“Eu não sou um homem religioso, portanto estou perfeitamente tramado.”

No vídeo, uma conversa, no texto outra. É sempre assim com todas as minhas pessoas. No vídeo, qual é o sentido da vida. Na escrita, uma conversa informal para ficarmos a  conhecer melhor a pessoa que estamos a ver.

Aviso já que vem aí uma história de amor, aliás várias, e estórias também. Que o Prof. Helder Pacheco, pensador, cronista, investigador da cidade do Porto e do país, entrança a sua vida na da sua cidade, a Invicta e, vai desenrolando a narrativa da sua vida, enquanto nos conta a  História do Porto e de Portugal. Enquanto que no vídeo, ouvimos o Prof. Helder Pacheco a falar sobre o sentido da vida, sobre a consciência colectiva e sua influência no indivíduo, sobre o tempo e o seu poder curativo.

 

 

Já na entrevista escrita, ouvimos o Historiador a falar do pai e do avô, das brincadeiras de criança e de como conheceu o amor da sua vida.

 

Boas memórias

 

O Prof. Helder Pacheco é  um humanista, uma característica com a qual nasceu e que a vida, foi sublimando. Já escreveu mais de 40 livros sobre o Porto e ainda não acabou o mais recente. É um workaholic, numa espécie de truque para espantar a morte. Entrecruza a sua história  com a história da cidade e do país. E como poderia ser diferente, se um homem é também as suas circunstâncias? Também, mas não só. Que este homem, criança de infância triste, com uma doença que lhe apareceu com apenas 7  anos, escolheu sempre privilegiar as memórias felizes.

Ficamos a saber dos passeios dados com o Avô, Monárquico, a visitar o Porto de Leixões, numa era mais ingénua em que todos podiam entrar e ver os navios, até os de guerra, à vontade. Também deambulamos pelo Porto da Luta Livre e das Lutas de Boxe no Palácio de Cristal, que eram os passeios por onde o seu Pai, Republicano convicto o levava. Outras vezes, também lhe calhava um comício ou outro e, ainda foram algumas as vezes em que teve de fugir às confusões e altercações, quando as coisas davam para o torto nesses ajuntamentos de cariz político.

Toda a gente tem uma história, aliás, acho que somos todos histórias, num conjunto de estórias, que fazem de nós quem  somos. Umas com final mais feliz do que outras, mas é o que somos. O Prof. Helder Pacheco tem muitas, das boas. Conta-nos aqui algumas, até de como conheceu a sua esposa, o amor da sua vida. Se foi amor à primeira vista? Vocês tirarão as vossas conclusões.

 

CA-Nasceu na freguesia da Vitória em 1937, 31 de Janeiro. A que brincava?

PHP- Brincava muito, tinha um automóvel de pedais (aliás anda por aí publicada nos jornais e nas revistas uma fotografia minha com ele). O meu pai deu-me um automóvel de pedais, o que na altura era assim uma coisa muito rara. Eu brincava… nós podíamos brincar nas ruas, porque as ruas eram nossas. Quase não havia carros, nem estacionamentos na rua. Eu brincava com o meu automóvel de pedais nos passeios da Rua da Vitória. À bola não jogava muito, porque a rua não dava para isso. Para jogar à bola, tivemos de arranjar campos de futebol improvisados noutros sítios. Campos de terra… O que nós jogávamos muito na rua, nos passeios, que davam para isso, era a Sameira. Eram as tampas, as sameiras das garrafas de laranjada e nós jogávamos muito à  Sameira nos passeios.

CA- E ao berlinde?

PHP –Ao berlinde não, nem por isso. Eu, no Porto, nunca vi jogar-se muito o Berlinde… No Verão, jogava-se muito o Prego, na praia. Usávamos um prego de aço, tínhamos que dar umas voltas com ele e depois atirá-lo para que ele ficasse enterrado e ele tinha de ficar sempre na mesma posição. Era o jogo do Prego.

CA- Em que praias? Na Foz? Vila do Conde?

