triste.

O meu mandato termina agora no final de 2018, mas apenas na teoria, porque eu não vou conseguir desligar-me da Casa e desta causa. Vou continuar a estar presente, e a ajudar a Isabel (Isabel Aragão). Como se diz aqui, a nossa casa é onde está o nosso coração e esta Casa também é um bocadinho do meu coração e vai cá ficar para sempre. Nunca vou desligar-me dela.

CA– As crianças são o melhor do mundo? Mas porque têm de sofrer? Pensas nisso? E como te pacificas com as respostas?
AM – Essa foi a primeira questão da minha vida. Eu perdi o meu pai aos 4 anos e só aos 24 ou 25 é que consegui aceitar isso. Até aí, eu não aceitava, achava que era uma injustiça, que eu não merecia, que não tinha feito nada para que aquilo me tivesse acontecido. E, só com essa idade consegui fazer o luto. Foi muito importante, porque só falar no assunto, para mim, era difícil. Eu era muito pequenina e lembro-me desse dia, como se fosse hoje. Aliás, tenho memórias anteriores a esse dia, lembro-me de coisas dos meus 3 anos de idade.

Lembro-me que a minha mãe tinha de ir trabalhar e eu muitas vezes ficava em casa a tomar conta do meu pai. Lembro-me bem de um banquinho para chegar ao intercomunicador, para abrir a porta à minha madrinha, ou à minha avó, que deviam vir fazer o almoço, ou qualquer coisa assim… Lembro-me da última vez que vi o meu pai, no Hospital de Sto. António e lembro-me do dia em que o meu pai morreu e da minha mãe me dar a notícia que o meu pai tinha morrido. Foi em casa da minha avó que a minha mãe me disse. Com 4 anos, o meu entendimento da morte do meu pai era como se ele tivesse ido fazer uma viagem, mas iria voltar.

Na altura, a minha avó tinha uma empregada, que na sua inocência, mas pouca sensibilidade, me disse, quando eu fui à cozinha, a tentar consolar-me, coitada, disse-me: “o teu pai morreu, é uma estrelinha lá no céu”. E eu dizia não, ele vai voltar. E ela, olhou-me nos olhos e disse-me: “não, ele não vai voltar nunca mais”. E eu aí tive, pela primeira vez a noção de que a morte não era afinal uma viagem da qual se voltasse e com o passar do tempo, fui confirmando cada vez mais essa certeza, à medida que o tempo ia passando e o meu pai não voltava. O sofrimento de uma criança, por mais inaceitável e inconcebível que nos pareça e parece, eu acredito que tudo tem uma razão de ser e se uma criança está a sofrer, há alguma razão por trás disso. Por mais que nos custe, que nos revolte, é porque tem de haver algo mais do que isto. Tem de haver. É assim que eu penso.

 

CA– Descreve-nos um dos teus dias?
AM-Um dia bom começa com a minha aula de yoga, das 08:30h às 09:30 da manhã, no Jardim do Yoga, que é maravilhoso e eu adoro. Vou a pé de minha casa para lá e adoro. O Alberto e a Aurora, que são os meus professores de Yoga são duas pessoas fantásticas, únicas, sempre disponíveis para ajudar toda a gente. São pessoas Zen, mas não é só no nome, são mesmo. a Depois do Yoga, vou para a BEST (http://www.bestmodelsagency.com). Lá, correndo tudo bem, ou mesmo havendo complicações, vamos resolvendo. Agora, já relativizo tudo, apesar de às vezes ser um pouco difícil, porque eu trabalho com pessoas. Tenho pessoas por todo o lado. Os clientes são pessoas, os manequins, tudo. Os manequins, na maioria a passar uma fase de crescimento em que tudo é um turbilhão, e eu adoro acompanhá-los e ajudá-los. Já me aconteceu, não muitas vezes, mas já detectei situações em que tive de avisar os pais, para que se pudesse segurar e a situação não ficar mais complicada e já ser tarde demais. Os almoços, mais ou menos de uma hora, são em casa, com a família, em que estamos mesmo juntos, a partilhar o momento de refeição em família. À tarde, regresso ao trabalho.
No fim dia, já em casa, adoro arranjar-me, aliás, desarranjar-me (risos), pôr-me à vontade, vestir-me de forma confortável, fazer o jantar e passar os serões em família. Já tive muitos anos de festa e de noite, já vivi muito tudo isso. Agora, não sinto necessidade nenhuma de o fazer. De vez em quando apetece-me ir a um jantar, estar com amigos, mas gosto muito mais da tranquilidade, dos meus mandalas, do meu cantinho e de estar com os meus, com aqueles que me são queridos.

CA – Qual é o teu maior sonho?

AM – Acho que é sentir-me feliz em permanência e acho que já estou a conseguir um pouco isso. Sentir que a felicidade está dentro de mim, independentemente de tudo o que possa estar a passar-se à minha volta, ter a capacidade de fechar os olhos, respirar fundo e encontrar alguma coisa que me faz feliz. A minha felicidade não passa pelo material, porque isso não me interessa nada, o ser feliz e o ser grata, foram as duas coisas que eu fui aprendendo e é o que faz todo o sentido na minha vida.

Obrigada Xana! Por seres uma das minhas pessoas

 

 

Realização e Fotografia – Igor Sterpin TUCANDEIRA FILMS

https://www.linkedin.com/in/igor-sterpin-4778a474/

 

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