“Se houver agora um miúdo com 16 anos, com vontade de formar uma banda, depois de um concerto  dos The Gift, isso é o melhor que me pode acontecer.”

No vídeo, uma conversa, no texto outra. É  assim com todas as minhas pessoas.

 

Com o Nuno Gonçalves, um dos líderes dos The Gift, também. Nunca saberemos se Portugal perdeu um hoquista ou um futebolista campeão, para ganhar um mau aluno de música, um músico ímpar,   um dos criadores e criativos de uma das bandas mais singulares e icónicas que tece e engrandece a malha musical portuguesa, mas duma coisa podemos estar certos, a  música nacional não seria a mesma coisa sem os The Gift,  o colectivo de Alcobaça: Nuno Gonçalves, Sónia Tavares, John Gonçalves e Miguel Ribeiro.

Se falámos da infância do Nuno? Falámos, claro! Falámos da escola, dos pais, duas referências na vida de qualquer um de nós e na do Nuno não poderia ser diferente. Se falámos da filha, a Mia? Absolutamente! Como poderíamos não fazê-lo com um pai, músico, que trabalha pelos quatro cantos do mundo  e quer ser um pai presente?

De sonhos, de arrependimentos e de lições, também. E de música. Dos The Gift e do Nuno e de perseverança e dos The Gift e de inquietude e dosThe Gift e de sonho e de criação e de partilha e de criatividade e dos, já disse The Gift? O Nuno não desliga a ficha da banda. Ou desliga? Vamos ver.

A conversa foi em Serralves, no Museu de Arte Contemporânea, na exposição retrospectiva “Álvaro Lapa: no tempo todo”.  Foi tão bonito ver a gentileza do artista para com os miúdos e as outras pessoas que lhe pediam para tirar fotos. Gentileza e atenção genuína.

 

CA-Nuno, 34 anos a fazer música. Já tens mais vida com do que sem música, não é?

NG-Nunca tinha pensado nisso. Sim, tenho mais anos de vida com música do que sem, mas antes de começar os GIFT, já fazia música, e a banda foi só o passo seguinte. Só houve ali uma altura da minha vida em que eu andei a aprender Órgão, que na época, em Alcobaça, não havia professores de Piano, e desisti das aulas, porque era muito mau aluno. E, na ressaca dessa desistência, que durou talvez uns 3 ou 4 anos, foi o período em que eu não quis saber de música. Paralelamente, também foi por aí, que descobri os Joy Division.

 

 

CA- Como assim, mau aluno de música?

NG – Eu não dava para ter aulas. Era tudo muito rígido. Depois tinha de colocar os headphones na cabeça e tocar “Órgão Mágico III”(risos) e eu não dava para isso. Curiosamente que anos à frente, muito à frente, já os “The Gift” tinham crescido e eu decidi ter aulas privadas com uma professora de Piano, e ela também, foi muito sincera comigo e disse-me que eu como aluno lhe dava jeito, porque recebia dinheiro comigo, como aluno, mas eu não estou a fazer nada por ti, portanto é melhor desistires. Aquilo era assim: a professora dava-me as pautas para eu praticar e eu fazia versões minhas, ela dizia, esta parte está lá escrita, mas depois esta já não está…

 

CA- Quando não estás a compor, ou a escrever ou a tocar, o que estás a fazer?

NG- Estou a pensar nos Gift. Sinceramente! Ser dos Gift, ou ser de um projecto artístico hoje em dia, na minha cabeça, não é só pensar na música, é pensar em tudo à volta:  na roupa, na cor do disco, que fotógrafo, que ideia para o próximo vídeo. É uma coisa doentia. Eu estou farto disto. Mas, não consigo estra de outra forma. É uma coisa muito desgastante para mim.

 

CA- Tu não existias sem música?

NG – Não.   E faço o que gosto. Ainda que às vezes, não goste nada, mas isso tem a ver comigo. Acho que os meus colegas vivem um bocadinho mais descansados. Eu é que tenho esta maneira de fazer as coisas. Eu agora, estou aqui a ver estes quadros (exposição retrospectiva “Álvaro Lapa: no tempo todo”) e já estou a ter umas ideias.

 

CA- Eu sabia que tu ias gostar. Acho que esta exposição, Serralves, tem muito a ver convosco (the Gift).

 

 

CA- Querias ser músico quando eras pequenino?

NG- Não, queria ser futebolista, claro! Aliás, é isso que quero ser ainda (risos). Adoro a competição. E adoro a Selecção ( de Futebol de Portugal). Sou colado à Selecção desde 1984. E, no Mundial da Alemanha, em 2006, quando nos cruzámos, eu estava convencido que íamos ser campeões mundiais. Não fomos. Perdemos com a França. Foi o momento mais triste da minha vida. Fui o último a sair do estádio, lavado em lágrimas.  Sou muito ligado ao desporto. A minha vida de escola foi sempre o Desporto.  Eu queria  ter sido Professor de Educação Física. Felizmente,  não entrei na Faculdade de Desporto e fui para Jornalismo e, o entrar para a Faculdade era só o eu adiar mais um bocado a decisão de ser profissional de Música. Naquela época, nós não podíamos assumir esses riscos assim.

 

CA- Assustava-te essa tomada de decisão?

NG – Não. Nada. Sabia que era só uma questão de tempo.  Eu, nos Gift, sempre soube que era uma questão de tempo. Tinha uma certeza. Estava super firme nisto. Tive sempre a certeza, sempre! É que nunca houve sequer um bocadinho de dúvida. Nunca! Só agora.

 

CA- Agora?

NG – Sim. Agora começo a ter dúvidas. Porque dependemos do público e quando uma banda depende do público. Dantes, os media tinham o poder de elevar uma banda. Hoje em dia, as coisas são muito diferentes. Eu acho, por exemplo, que nunca houve tanta influência da cidade de Lisboa nas decisões. Eu acho que, mesmo nós, vindos de Alvcobaça, quando começámos, tínhamos uma influência de Lisboa, mas havia uma movida de Coimbra, de Leiria, com os Silence4, havia uma movida de Alcobaça, com os Gift, os Loto e com o Gomo, das Caldas da Rainha, havia o Porto, com os Três Tristes Tigres,  os BAN, os GNR… e se fores a ver hoje, rara é a banda que consegue  singrar se não tiver um alicerce qualquer em Lisboa. E isso é algo de que não gosto nada. E depois, h´outro Problema que é o monopólio das rádios. Há duas rádios que detêm 60 % e isso para uma banda, pode ser muito difícil. Claro que nós não podemos queixar-nos de nada, mas acho que neste momento os Gift são consideredraodos uma banda super independente lá fora e uma banda super popular cá dentro. E é muito difícil navegar esses dois barcos. Um é um barco que traz muita gente e o outro é um barco que tem sempre de abraçar o novo.

 

CA- Mas, isso de abraçar o novo não é uma vontade vossa?

NG- Sempre! Claro! Mas, despois há as prateleiras. E todos somos colocados nas diferentes prateleiras. Os Gift são uma banda conhecida, muito conhecida, hoje em dia em Portugal. E não somos conhecidos lá fora, o que, por um lado, é muito bom, mas por outro lado, nos limita.

 

CA- Limita-vos a nível comercial? Há sempre um lado empresarial por trás de uma banda.

NG- Mas, no meu trabalho, na criação não. Aliás, de todo. O último clip dos The Gift é um super slow motion de dois bailarinos australianos (“You will be queen”),onde não aparece a Sónia. Isso não é uma escolha minimamente comercial. E, por alguma razão é o vídeo dos Gift menos visto de sempre.  (risos)

 

CA- Eu acho-o lindo. Quem é o realizador?

NG- Niv Novak. Aquilo foi assim:  eu vi umas imagens na internet num Domingo à noite. Mandei-lhe um email na segunda-feira e ele, na terça-feira disse que sim. É um realizador australiano e nós depois montámos o vídeo com um amigo nosso. E vês, não há aí um pingo de comercial. E temos-nos dado bem assim. Mas, hoje em dia tenho muitas dúvidas, porque também ouço muita música e não sei bem qual é o caminho que hei-de seguir.

 

 

 

CA- Esta coisa das redes sociais também mudou muito as regras do jogo, não achas?

NG- A mim, diverte-me. Eu vejo as redes sociais como um café. Estou fora, em Madrid ou noutro lado qualquer e quero ir ao café com os meus amigos e vou ao Facebook . vejo que barbaridades uns dizem sobre futebol, que barbaridades dizem sobre o último filme que viram no cinema. É uma ida ao café e diverte-me.

 

CA- Mas as redes sociais também são úteis para o vosso trabalho?

NG- É bastante mais útil 20 concertos no Verão.

 

CA- O teu irmão (John Gonçalves) nasceu nos EUA, mas tu já nasceste em Portugal. No entanto, és um cidadão do mundo. Sentes a necessidade das raízes?

NG-Sinto. Cada vez mais. As minhas dúvidas em relação aos Gift também vêm por aí, porque cheguei a um ponto da minha vida em que gostava de poder responder à pergunta “de onde és?”. Costumo dizer, no estrangeiro, que sou de Alcobaça, como não é muito conhecido, digo que é a 1h a N de Lisboa e a 2h a Sul do Porto. E eu sinto que sou de Alcobaça, mas não o pratico. E gostava de estar mais tempo lá. Por mês, sou capaz de estar uma semana lá, eventualmente, separada, 2 dias aqui, 1 dia ali, mais 3 dias acolá. Agora estive cá com a minha filha ( Mia) 6 dias e já não sabia o que havia de fazer com tanto tempo. Foi assim uma maravilha. Estou mais tempo em Madrid do que em Alcobaça.

 

CA- Tu não sabes parar?

NG- Não posso. Não posso parar. Tenho a minha filha em Madrid, e se quero ser um pai presente, tenho de lá estar. Eu sempre quis ser um pai presente. Duas a três vezes por mês, tenho de lá estar, 4 a 5 dias de cada vez.

 

CA- Para a tua filha tu és o pai. Não és o compositor ou o escritor.

NG- Sou, sou músico. A minha filha sabe perfeitamente aquilo que eu sou e sempre respeitou isso. Eu gravo sempre as primeiras ideias de música no telemóvel e, um dia destes,  estava a ver um telemóvel antigo, fui ouvir e eu estava a tocar e de vez em quando lá se ouve ela em fundo, gágágá, a dizer umas palavrinhas dela. E quando eu dizia: “pára, que o papá está a tocar.” Mal eu dizia isto, ela imediatamente se calava. Respeitava, sempre, e respeita e gosta muito. Vai aos concertos dos Gift muitas vezes e adora, canta as músicas todas, diz-me tudo: “gosto desta música, não  gosto muito daquela…”.

 

CA- E sai ao pai?

NG- Tem muito bom ouvido. Por acaso tem.

 

CA- Ficas babado quando te dizem isso?

NG- Não. Nada disso. Se a Mia quiser ser música, pode ser, mas será o que a fizer feliz.

 

CA- Mas é bom saber que ficou lá a semente do pai.

NG- Sim, mas eu por exemplo, não herdei nada do meu pai, o meu pai não era músico, a minha mãe é cabeleireira.

 

 

The Gift sempre presentes

CA- De onde te vem o talento musical?

NG- Não sei. Acho que da minha mãe, herdei um certo sentido estético. A minha mãe sempre um lado estético muito presente. Lembro-me que a minha mãe dizia sempre: 2quadrados com riscas, nem penses nisso.” Esse tipo de coisas ficavam na minha cabeça. Outras: “Nuno, que misturas de cores estás a fazer? Combina antes estas duas.” Eu lembro-me que a combinação de cores que a minha mãe  adorava e que me dizia que eram brutais, eram o amarelo com o lilás, escuro, que eu adorava e adoro ainda hoje.

 

CA- Que mais herdaste dos teus pais, para além do conceito estético da tua mãe?

NG- A sensibilidade da minha mãe, do meu pai, a perseverança, o não desistir das coisas e, infelizmente, a falta de paciência do meu pai. O meu pai é uma força da Natureza. É impressionante. Tem 73 anos e continua incrível.

 

 

 

CA- E da tua infância, vamos lá outra vez. Como eras na escola? Eras bem comportado?

NG- não. Nada. Zero. Era muito irrequieto. Nunca fui mal-educado, mas era muito irrequieto. Era claramente o palhaço da turma, delicado com as meninas sempre e bruto com os rapazes. Um clássico! No recreio, jogar à bola. Fazia os trabalhos de casa sempre, todos. Sempre. Nunca faltei a uma aula. Nem na Faculdade. No meu tempo houve umas greves por causa das Provas Nacionais, e eu nunca faltei. A escola é um dever e um privilégio. É uma sorte poder ir à escola. Não sei se era do facto do meu pai ser professor e eu ter medo que ele viesse a saber que eu tinha faltado, ou outra razão qualquer, a verdade é que nunca faltei à escola. Sempre vi a escola como uma obrigação. É assim a vida! Era assim que sentia e gostava muito. Eu gostava muito de ir à escola. Mesmo quando ficava doente. Havia sempre aqueles primeiros dois dias em que me sabia bem, mas passado esse tempo, eu queria era voltar à escola. Outra coisa de que gostava muito também era do Hóquei. Também me custava muito faltar ao Hóquei. Eu era mesmo do desporto.