PHP  –Eu nunca fui muito nem para Vila do Conde, nem para a Póvoa. A minha família ia muito para a Foz e sobretudo, Miramar e Aguda. Depois mais tarde, já depois de casado, Granja. Íamos para lá com uns amigos que lá estavam.

CA – Avô Monárquico, Pai Republicano, cresceu a aceitar e a respeitar as diferenças?

PHP – Cresci, porque eles davam-se muito mal. De tal maneira, que um dia se ameaçaram de morte. Nós temos de ver o seguinte, a época (1937 em diante) era extraordinariamente violenta e conflituosa. Portugal era um país muito violento. Hoje temos um país muito mais ponderado, muito mais calmo, muito mais pacífico. Ainda há pouco tempo num ranking, ficou em 5.º lugar dos países mais pacíficos entre cento e tal países. Mas isto é hoje. Naquela altura, era uma sociedade muito violenta, muito dividida e nós tínhamos isso em casa. O meu avô era um monárquico intransigente. Esteve na Monarquia do Norte, exilou-se, teve de andar fugido uns meses, na altura do golpe de 1918, em que tentaram reimplantar a Monarquia, o Golpe do Sidónio Pais. O meu avô teve de andar fugido após a morte de Sidónio Pais e esteve meses fugido, ninguém sabia dele.

O meu pai era um Republicano convicto. Esteve de armas na mão, com 16 anos, no 3 de Fevereiro de 1927, que foi a última revolução romântica contra a ditadura. Se o 3 de Fevereiro tem vingado, e teria sido muito fácil de vingar, porque a maioria do exército era tendencialmente republicano, só que Lisboa… Como o golpe não teve origem em Lisboa, mas do Porto, aliás o 31 de Janeiro é exactamente a mesma coisa (31 de Janeiro, primeira tentativa de golpe republicano antes do 5 de outubro de 1910). Lisboa esteve a ver como poderia puxar o golpe lá para baixo e só a 7 é que aderiu. Nesse compasso de espera, o Porto ficou subjugado, com mais de 100 mortos e grandes destruições. Se Lisboa tem aderido ao golpe militar de Fevereiro, o que se tinha evitado?

Primeiro, a República tinha-se purificado e depois, tinha chegado a um ponto de não retorno. A República caiu de podre em muitos aspectos. Nunca se entenderam…O meu pai tinha muitos documentos em casa em que diziam: queremos a República, mas não a mesma. Assim, a República purificava-se, segundo tinha-se evitado uma ditadura retrógrada muito longa, sobretudo com a grande tragédia nacional que foi a guerra de África. Foi uma tragédia, para brancos e para negros, para todos.

 

CA –  Nos seus tempos de criança era seguro andar na rua até que horas, na freguesia da Vitória?

PHP-A qualquer hora.  O pior que podia acontecer era aparecer um bêbado. Havia muito mais bêbados naquela época. O alcoolismo era um problema muito sensível nessa altura. Tirando isso, era seguro. Os gatunos actuavam de dia. Os carteiristas actuavam de dia. À noite, andavam os pilha-galinhas e esses andavam por outras freguesias, por onde houvesse galinhas (risos). Portanto, era seguro andar a qualquer hora da noite, na Vitória.

 

 CA – Mãe, tripeira de gema. Iam ao Bolhão, às compras? Como era a vida na Baixa naquela altura?

PHP-Nós vivíamos ao lado do Mercado do Anjo, portanto era a esse mercado que a minha mãe e a minha avó iam. Ficava a 100 ms de nossa casa. E a vida era toda ali na Baixa. Uma baixa completamente diferente da que temos hoje. Penso que vai voltar a ser o que era, mas sempre de forma diferente. Sobre o futuro do Porto, tenho algum optimismo. Há 10 anos atrás ninguém diria que o Porto dava a volta como está a dar. A vida da Baixa vai voltar, não tenho dúvidas, mas vai ser diferente.

 

CA –  As pessoas vão voltar a viver na baixa, vão ocupar as casas do Porto?

