“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” É mesmo?

A poesia é uma linguagem estranha e misteriosa que todos temos em nós.”, diz a Dina Ferreira.  Se calhar, é uma forma de vida de alguns, digo eu.

 

 

Guardo esta imagem da Dina, de há uns dois anos, a sair da livraria Poetria, na altura ainda dela, com aquele seu andar apressado, cheia de energia, numas calças de ganga rasgadas. De batom vermelho nos lábios e sorriso franco oferecido sem cerimónia a todos com quem se cruzava, sempre aquele seu jeito de ir compondo a franja grisalha, meia rebelde, como a própria livreira, endiabrada. Quero ser como a Dina, quando chegar à idade dela, foi o que senti naquele momento. Hoje sinto o mesmo. Acredita, como eu, que os sonhos são essenciais à vida, mesmo os que não se realizam nunca. “O sonho comanda mesmo a vida. Ter sonhos é o que nos mantém vivos e alerta.”

 

Nascida em Vila Nova de Gaia, “crescíamos ao sabor das perguntas e respostas para os problemas do nosso dia-a-dia modesto, sem muito espaço, ou nenhum, para as formulações do futuro ou do que queria ser quando fosse grande. Sonhava, quando muito, não em criança, mas já adolescente, em conquistar a minha liberdade. Mas havia sempre espaço para o sonho, que é a essência do Ser Humano.”

 

Leitora desde que se lembra de si, tem um livro emblemático, que destaca como sendo o primeiro, não pela ordem cronológica de leitura, mas pela marca que lhe deixou. Tinha 14 ou 15 anos e ditou o abandono das suas convicções religiosas. ”O Drama de Jean Barois”, de Jean Martin Du Gard. Foi o livro que mudou a vida da Dina, a catequista que cantava no Coro da Igreja e, que, desde aí, tomou “um caminho, irreversível, de não crente. Não crente em Deus.”  Que a sua fé no Sonho e no Homem, continua bem concreta e definida, digo eu e vejam vocês.

 

Veio para o Porto, cidade que conhece como as palmas das mãos e hoje vai documentando em fotografias e textos na sua página de Facebook, quando casou.

 

Aos 58 anos, já depois de reformada, decidiu tornar-se livreira –  endiabrada – e abriu uma livraria especializada e especialíssima. “Foi um misto de convicção, coragem e uma certa dose de loucura que me levou a abrir a Poetria. Para dar um passo destes, também é preciso sentir que vai ser bom, para si e para os outros e ter alguma visão de mercado. E eu   queria oferecer aos leitores os títulos de poesia e teatro que escasseavam nas prateleiras das outras livrarias”. Acreditou no sonho, agarrou na fé no sonho e na sua coragem e abriu a Poetria.  Foi o que fez em 2003 e não se enganou.

 

Apesar das dificuldades que teve de ultrapassar, porque a Poetria viveu sempre no fio da navalha, a livraria mantém-se e confirma a convicção da fundadora na sua decisão acertada. Entre muitos episódios que lhe foram confirmando essa certeza, há um que nunca mais esquecerá. Foi quando a Dina fez um apelo para que as pessoas viessem salvar a Poetria. E as pessoas vieram e compraram um, ou dois, ou três livros, e a Dina, e as pessoas que responderam ao seu apelo, salvaram a Poetria.

 

Em 2017, teve de a entregar, acreditando que à beira do precipício, uma pessoa tem de dar o passo atrás, ou ao lado, para poder recomeçar. E a Dina assim fez.   Como uma mãe dá, por amor, para adopção   um filho que sabe que não pode criar, a Dina passou “este seu filho” para as hábeis mãos do Francisco Reis  e do Nuno Pereira. A Poetria está viva e de boa saúde. E o sonho da Dina estava certo! Fazia todo o sentido abrir uma livraria especializada em poesia e teatro.

 

“O Francisco Reis e o Nuno Pereira, sonhadores, corajosos e trabalhadores”, como a Dina os descreve conduzem hoje os destinos da livraria, sempre com a livreira endiabrada por perto, claro! Entre os eventos que organiza e muitas outras coisas, faz uma nota, a que não chama crítica literária, uma nota semanal a dois livros, um de poesia e um de teatro.  Estes dois amigos da Dina, foram primeiro   clientes da livraria, processo normal a quem frequentava a Poetria da Dina, que nunca tratou os clientes como tal. Eu sei, que eu sou um desses exemplos. Lembro-me bem de me sentir em casa quando entrei na livraria pela primeira vez e a Dina me recebeu de braços abertos. Minha querida Cristina é assim que a Dina me trata. Tal como ela explica, “eu nunca os considerei clientes, eram pessoas, leitores, gente sempre surpreendente, desde as mais humildes às mais bem-sucedidas ou obscuras ou de imediato reconhecidas como importantes do ponto de vista intelectual. Eram pessoas que entravam na livraria, sempre encontros muito interessantes e muito felizes e muito bons para mim, para a minha própria aprendizagem. Claro que também aprendo muito com os livros. Acho que a poesia, as artes, ajudam, ajudam mesmo a encontrar algumas respostas e a curar ou a atenuar algumas mágoas. Mas, com quem aprendo mais é com as pessoas com quem me vou encontrando.”

 

 

Não consegue viver sem livros, nem sem sonhos. “Tenho sempre um livro à mão. Ando a acabar “A estranha ordem das coisas” de António Damásio e outro de Rui Lage”. “Neste momento, sempre foi e continua a ser o meu maior sonho,   a felicidade dos que me estão mais próximos. Pode parecer um pouco egoísta, mas é o que mais quero, que os meus filhos e o meu neto sejam felizes, que sejam aquilo que sempre sonharam. Este é o meu maior sonho e foi o que me acompanhou sempre, no meu dia-a-dia, em todos os momentos da minha vida, é que aqueles que eu amo sejam felizes. Eu tenho a minha vida vivida. Consegui umas coisas, outras não, mas se os meus filhos e o meu neto conseguirem ser felizes, eu sou feliz com eles. Outro sonho, a nível mais imediato, é que a Poetria continue. Se a livraria fechasse ia ser muito triste para mim e para muita gente. Assim, nas mãos do Francisco e do Nuno, é como se a minha vida continuasse através de um filho.”

 

Obrigada Dina, por ser uma das minhas pessoas!

Be First to Comment

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *