“Cada pessoa é um ser completamente único, individual e encerra em si um mundo. Não há fórmulas, não há teorias…”

No vídeo, uma conversa, no texto outra. É  assim com todas as minhas pessoas.

A Isabel conquistou-me com a sua gargalhada. Acho que o verbo certo  nem é conquistar, é contagiar. Foi isso! Foi há cerca de 3 anos, por esta altura, na estação de Metro da Senhora da Hora. Nessa altura, eu andava muito de Metro. Ia muito à  Baixa do Porto, uma Consultoria de Comunicação numa Start Up fora de série, a KINEMATIX.  Circular assim, dava-me tempo para os meus livros e a minha música e tudo o resto.

 

Conhecemo-nos na Estação de Metro da Senhora da Hora dizia eu,  quando a “Comida de Rua” tinha lá uma cafetaria, um espaço, um cafezinho, o que lhe queiram chamar. Parei lá um dia para tomar um café e a Isabel, reconheceu-me da RTP. Nessa altura, já só fazia o magazine de moda, na RTP2. Sem cerimónia, a Isabel disse logo o quanto gostava do meu trabalho e de mim e outras coisas. Começámos a falar como se nos conhecêssemos desde sempre. E tem sido assim, até hoje. Fui conhecendo melhor esta mulher, inquieta por natureza, de coração enorme, que com a sua  gargalhada vai espantando as vicissitudes da vida e a vai distraindo da morte.

 

CA- Quantos irmãos tens?

IT – Tenho 2  irmãos, uma irmã e um irmão. Nós somos 3,  de 5 em 5 anos, eu de 45, o Pedro, de 50 e a Nini, Helena, que tem 55 anos.

 

CA -A que brincavam?

IT-Olha, a que brincávamos? A minha irmã não me ligava nenhuma, porque temos 10 anos de diferença. Agora não, porque chegámos a um ponto em que temos vidas muito parecidas, mas na altura, a diferença era enorme e não me ligava nenhuma.  Com o meu irmão picava-me imenso. A minha brincadeira era eu querer brincar com ele e ele não brincar comigo, portanto tive de fazer os meus próprios amigos.

 

CA-Brincavas na rua?

IT – Sim. Sempre. Na rua. Eu sou do Porto, sempre vivi cá. Os meus avós são do Porto, da zona do Bonfim. Antigamente, dava para brincar na rua no Porto. A minha família é toda do Porto, e isso foi uma coisa que me marcou imenso, na minha infância e adolescência. Enquanto que todos ou quase todos os meus amigos tinham aldeia para onde iam nas férias, na Páscoa, no Natal…eu não tinha aldeia nenhuma.Eu tinha brincadeiras de Maria Rapaz, porque na minha rua, as crianças mais da minha idade eram rapazes e por isso eu tinha mais amigos rapazes e brincadeiras de Maria Rapaz. Eu lembro-me de, à noite, estar cá em baixo, na   porta de casa, a brincar, e os meus pais deixavam-me. Quando era hora de ir para dentro, vinham à janela e chamavam-me, por voltas das 10:30h / 11h ( da noite), por aí. Nós juntávamo-nos todos ali, depois de jantar e brincávamos, todos juntos. Eu agora penso muito nisso. Os riscos não existiam na altura? Ou existiam e as pessoas não complicavam tanto? É que eu tenho filhos e sei que jamais os deixaria ir brincar para a rua, sozinhos, à noite, como nós fazíamos. Os tempos são mesmo outros…

Tive uma infância e uma adolescência muito feliz. Ia sempre a pé para a escola. Com amigos, e duas amigas da (Escola) Primária com quem estou ainda diariamente. Nós celebramos o nosso aniversário de amizade. Os 30 anos, os 35 anos. E agora, já faz 40 anos que nos conhecemos. E, nós as três somos amigas há 40 anos.