PHP – Esse é o  grande desafio. Se for possível reabilitar a baixa como está a ser reabilitada, mantendo um certo espaço de habitação para as pessoas viverem, então teremos novamente a Baixa viva. É que sem habitantes não é uma cidade, é outra coisa. É um museu ou outra coisa qualquer. Esta transição de ser pensada assim, com habitantes. Porque nos tempos em que eu vivia na baixa, já havia comércio, aliás até havia mais comércio do que actualmente. Havia companhias, havia sedes de bancos e também havia muita gente que vivia na baixa. Naquele tempo, nascia-se, vivia-se e morria-se na baixa. Hoje ainda temos sedes de empresas, mas cada vez menos, Bancos, cada vez menos, há hotéis, mas não há gente a viver, migrou tudo para a periferia.

 

 

CA – O Porto e o Turismo, questão inevitável para quem, como eu e o Professor adoram esta cidade. Mas, com uma Universidade conceituada no mundo inteiro, não podemos fazer dela mais a cidade do conhecimento, cultura e da ciência?

PHP- A Universidade do Porto é uma das minhas grandes esperanças sobre o futuro do Porto. Eu vejo com grande agrado o boom turístico da cidade. Acho que será completamente incompetente não se perceber que o turismo é uma grande máquina económica no mundo moderno. A mim não me preocupa que o Porto receba 3 milhões de habitantes, preocupa é que ele ainda não esteja a receber 6 milhões. Por uma razão, eu fui a Bruges, de propósito. Estava em Paris com a minha mulher e fui de propósito a Bruges, para perceber. Porque Bruges é  Património Mundial,  recebe 6 milhões de turistas, tem 200 hotéis e não tem uma área metropolitana como o Porto. O porto tem mais do dobro dos habitantes de Bruges, tem uma área metropolitana com 1 milhão e meio e ainda não tem 100 hotéis, portanto há uma grande margem de progressão para o turismo. Na minha opinião, não há turismo a mais, há é Porto a menos. O que quero dizer com isto é que o Porto tem de dar mais.

 

CA – Refere-se à cultura?

PHP – À cultura e não só. Agora, metendo um bocado de política ao barulho, o dr. Rui Rio é muito atacado ainda hoje pelos seus inimigos políticos, os seus adversários, por gostar muito das corridas automóveis. Isso é de uma profunda incompetência, porque se há  coisas que fazem parte do ADN da cidade são duas: o Futebol Clube do Porto e as Corridas de Automóveis, cujas primeiras se fizeram aqui em  192 e tal, na Boavista. Os Circuitos da Boavista, dizem, que atraiu ao  Porto mais de um milhão de pessoas. Por isso, é preciso gerir bem o que se oferece a quem vem, mas tem que se dar mais.

 

CA – Dava  passeios com o seu avô e com o pai, como eram?

PHP – Dava passeios diferentes. Eles tinham perspectivas muito diferentes sobre a vida e sobre tudo. É engraçado. Muita gente acha que eu sou muito católico. Porque eu defendo muito as tradições religiosas. Eu defendo as procissões, as festas, os santos das ruas, conservar os santos, convservar as alminhas, o Compasso, o Natal, a Páscoa, a Queima do Judas, o corpus Christi, eu defendo toadas as tradições religiosas e muita gente pensa que eu sou católico. Não sou. Nunca fui. Agora o que não sou é burro e sei muito bem qual é o peso da cultura religiosa e o peso da religiosidade na agregação e na identificação de um povo. O que eu acho é que será preciso potenciar. Há muito mais… eu até fui recentemente convidado para escrever um livro, só que agora não tenho tempo. Estou a escrever outro, vai-se chamar “Porto, reconstruir a alma”. Eu acho que o Porto físico está quase completamente reconstruído, as casas e as ruas estão reabilitadas,  e a alma? A alma ainda não está. É que muita da alma do Porto está espalhada por  Canidelo, Vila do Conde e Póvoa do Varzim. A alma do Porto chama-se as pessoas do Porto. Depois de acabar este livro, eu atiro-me ao outro.

