No Estádio do Dragão, Manuel Serrão responde: a vida é um jogo?

A dada altura da conversa, perguntei: o sonho comanda a vida? E o Manuel Serrão respondeu: “O sonho é como anda a vida. Assim é que é!” Foi uma conversa tão boa. Cheia de gargalhadas, como não poderia deixar de ser, excertos impublicáveis (hahahaha), e revelações surpreendentes. Muito obrigada ao Manuel Serrão por este momento de felicidade.

 

 

 

Fica aqui um pequeno resumo da vida do finguelinhas que sofria de asma, que era tímido e nem jogar à bola podia ou do empresário de sucesso, comunicador e portista convicto. Deixo-vos a história dos dois,  porque um é o outro, e também o acontecimento que transformou o primeiro no segundo.

Crescer numa família grande, tem que se lhe diga. Vivos são quatro, mas com o Manuel Serrão, eram seis irmãos no total. Imagino as brincadeiras em casa… Mesas cheias todos os dias, principalmente no Natal. Se do lado do pai, os dois irmãos morreram sem filhos, já do lado da mãe, havia um irmão e três irmãs, em que só uma tinha dez filhos, outra seis, outra mais seis, por isso, eram quase trinta primos!  “No Natal, havia, na véspera, o jantar em casa, só com a família nuclear. Era, por assim dizer, o momento mais enternecedor.  Lembro-me que não havia cartas ao Pai Natal, nem chaminé tínhamos. Deixávamos o sapatinho na sala e no dia seguinte, de manhã, acordávamos e íamos logo abrir as prendas. E depois, a parte mais divertida, era ao almoço do dia 25, com os tios e primos e segundos primos, todos juntos, era muito animado, chegámos a ser 70 pessoas, no total!”

 

Não nos surpreende ouvir este empresário de sucesso dizer: “Nunca fiz nada obrigado. Não me arrependo de nada do que fiz, porque fiz sempre o que quis. Pode parecer até bazófia, mas eu costumo dizer que sou uma pessoa feliz, porque nunca fiz nada contra a minha vontade. Se houve coisas que me custaram fazer? Houve. Passei por sacrifícios? Sim. Tive alguns problemas? Também. Mas, ter evitado isso, era mudar a minha maneira de ser.”

 

Faz-nos pensar que é assim que temos de fazer se queremos ser felizes. Na realidade, respeitando sempre o outro, tentando nunca magoar ninguém, não devemos nunca fazer nada contra a nossa vontade. Mas, será que estamos dispostos a pagar o preço? O Manuel Serrão está, como esteve sempre, mesmo quando o preço era tão elevado como o que ele pagou no episódio que nos relata:

 

Tive, em novo, um acidente de viação com o carro da minha mãe. O meu pai esteve quase um ano sem falar comigo. Isso custou-me muito. Mas, para evitar o acidente e o silêncio do meu pai, eu tinha de nunca ter arriscado conduzir, já com 18 anos. Eu não posso recriminar-me por ter tido um acidente. Arrisquei. Antes isso do que ter de andar sempre de motorista, ou de transportes públicos ou sempre de táxi. Eu fiz aquilo que quis, por isso não me arrependo de nada, porque nunca fiz nada contra a minha vontade. Arquei sempre com as consequências, mesmo quando foram más.”

 

 

A família deixa marcas, a todos os níveis, muitas vezes até na escolha da carreira. Neste caso, a influência veio dos tios com quem Manuel Serrão viveu os dois anos em que seu pai, Professor Daniel Serrão, esteve mobilizado em Angola. Ambos Engenheiros, um, o padrinho, era da Engenharia Química e o outro tio, da  Civil, foram quem o criou entre os 6 e os 8 anos, uma altura importante no crescimento de qualquer criança, ficou muito próximo deles.