Também vou fazendo amigos novos. Conservo alguns mais antigos e faço novos. É uma espécie de triagem, aquela selecção natural…estudei em Vila Real (UTAD , Engenharia Florestal), tenho amigos da época da faculdade.  Vivi em Aveiro, também trouxe amigos de Aveiro, enfim…

CA – Ainda fazes amizades novas?

IT -Claro que sim. Tenho duas ou três amizades de meses e são amizades fortes. Olha, tu também és um exemplo disso. Somos amigas há quanto tempo? Um, dois?

CA-Já são três Isabel.

IT-Pois. Já? Bem, mas em 45 anos e vida é uma amizade recente e é uma amizade boa, forte, pura. Daquelas amizades em que me sinto à vontade para te ligar só para saber como estás. E essas são as verdadeiras amizades. Acho que o que mantém uma amizade é um bem-querer, a chama da amizade, por assim dizer. Não é obrigatório falares com o teu amigo, mas há ali uma ligação que se mantém, que é suposto manter. Mas, há amizades que acabam, também há… Mas essas, muito provavelmente, não interessavam. Também se cometem erros de casting nas amizades, não é só nos amores. Nos casamentos, há divórcios, e nas amizades, também.

 

 

CA -O que sonhavas ser quando fosses grande?

IT – (risos) a primeira coisa que sonhei ser foi cabeleireira. Coitadinha da minha avó (avó Ema), mãe da minha mãe, o que ela sofria comigo. Ia lá para casa e eu, pegava nas pinturas da minha mãe e ela parecia um Cristo, mas ela deixava. Cabeleireira e esteticista.

 

CA – Nunca sonhaste ter um restaurante?

IT – Não. Nunca. Só quando tinha já vinte e tais…mas este sonho já me vem da minha mãe. A minha mãe sempre quis ter um restaurante. Ter qualquer coisa ligada a comida e nunca concretizou. Eu não sei se a minha mãe me passou aquilo, das histórias, do querer dela que eu fui presenciando ao longo da vida, e se calhar também desse querer que não se concretizou, eu acho que acredito que uma parte deste meu sonho veio dela, seguramente. Essa semente ficou em mim. Que nós eramos três e só eu é que  fui para a restauração, eu acho isso…e nós temos vidas muito parecidas. A minha mãe teve três filhos, eu tenho três filhos, com idades de 5 em 5, como os dela, temos assim gostos comuns… é bom. Somos parecidas. Eu e a minha mãe somos parecidas.

 

CA-Tens uma ligação forte à tua mãe?

IT-Tenho, à minha mãe e ao meu pai. De feitio, sou mais parecida com a minha mãe. Mas, eu tenho um amor, e posso dizer-te, com este distanciamento dos 45 anos, que os meus pais não eram aqueles pais, porreiros, amigos, nada disso. Eram pais tradicionais, mais distantes, pai era pai, mãe era mãe. E isso fazia-me imensa confusão. Ainda por cima, porque tinha uma amiga muito próxima, que tinha uma mãe muito porreira, até saía connosco e eu achava que aquilo é que era.  Lembro-me uma vez do que disse à minha mãe: “a mãe da Rita é que é”. Parti o coração à minha mãe. Na altura não percebi, mas hoje em dia, olhando para trás, percebo que fui muito má. Mas, eu agradeço os pais que tive. Acho que nunca lhes disse isto, mas  aquela educação, que se dá nos primeiros anos de vida, aquelas bases, eu tive as melhores. Eu e os meus irmãos tivemos muita sorte. Muita, muita, muita,  muita sorte com os meus pais!

 

CA -Hoje em dia, que conselho darias à Isabel de 25 anos?