Os passeios com o meu avô e com o meu pai eram completamente diferentes. O meu pai era um grande desportista. Começou por jogar Hóquei em Campo no Académico e os passeios com o meu  pai era ou a ir ver, Domingos de manhã, a ir ver desafios de Hóquei em Campo, que ele jogava. Naquela altura, eles pagavam tudo, os equipamentos e as viagens. Era amadorismo puro, jogavam e ainda pagavam por cima. E também se aleijavam. Lembro-me que uma vez o meu pai fez um ferimento num dedo, num mindinho. Deu cabo daquele dedo e nunca mais recuperou. Assim, com o meu pai, de manhã, eram jogos de hóquei em campo, à tarde, aos Domingos, Futebol. Noutros dias à noite, era ir ver Luta Livre Americana ao Palácio de Cristal ou ao Parque das Camélias. Tínhamos disso no Porto. Aquilo a que hoje se chama de Wrestling, era ao que íamos assistir. Boxe. Também íamos assistir a lutas de Boxe, ao Parque das Camélias, ao Campo de Jogos do Fluvial, em Duque de Loulé ou ao Palácio (de Cristal), que era um sítio onde se praticavam muitas modalidades desportivas. Noutros dias, era ir ver Hóquei em Patins ou Basquete ou Remo, porque ele depois fez-se Timoneiro do Fluvial. Portanto, com o meu pai, era sempre desporto.

Já com o meu avô, era ir passear de Eléctrico. Normalmente o nosso preferido era a Foz. Apanhávamos o Eléctrico na Praça da Liberdade e se fossemos para a Foz, saíamos onde está agora uma Pizza Hut ou qualquer coisa do género. Havia lá um pavilhão, chamado Pavilhão de Carreiros, onde me lembro de beber Mazagrans ou Groselha. O refresco de groselha era um luxo. Não havia leitarias, que o Porto nunca foi uma cidade de leitarias, contrariamente a Lisboa. Estes eram os nossos passeios. Outras vezes, íamos mais longe, até Leça e íamos a uma casa que se chamava “o Bem arranjadinho”, que ainda existe, e que era especialista em queques à Inglesa. Nós tomávamos chá com leite e comíamos queques à inglesa, aqueles queques com papel por fora e íamos ver navios. Na altura, havia uma ditadura em Portugal, e nós circulávamos com uma facilidade impressionante por tida a parte, exceptuando perto dos quarteis. O Porto de Leixões estava aberto, pagava-se não sei quanto, 5 escudos ou uma coisa do género e nós íamos visitar os navios, podíamos entrar em todos, nos de guerra e tudo. Eu delirava andar a ver navios com o meu avô.  Tínhamos acesso a tudo. Hoje em dia não é assim, é preciso autorizações e controles para tudo. Naquela época, era um mundo muito mais ingénuo e no entanto, tínhamos feito a 2.ª Guerra Mundial. O meu avô nunca tentou influenciar-me em relação às suas opções políticas. O meu pai puxou-me mais…era uma coisa que ele achava que não devia abordar comigo. O meu avô era assim: à mesa, não se fala, porque a mesa é para comer. À mesa, tínhamos silêncio. Eu, ainda hoje tenho alguma dificuldade em falar à mesa. Só falávamos depois de acabar, um pouco como os ingleses. Os miúdos não bebiam vinho. Isto hoje parece uma coisa estranha, mas na época não era. Eu nunca bebi vinho, nunca na minha vida bebi vinho, até hoje. Bebo água, excepto Vinho do Porto. Só bebo Vinho do Porto. Nunca bebi vinho, nem cerveja, nem nada disso. Influências marcantes do meu avô.