Não admira que ao chegar à faculdade, isto antes do 25 de Abril, andasse com a mania das Engenharias. Mas, a vida é mesmo assim e vai-nos acontecendo. Ao jovem que andava convencido que seria Engenheiro, aconteceu a política. “… meti-me na política e a coisa corria-me bem, eu estava entusiasmado e na altura, quem queria seguir política, ia para Direito. Entretanto, já tivemos a tendência dos engenheiros (gargalhadas) na política, mas naquele tempo, na política eram todos advogados. Eu achava que, como gostava da política, era melhor ir para Direito. Anulei a matrícula em Engenharia, fiz História e Filosofia, cadeiras que não tinha feito, e fui para Direito.”

“Acabei o curso de Direito e, ao mesmo tempo que estagiava num escritório de advogados, fui trabalhar para o Comércio do Porto. O meu “bichinho” da Comunicação Social começa logo aí, quando acabo o curso. Vi logo que ser advogado não era para mim, embora tenha gostado muito do curso e tem-me ajudado muito na minha vida profissional, abriu-me horizontes, ensinou-me muitas coisas, a negociar, a raciocinar, a argumentar, mas o meu caminho não era por ali. Deu-me muitas ferramentas que ainda hoje me são úteis, é como se diz hoje em dia, o curso de Direito é “banda larga”, tem muitas saídas profissionais.

 Estive 3 anos no Comércio do Porto, de 1983 a 1986, eu gostava mesmo do que fazia, mas ganhava muito pouco. E a poesia, a gente aguenta até uma certa altura. Eu andava muito feliz. Ganhava muito pouco, mas era muito feliz a fazer o que fazia. Até que recebi um convite da, na altura AIPortuense, em que me ofereciam o triplo do que eu ganhava no Comércio do Porto. Aí achei que estava na altura de começar a sonhar novos sonhos, porque senão era feliz a fazer o que fazia, mas muito pouco feliz com o que ganhava. Aceitei o convite. Até calhou bem, que andava a passar uma fase menos boa no jornal, não gostava muito do director e conjugou-se tudo para eu ir trabalhar para a AIPortuense e fui inaugurar a EXPONOR, em 1987.

 Comecei a sonhar novos sonhos, foi uma vida completamente diferente, veio o associativismo, a organização de eventos, a gestão. Organizei uma feira multi-sectorial, apresentei a EXPONOR aos políticos, aos deputados, aos diplomatas, aos empresários, às associações, a toda a gente. E gostaram tanto do meu trabalho que uma das associações, pelos vistos, muito forte, que era o gabinete  PORTEX, dos têxteis,  quando o  Secretário-Geral deixou o cargo por um projecto privado, indicou o meu nome para o substituir. Foi assim que fui convidado para Secretário Geral do Gabinete Portex, em 1987, sem nunca ter ligado nada à moda, nem a trapos. E a PORTEX era, na altura, a maior coisa que havia de moda. Eu aceitei. Fui para lá ganhar ainda mais do que já ganhava na AIPortuense e fui, pela primeira vez, dirigir uma equipa, em que todas as pessoas eram mais velhas do que eu. Mais uma novidade para mim. Nunca o tinha feito.

 

 Foi de um dia para o outro. Nem tive como me preparar. Cheguei lá e comecei a trabalhar. Vivíamos o chamado boom cavaquista, um boom das exportações e o trabalho estava, de certa forma, facilitado. Eu costumava dizer à minha equipa que não precisava de vender nada a ninguém, só tinha de gerir as empresas que queriam expor nas feiras que eu organizava.”

 Com fases melhores e fases piores, houve duas coisas às quais sempre manteve ligação desde que começou a trabalhar: às feiras e à comunicação social, seja nos jornais, na rádio, ou na televisão, sempre, até hoje e vai coordenando.

E, de sucesso em sucesso, tem sido este o percurso ascendente do empresário de sucesso que leva a indústria têxtil e a moda portuguesas pelos quatro cantos do mundo.

Mas, este homem auto-confiante, comunicador e vencedor nato nem sempre foi assim. “Na Escola Primária eu era finguelinhas, sofria de asma, era tímido, era um bom aluno, mas não excepcional e era assim… Na Escola Secundária, já era um aluno completamente diferente. Dei um salto, fiquei quase com a altura que tenho agora, passei a jogar Basquetebol no FCP, ganhei outra consciência de mim, comecei a alargar, o corpo e os horizontes e passei a ser muito mais extrovertido, passei a querer ser chefe de turma e fui. Depois do 25 de Abril, quis ser líder da Juventude Partidária e fui, a ganhar eleições para o Conselho Directivo e ganhei. Na Escola Secundária, fui uma pessoa completamente diferente do que era na Escola Primária, mais próxima daquilo que sou hoje.”