IT-Não sei… talvez ser menos intensa. Mas, naõ sei… eu prefiro arrepender-me do que faço do que daquilo que não faço, porque nunca chego propriamente a não fazer. Eu acho que se é para fazer, é para fazer, então, faço, é para experimentar. Com isso, há dissabores, há tristezas, há momentos menos bons. Se calhar, pensando bem, se pudesse voltar atrás no tempo, se eu poderia poupar-me de algumas coisas? Mas a Isabel que eu sou hoje é o conjunto de tudo o que passei, certo? Portanto…há sempre certas coisas… eu separei-me do pai do meu primeiro filho e foi uma altura muito sofrida. Se eu pudesse ter poupado o meu filho a essa altura mais complicada, mas não havia como… Não. Não teria mudado nada. Eu sou bem resolvida com a minha vida.

CA-Então dirias à Isabel de 25 anos, faz tudo exactamente como fizeste?

IT-Sim. Quer dizer, com tudo o que fiz de bom e tudo o que fiz de mau, mas faz. Sim.  Passa por isso, porque tudo por que passares, vai fazer de ti quem vais ser mais à frente.

 

 

CA-No fundo, ninguém quer a perfeição, não é Isabel?

IT-Não, não. Eu não gosto nada de coisas perfeitinhas, não gosto de pessoas que falam baixo, não gosto de pessoas que andam direito. Não gosto, vá…não me identifico. Eu gosto da cena mais real, mais real. Nós vivemos em sociedade e muitas vezes temos de nos condicionar em muita coisa, desde logo na aparência, mas eu por mim, gosto da cena real.

Acho que a idade também nos dá isso, de nos sentirmos mais seguras com a nossa vida, com tudo o que já passámos, com todas as incertezas que temos, que isso é inerente à condição humana, mas com mais segurança também. Digo muitas vezes isso aos meus filhos. Eu tenho um filho adolescente e que está naquela fase de adolescência pura, com as inseguranças, com todas aquelas coisas de querer ser aceite no grupo da escola e eu digo-lhe muitas vezes: Tomás, é tudo uma questão de atitude. Estás bem contigo? Então faz. Esquece o que os amigos pensam. Se eles são teus amigos de verdade, voltam, vêm ter comigo, aceitam-te como tu és. Claro que estou a falar para um adolescente e as palavras que lhe digo entram-lhe, mas não fica lá muita coisa. Mas eu acho que alguma coisa vai ficando.

 

CA-E também têm o exemplo, porque nós pais, educamos mais pelo exemplo do que pela palavra.

IT-Pois, mas isso também tem um lado mau, porque às vezes estás a dizer uma coisa e a fazer outra e eles são os primeiros a reparar e a apontar o dedo…

 

CA-O que te ensinam os teus filhos?

IT-A ser melhor pessoa. Tomás, Guilherme e João Maria, são os meus filhos. A primeira coisa logo é a simplificar pensamentos. Eles são tão lineares. Isto, de facto a idade complica-nos aqui o quinto andar… os nossos filhos são tão lineares nos pensamentos. Se é isto, é isto, porque tens de pensar que é aquilo…essa coisa de não ter medo é muito bom. Eles ajudam-nos a ver tudo com simplicidade e com uma alegria… É óptimo ter filhos. Os filhos fazem de nós pessoas melhores.

 

CA-Isabel, aonde vais buscar a tua gargalhada quando chove e troveja?

IT-Só pode ser dentro de mim, porque cá fora não há nada. (gargalhada) Isso é intrínseco a cada um de nós. Os meus próprios pais, que me conhecem como ninguém, ficam espantados, comentam entre eles e com a família, “esta rapariga está sempre a rir, eu não sei onde é foi buscar esta gargalhada” eu era aquela que entrava em casa com uma mochila às costas e ao virar-me, deitava logo um jarrão abaixo. Eu era a estouvada e ainda sou. Houve uma altura que não podia ser, fui delegada de informação médica e não podia deitar coisa nenhuma abaixo, mas ainda hoje eu sou capaz de chegar aqui e deitar alguma coisa abaixo. Ainda por cima, a minha irmã, mais velha do que eu 10 anos, e era e é, by the  book. Eu não, eu sou out of the box. (risos)

 

CA-Então estávamos a falar da tua gargalhada, o que fazes quando ela não está lá onde a vais buscar?