 

CA- És muito exigente contigo? Se não for para fazer bem ou muito bem, não vale a pena fazer-se?

NG-  Bem ou muito bem, é relativo. Mas, para o meu gosto sim. O que às vezes, também pode ser complicado, porque o que os outros podem achar que está bom, para mim pode não ser suficiente.

 

CA- E vocês são quatro e todos opinam?

NG- Sim. Todos opinamos, mas tenho de admitir que se a minha ideia for completamente diferente da deles, eles quase sempre cedem. E  sou-lhes muito grato por isso.

 

CA- E eles também são gratos a ti.

NG- sim. E se calhar, eles a mim também, ou às vezes não, às vezes não.

 

CA- Sentes que hoje em dia os egos já não estão tão presentes?

NG- Nunca estiveram. Não. Nunca. Na nossa banda, nunca. Mas mesmo nunca. Houve uma vez em que um agente que nos contratou para um concerto chegámos ao restaurante e tínhamos duas mesas: a mesa para os músicos e a mesa para os técnicos. E nós achámos aquilo uma ofensa. Só aí é que eu percebi que há muitas outras bandas que fazem isto. Eu acho isso inadmissível. É tão importante a Sónia que canta o último refrão, como o roadie que desliga a última luz. E só assim faz sentido e aí os egos não podem entrar, numa estrutura assim, não podem entrar.

 

CA- Ainda assim, é fácil os egos ocuparem muito  espaço numa banda. Têm a adoração do público, dos fãs, é fácil o deslumbramento e esquecerem-se que são pessoas como as outras, não achas?

NG- Sim. Se calhar é, quando há falta de educação. Mas, numa banda como a nossa. Nós temos muitos momentos de muita felicidade, mas também te digo uma coisa muito sinceramente, na vida dos Gift, assim, momentos de felicidade absurda, coisas assim que nós disfrutássemos mesmo, nunca tivemos muito tempo para apenas disfrutar. Mas, tivemos agora, dois momentos desses: Brian Eno e Flood, um ou outro concerto, porque há esta eterna insatisfação minha, que tenho de admitir, que às vezes é muito complicado estar numa banda comigo. Há momentos em que toda a gente acha que correu muito bem e depois olhas para o lado e vês o Nuno assim meio desconsolado. Compreendo que para a banda, pode ser meio complicado.

 

CA- Mas é bom teres essa consciência.

NG – É bom ter essa consciência, mas é mau não conseguir resolver. (risos)

 

CA- Pelo menos, tens essa consciência.

NG- Sim, mas sempre tive.

 

NA- Então quando começas a resolver essa questão da insatisfação ou faz parte do processo criativo?

NG- Não sei… acho que faz parte do processo criativo. E também tem muito a ver com a gestão de expectativas. O sucesso ou insucesso não existe. Existe sim a tua expectativa. Tu podes considerar um sucesso tocar para duas pessoas numa FNAC, porque em casa tocas para 0, então 2 pessoas na FNAC é maravilhoso. E podes considerar um insucesso tremendo tocares para 12 000 na MEO ARENA, em vez de 15 000.

 

CA- Tu elevas muito as tuas expectativas?

NG- Sim, muito lá em cima, sempre, em tudo. Mas, acima de tudo se demos o melhor de nós ou não. Uma coisa que eu costumo sempre dizer. Se houver agora um miúdo com 16 anos, com vontade de formar uma banda, depois de um concerto  dos Gift, isso é o melhor que me pode acontecer. Isso é colocar as expectactivas lá em cima, porque isso pode não acontecer. E eu sei que isso só acontecerá se  eu transmitir a esse miúdo uma sensação única na vida dele. Uma emoção, algo que te mova, mesmo que queiras ir para Desporto. (risos)

 

 

CA- Foi isso que os Joy Division fizeram contigo?