 

Com o meu pai, as coisas eram diferentes. O meu pai gostava muito de comícios e levou-me a ver alguns comícios da oposição. Às vezes, tínhamos de fugir. Eu lembro-me de ir a um comício, marcadamente de Esquerda. O meu pai ia a tudo o que fosse da oposição. Fui ao comício do Norton de Matos, no Campo do Salgueiros, outro na Fonte de Moura e fui a outro num campo de milho, na Praça das Flores, que agora é a Alameda 25 de Abril. e  com estas idas aos comícios com o meu pai, eu sou republicano e não monárquico, influências do meu pai e da muita literatura a que tinha acesso. Depois havia mais uma coisa que  distinguia o meu pai do meu avô,  e teve muita influência também. Ainda hoje tem. Aquele monte de revistas que está ali é mais um exemplo. Durante a 2.ª Guerra Mundial, o meu pai era anglófilo. A cidade estava dividida entre anglófilos e germanófilos, estes em muito menor quantidade, eram geralmente os salazaristas e a gente mais rica da Foz e por aí. O meu pai era um anglófilo convicto, distribuía propaganda e tudo, andava com um distintivo da RAF na lapela. Um dia um tipo da PIDE arrancou-lhe o distintivo, que era proibido. Isso durante a primeira fase em que o Salazar achava que os alemães iam ganhar a guerra.

 

 

O meu avô era germanófilo e sendo-o, aquilo que eles. Não tinham esta doçura de viver, de se viver assim a liberdade, de celebrar o progresso, a comunidade, o associativismo, a democracia. Nós, em 1944, aprendíamos com a cultura americana o significado da liberdade, das eleições. Nós víamos o que era uma democracia. O meu pai, à noite, ouvia a BBC  e “ A Voz da América”, era um programa em directo, em que as cantoras e os cantores americanos cantavam os sucessos da época. O Frank Sinatra era o meu ídolo. Com os alemães não acontecia a mesma coisa, até porque a língua era muito mais esquisita e eles eram muito mais fechados. Eram fechados. E sobretudo, nós sentíamos que não havia ali uma democracia a funcionar.

Se o meu fosse vivo, ele morreu em 1990, nem sei o que se passava na época em termos de escândalos e vigarices e politiquices, havia seguramente menos vigarices do que hoje, apesar de tudo. Ou conheciam-se menos, agora conhecem-se mais. Ainda estava tudo muito escondido. O meu pai antes de morrer, naquela época, dizia, tudo isto me mete nojo. Não era esta a República que eu queria, porque ele sempre foi um tipo íntegro. O meu pai achava que os políticos deviam andar a pé ou de eléctrico, para estarem perto das pessoas, para ouvir o que elas diziam. E aceitava que um político, quando deixasse de exercer as suas funções, voltasse a fazer o que fazia antes do cargo e não podia ganhar nem mais um cêntimo. Ele era um verdadeiro Republicano e não propriamente de Esquerda. Eu estou convencido que se fosse hoje, ele seria um social – democrata no verdadeiro sentido da palavra, à escandinavo, que defende o mercado, mas pensando primeiro no benefício do indivíduo.

 

CA  – Acha que a sua paixão pelo porto lhe veio destes passeios que fazia pela cidade, tanto com o seu pai como com o seu avô?

PHP-A paixão pelo Porto… claro que nós somos muito marcados pela nossa infância, e eu tive uma infância muito infeliz no Porto, mas ao mesmo tempo, nós temos um aparelho fantástico que se chama cérebro, que tem a capacidade de selecionar (…) a infelicidade apaga-se e ficamos com mais recordações de felicidade. Eu fui apanhado por uma doença terrível da época, que se chamava tuberculose óssea. Uns eram apanhados pela Poliomielite, para a qual  não havia vacina, outros por esta doença, que apanhava principalmente as crianças. Ainda hoje o meu braço esquerdo só tem 25%, por causa dessa doença. Tive de fazer muita recuperação, não havia fisioterapeutas, na altura. Eu tinha dores horríveis, e fiz, durante anos seguidos, sessões de radiologia de raios ultravioletas no Hospital do Carmo. Isto apareceu-me aos 7 e durou até aos 12, 13 anos. Impediu-me de jogar futebol, bastava eu levar um pequeno encontrão no braço, para ter logo dores horrorosas. Havia alturas em que eu ia para a escola com o braço como que atado, para o proteger, muitas vezes tive de dormir com a roupa que trazia vestida, porque as dores eram horrorosas. Não havia medicamentos eficazes na altura. Fiz uns tratamentos com uma coisa que era contra o raquitismo, uma coisa chamada VI-D, que o meu pai mandava vir da Suíça, era vitamina D.