IT-Tenho de ir. É uma forma de eu própria me exorcisar.  Eu, como toda a gente, tenho os meus momentos maus, mas logo a seguir, penso assim, isto não me leva a nada. E então, tal como te disse há pouco, eu não ando numa fase muito boa, este início de ano não é uma fase muito boa e depois estou sempre nessa dualidade de pensamento, entre o negativo e o positivo. Depressa digo a mim mesma, mas isto não leva a nada, siga em frente. Mais à frente, vem a nuvem negra outra vez, e logo de seguida faço o exercício mental, mas isto não leva a nada, siga e assim vou ultrapassando as coisas.

 

 

CA-Isso é a consciência que tens das coisas. Tu não cultivas muito a tristeza?

IT-Não, não me dou muito à tristeza.  Claro que fico em baixo, com isto ou com aquilo, mas não me dou muito à tristeza e depois há uma coisa em mim que é a seguinte, eu sou muito emoção. Sou muito pouco razão e sou muito emoção, que é bom e mau. Tem dias… Mas a mim, ajuda-me imenso a ultrapassar o que menos bom. (risos)

Com 25 anos, eu não tinha esta visão das coisas, por isso é que cada pessoa é um ser completamente único, individual e cada pessoa encerra um mundo de coisas. Não há fórmulas, não há teorias, é tudo tão variável. Nós somos tão diferentes uns dos outros e as nossas experiências, que são aquelas coisas que, eu não acredito no destino nem em nada disso. Acho que tudo isto é “random”, anda tudo a sortear, e a sorte vai calhando… pronto! E são essas coisas que nos vão acontecendo, porque acontecem, porque sim, essas experiências, é o que nos vai construindo. Somos sempre nós e as nossas circunstâncias, nunca somos só nós. E a nossa circunstância é determinante.

 

CA-Maior arrependimento?

IT-Eu sofri muito com a separação do pai do meu primeiro filho, o Tomás. Não sofri com a separação, porque era uma inevitabilidade, não era suposto estramos juntos, mas com todo o processo em si, os tribunais, o meu filho ter de passar por aquilo… eu acho que foi o que mais me fez sofrer na minha vida. Sofri por mim e sofri por ele, mais por ele, se calhar até.  E agora, pensando em retrospectiva, se não tivesse passado pelo que passei, o Tomás não existiria. E os meus filhos são as coisas mais importantes da minha vida, e ele é um dos três. Portanto, não havia outra forma de fazer as coisas. Por isso,  no fundo não posso dizer que seja um arrependimento. Foi o que tinha de ser. Foi um grande sofrimento, mas foi o que tinha de ser.  E hoje em dia estamos num lugar melhor, claramente!

 

CA-Maior sonho?

IT-Isso… há tantos. Se não sonharmos, não vivemos. Tanto sonhos pequeninos como grandes. Ao chegar a casa, estamos a sonhar com um jantarinho bom à nossa espera, mas depois penso, adorava que a Comida de Rua tenha uma loja ou outra coisa qualquer. Eu não tenho assim um sonho. Eu gosto muito daquilo que eu faço. Em termos profissionais, o meu sonho maior será que a Comida de Rua cresça, porque é o percurso natural das coisas. Gosto disto, gosto do que eu faço, com todas aquelas nunaces, boas e más, inerentes a um negócio, mas é próprio.

Pessoalmente o que eu mais quero é que os meus filhos sejam felizes. Claro que eu quero ser feliz, mas para eu ser feliz, nunca é só eu, a minha pessoa. Têm de ser felizes os meus filhos, porque eu não sou feliz se eles não forem, e o meu marido, a minha família e os meus amigos, toda a gente feliz. É “chapa 5″, mas é a verdade.

 

 

 

Realização e Fotografia – Igor Sterpin TUCANDEIRA FILMS

https://www.linkedin.com/in/igor-sterpin-4778a474/

 

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