Talvez nada aconteça por acaso mesmo,  e no caso específico do Manuel Serrão foi o Basquetebol no FCP!

“Eu acho que a prática do desporto, a maneira como me soltei, tudo o que tive de passar, sair do pavilhão à noite no antigo estádio das Antas e ir a pé sozinho para casa, mesmo sendo em Paranhos, a forma como os treinadores puxavam por mim, diferente do que acontecia em casa, tudo isto… Eu associo muito esta mudança de atitude ao facto de ter começado a praticar desporto, mas também de ter sido num clube como este. Eu fui Campeão Nacional de Basquetebol de Iniciados aos 13 anos! Foi o primeiro campeonato Nacional que existiu. Esse acontecimento, ser Campeão Nacional aos 13 anos também me deu outro afago ao ego, que até aí as miúdas não me ligavam nenhuma.” (gargalhadas)

Sem arrependimentos do que já fez, talvez se arrependa de coisas que deixou de fazer.

“Essa já é uma pergunta diferente. Tenho de pensar um bocado nela, porque nunca a fiz a mim próprio. Talvez… aí talvez, mas lá está, não fiz, ou porque não tive coragem suficiente e isso não se muda, ou porque tive medo de magoar alguém e se calhar não fiz e ainda bem. Se calhar, há coisas que gostava de ter feito que não fiz, mas se calhar não fiz, por boas razões.”

 Sem tempos mortos, na vida, livres vai tendo alguns, mas muito poucos. Até, porque muitas vezes, os momentos que são de lazer para a maioria, são para ele momentos de trabalho também.

“É considerado tempo livre eu amanhã ir jogar golfe a Amarante entre as 09h e as 14h. Isso é tempo livre? Se é tempo livre, sim. Mas, se me perguntares se alguma vez estou sem fazer nada, não. Nunca estou sem fazer nada. Nem que seja ler os jornais. Eu compro o JN, o Correio da Manhã, o Jogo e o Público, depois os semanários e as revistas e nunca consigo lê-los todos on time. Às vezes, quando tenho uma ou duas horas livres, ponho em ordem a leitura dos jornais. É trabalho? É. Claro que é, para quem faz comentário, para quem escreve crónicas, estar actualizado, é fundamental. Eu costumo dizer que trabalho onde os outros se divertem. Para mim, ler os jornais é trabalho, mas também é um prazer. E o mesmo me acontece em eventos de moda ou jogos de futebol. Estou a ver o jogo e sempre atento, porque depois vou ter de fazer os comentários.”

 

E porque “o sonho é como anda a vida” nas palavras de Manuel Serrão, o maior sonho “É sempre o próximo. Eu gosto de organizar eventos por isso mesmo. Porque andamos num stress enorme até à data do evento. O Portugal Fashion, quando aconteceu pela primeira vez, é um bom exemplo. Andámos num stress enorme, a primeira vez que fomos a Paris e a Nova Iorque…e quando se concretizou, ficou aquele vazio. Já está! Acabou. mas não acabou, porque no dia seguinte já tínhamos de começar a organizar o seguinte. O maior sonho é sempre o próximo. O próximo trabalho, a próxima conquista, a próxima viagem. Como eu não estou numa carreira, como o meu pai que escolheu a carreira de Professor e começou a subir os degraus da carreira, desde Professor Assistente, até chegar a Professor Catedrático. Eu não tenho, por assim dizer, esses degraus, por isso vivo sonho a sonho, vivo o dia-a-dia, evento a evento, paixão a paixão, é sempre o próximo ou a próxima (risos).”

 

 

Realização e Fotografia – Igor Sterpin TUCANDEIRA FILMS

https://www.linkedin.com/in/igor-sterpin-4778a474/

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