 

Essa fase, que foi uma fase muito marcante na minha vida, como na de  de qualquer pessoa, marcou-me também por outro motivo. É que graças a ela, fiz outras descobertas, designadamente quando estava no hospital do Carmo, nos tratamentos, horas  com radiações e em que eu lia tudo  o que me vinha à mão. Eu li o Eça de Queiroz aí com 7 ou 8 anos, “O Primo Basílio”, também li Júlio Dinis, Ramalho Ortigão, porque o meu pai tinha todos esses autores  em casa. A minha mãe ia comigo às sessões de radiação, ficava a fazer crochet e eu lia. Eu estava quase às escuras, a luz das radiações era uma luz violeta, mas havia a luz suficiente para ler. Depois, como fiz muita praia, a solução passava muito pela luz do Sol. Aliás, chegou a haver um Sanatório na Foz, aquela escola que lá está, era o Sanatório para doenças relacionadas com a falta de vitamina D. Com a doença, mudou muita coisa,  fiz outro tipo de amizades, tive outro tipo de brincadeiras e outro tipo de actividades, muito menos ligadas à parte física, que eu sempre fui um finguelas, nunca tive força física e muito mais ligado às actividades intelectuais, sobretudo à leitura.

 

 

CA – Como conheceu o amor da sua vida?

PHP – Conheci a Maria José, nós começámos por frequentar a Faculdade de Belas-Artes, por opção do meu pai. Que eu gostava era de Letras, sempre escrevi bem, só tinha notas de 17’s, 18’s, mas o meu pai achava que as Artes eram o caminho que eu devia seguir. Fui para Belas-Artes por causa do meu pai e fui bom aluno até. Foi lá que conheci a minha mulher. Se não tivesse ido para Belas –Artes, talvez não tivesse conhecido a minha mulher.

 

CA – E foi amor à primeira vista?

PHP – Não, foi p’raí à quinta ou à sexta (risos). foi difícil, porque ela não é do Porto, não é portuense. E não sendo portuense, fazia uma grande diferença na altura. Ela tinha um background completamente diferente do meu. Ela é de um sítio lindíssimo, Montemor-O-Velho, espantosamente bonito. Até a mentalidade dela não tinha nada a ver com o Porto. Ela contou-me que quando chegou ao Porto pela primeira vez, desembarcou em S. Bento e estava um dia cinzento e húmido, quase de chuva, e ela pensou para com ela: onde é que eu me vim meter? Que tristeza. Hoje já é mais portuense do que muitos portuenses.

 

CA –  Como foi, quando conheceu os pais da sua mulher? E vice-versa?

PHP – Não foi fácil porque a Maria José era filha de uns senhores importantes de uma vila do interior, parada no tempo. Queriam que ela fosse farmacêutica e ela como é muito rebelde não quis seguir Farmácia, queria Artes, a minha sogra tinha tido uma Professora de Artes privada, como menina de bem que era, e  houve  uma certa desconfiança inicial relativamente a um tipo desconhecido do Porto. Este tipo da cidade e logo do Porto, que era uma cidade cotada como rebelde e malcriada e manguela.

 

CA – Manguela, a cidade do trabalho, Professor? 

PHP– Manguela, porque uma cidade que faz revoluções é uma cidade manguela. Manguela no melhor sentido da palavra. Eu gosto de manguelas, rebeldes, que não amocham. O governo não servia, o Porto corria com ele…

 

CA – Então, dizia, não foram fáceis os primeiros tempos de namoro com a minha mulher?

PHP  – Não. Não foram fáceis.  Eu tive de escrever uma carta ao meu sogro a dizer que estava cheio de boas intenções e que ele não tinha nada que se meter no assunto. Era uma carta até um bocado sobre o agressivo. Tratava-o por “Exmo. Senhor”, na despedida, nem Venerador, nem obrigado, como era costume de boa educação na altura. Penso que ele terá gostado do estilo e acabou por me aceitar. Não namorámos muito tempo, 1 ano mais ou menos e resolvemos casar e ficar a viver no Porto.

 

CA – E a família do Professor, como acolheu a D. Maria José?

PHP – Acolheu-a com desconfiança, por ser uma estrangeira. Houve um incidente na primeira vez em que a Maria José jantou em casa dos meus pais.  Ela nunca foi de comer muito. Ainda hoje, um dos problemas que ela tem, é de comer muito pouco. E o meu pai era um bom garfo. Sempre foi. No Natal, não queira saber, ele repetia três vezes a Bacalhoada, e adorava pratos substanciais à moda do Porto. E então, nesse  primeiro jantar com a minha família, o meu pai, vendo que a Maria José comia pouco, insistia para que ela comesse mais, e ela sempre dizendo que não, que obrigada, que não tinha vontade. Então o meu pai sai-se com esta: quem não é para comer, não é para trabalhar. Como burguês da Baixa do Porto, movia-se muito em torno destas frases feitas, conceitos, dogmas em que eles confiavam. Outras eram a célebre: amigo não empata amigo, frases feitas e disse-lhe esta. A minha mulher, namorada na altura, passou-se, ela que é muito pacífica, passou-se! Respondeu na hora: “eu farto-me de trabalhar!”. Porque ela na altura já era professora. Tinha muitas horas de trabalho e, para além disso, estava ainda a acabar o curso. Depois ainda tinha de ir a Coimbra fazer um curso de Ciências Pedagógicas e ela estava a fazer isso tudo, trabalhava imenso. E foi assim o nosso primeiro jantar, mas as coisas depois amenizaram-se e tivemos anos muito felizes. Infelizmente, a minha sogra morreu muito cedo. A minha sogra, que era uma figura muito simpática e muito educada, a típica Senhora de Província, com todos os atributos que encarnam uma certa educação de Província. Morreu muito cedo. Fez-nos falta.

 

CA- Qual é o segredo para um casamento longo e feliz?

PHP – Casámos em 1951. O segredo para um casamento feliz é primeiro muitas concessões, muita liberdade, em todos os sentidos: de pensamento, de acção, de actividade, depois muitos focos de interesse em comum. Algum conservadorismo, porque quando uma coisa funciona  bem, não há por que mudar. Um casamento não é só um contrato, é também algo um acordo tácito de convivência. Nós os dois, sendo muito diferentes, sempre tivemos muita coisa em comum. A minha maneira de ser é muito diferente da da minha mulher. E esta diferença também enriquece um casamento.

 

CA-E o amor?

PHP – O amor é um conjunto destas coisas. Nunca fui muito dados às paixões metafísicas da definição do amor. Para mim, o amor é feito de pequenas coisas e pequenos gestos, não é de gestos grandiosos, é de pequenas coisas. Por exemplo, eu recordo-me, ainda há dias, encontrei ali numa gaveta, uma carta da minha mulher ao pai que é um verdadeiro encanto ler aquilo. É uma miúda a escrever ao pai e ler aquilo comoveu-me tanto, que eu quase que me apaixonei por ela outra vez. E isto é um pequeno gesto.

“Não é com certeza uma prenda rica, mas em todo o caso vai muito daquilo que tu pretendes dar em cada dia que passa.” Maria José, 1959, dedicatória ao prof. Helder Pacheco, no livro que lhe deu “Canciones” de Federico García Lorca. E pronto! O amor é isto. Não são palavras abstractas. Íamos por alguns sítios da cidade, pelas escadas do Carolina (a escola Carolina Michaelis) e outros, ali no Campo Alegre, nós sempre gostámos muito do Campo Alegre. Há aqui um poema que é o poema de que nós mais gostamos, que nós passávamos a vida a lê-lo, que começa assim:

 

“La primera vez no te conoci

La segunda si”

Federico García Lorca

E connosco foi assim quase…

 

 

CA – São os dois privilegiados por terem encontrado um amor assim. Sente isso?

PHP- Acontece, mas nós pertencemos a uma geração que tinha uma maneira de encarar a vida de forma diferente. O trabalho também contribui para enriquecer a vida de um casal e o facto de nós os dois trabalharmos duramente, sempre e de nos ajudarmos mutuamente, também eram trabalhos aliciantes, de que gostávamos muito. Houve uma fase em que eu tinha um cargo importante no Ministério da Educação, e a minha mulher ajudava-me muito e e isso aproxima as pessoas. Outra coisa: ouvir e gostar da mesma música. Quando uma altura tínhamos de ir a Coimbra, numa altura em que a Maria José estava a fazer lá  um curso, nós gostávamos muito de ir a uma determinada discoteca. Discotecas não eram sítios onde se dançava, eram lojas onde se compravam discos. E nós passávamos tardes de Sábado a ouvir discos e depois comprávamos  um ou outro de que gostássemos mais. Eu ainda tenho aí discos de um famoso pianista americano, chamado George Shearing -era inglês, mas fez-se americano – um dos grandes pianistas do Jazz, que é hoje um clássico, que nós comprámos em Coimbra, numa dessas tardes passadas nessa tal discoteca. E o amor é isto também.

Eu sempre tive uma grande liberdade para fazer tudo o que me surgisse e sempre tive uma rectaguarda que entendia que eu tinha de fazer o que tinha de fazer. Eu não tenho dúvidas nenhumas que faltou muitas vezes em casa por compromissos profissionais. Houve uma fase da minha vida em que eu todas as semanas participava em conferências, ursos. Na fase em que eu estive no Ministério ( da Educação), eu passava semanas nos Açores, na Madeira, no Algarve, porque a minha presença era necessária nesses sítios e isso foi sempre muito bem entendido.  Quando regressava, sentia que era o regresso ao Lar. Havia outra coisa que também é um sinal, ou de burguês conservador ou de outra coisa, mas sei que é um sinal, sempre vim carregado de prendas para toda a família. Vinha carregado de tudo o que cá não houvesse. Às vezes vinha carregado.

Mais uma a propósito do que é o amor. Estávamos em Paris. Eu fui ver  o Mercado, enquanto a minha filha e a minha mulher foram passear pelas ruas. Eu vi esta peça, comprei-a para a minha mulher, escondi-a e à noite, quando chegámos ao hotel, dei-a à minha mulher. Para mim, o amor é isso, é muito pragmático.

 

O Bom Pastor e o Alfinete. E é isto o amor.

Estivemos em Dublin, uma noite andávamos a passear e uma noite, estávamos a passar por um antiquário e a minha mulher vê uma figura lá dentro e diz: “que coisa linda. Muito gostava de ter aquilo.” Era o Bom Pastor. No dia seguinte, de manhã, elas foram para as lojas de roupa e eu fui comprar o Bom Pastor à Maria José. Se me perguntar o que é o amor. O amor é isto!

 

 

CV ( resumidíssimo e o mais actualizado)

Lecciona a disciplina de História Social e Cultural do Porto e Literatura do Porto no Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes

Escreve crónicas para o Jornal de Notícias há quase 30 anos – os textos publicados entre 2014 e meados de 2017 foram recentemente compilados em “Porto nos Dias do Meu Tempo”.

Prepara livros para edição em 2018 e 2019: O primeiro compilará textos vários, das tabernas à reabilitação do arroz doce. Para 2019 prevê sair O Porto das Pequenas Coisas (“uma fechadura, uma porta, uma janela”), assente em fotografias.

Grande Oficial da Ordem de Mérito (2006), entre outras distinções honorárias

 

Obrigada Prof. Helder Pacheco, por ser uma das minhas pessoas.

 

Realização e Fotografia – Igor Sterpin TUCANDEIRA FILMS

https://www.linkedin.com/in/igor-sterpin-4778a474/

 

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