NG – Sim. Sem dúvida alguma. E os Joy Division têm uma particularidade muito interessante. Não são difíceis de tocar, por isso estão acessíveis a quem queira tocar. Basicamente, aquela banda era uma esponja de sentimentos e uma esponja de uma geração. E esses sentimentos são transversais às décadas. Um miúdo de 15 anos agora daquela pode sentir quase  o mesmo que um miúdo de 15 anos de há 20 anos atrás.  As incertezas, as inseguranças…

 

 

CA- Voltando à experiência Brian Eno  (nome incontornável no meio musical que fez a produção do disco “Altar”), o que trouxe ele?

NG- O Brian Eno trouxe um quadro branco, como esta parede branca (numa das salas da exposição “Álvaro Lapa: no tempo todo”)e dizia: Nuno, o que pensaste para esta letra?

E eu, que já tinha um esboço para ela,  dizia: “he should be alright  now”. Ele vai ficar bom. E o Brian Eno perguntava, ele quem? E eu não podia dizer quem era, era uma pessoa, muito próxima de mim, que estava a atravessar um período muito difícil de saúde. E ele diz: ok, é saúde. Então vamos pô-lo num hospital, deitado numa cama de hospital. A cama é de ferro ou é moderna? E eu respondia de ferro. Ele desenhava uma cama de ferro. E pomos uma Cruz, na parede branca em cima da cama ou não? E eu dizia, pomos uma cruz na parede. Então, ele desenhava a Cruz  por cima da parede branca. Então já tínhamos:

“He should be alright now

and Jesus is looking down…”

e assim continuámos a letra do “Vitral”, por exemplo. Foi isto.

 

CA- Há muitas emoções aí…

NG- É uma forma até muito gráfica de fazer as coisas e ao mesmo tempo, a ideia principal mantinha-se lá toda, e foi mesmo um trabalho de grupo. Eu, a Sónia e ele, sentados, a olhar para o quadro branco.

 

CA- És muito tu que escreves as letras?

NG- As portuguesas sou sempre eu que escrevo. Os grandes singles fui sempre eu que escrevi, mas acho que as melhores letras em Inglês, acho que foi a Sónia que as escreveu.

 

CA- Qual é o teu processo de escrita?

NG- Na pressão. Tenho de acabar isto. Podia vir para aqui dizer que é à noite, enquanto todos dormem, mas não. É na pressão do ter de fazer. O “Clássico”, que foi outro tema que escrevi em português. Um tema difícil de escrever, para mim, porque é um tema que fala um bocadinho desta ideia de sair de casa e começar uma vida nova, estive muito tempo a escrevê-la, muito tempo mesmo. Sabia que tinha de a escrever, porque tinha um prazo para lançar a canção, mas adiei esse prazo. Comecei a trabalhar nela aí uns 6 ou 7 meses antes, já com a música completamente feita. Ia para a praia  com os meus pais, passar férias com eles, sempre a ouvir a música, sempre a ouvir, sempre, sempre e a desenhar as coisas na cabeça e ia gravando.

 

CA- Basicamente, tu respiras Gift. Eu que queria fugir ao Nuno dos Gift, mas não é possível. Ao fim de 24 anos depois da primeira actuação dos Gift, vocês continuam iguais a vocês mesmos, mas diferentes. E esse é o paradigma da vida, do crescimento de uma pessoa ao longo da vida, que vai crescendo, mas mantendo sempre a sua essência. Tu vês isso?

NG- É isso mesmo.

 

CA- É difícil manter a essência numa banda? Não se perderem pelo caminho?

NG- Uma das coisas que eu não consigo fazer e é um dos meus grandes defeitos, é que eu entro em casa, fecho a porta e os Gift continuam lá. Tenho o  meu irmão na banda, tenho o estúdio em casa dos meus pais, tenho um piano em minha casa, tenho um estúdio no meu computador, tenho mil aplicações de gravação no meu telefone, portanto eu não consigo desligar dos Gift. Os outros colegas conseguem. Fecham a porta, a Sónia é mãe, é mulher. O Miguel é a mesma coisa, o  John, apesar de tudo, também. Eu não consigo. Isso é um problema para mim, porque depois nos momentos piores acabo por cobrar-lhes isso, “ então, porque é que não pensaram nisto ainda?” Sou um bocado “bitch” (risos)…

 

CA- Mas essa distância fazia-te bem…

NG- Pois fazia, mas não consigo. É uma luta minha já de alguns anos, mas eu não consigo.

 

CA- Não jogas à bola, para distrair?

NG- Não. Corro. Corro, como se não houvesse amanhã. Estou numa dessas há uns 5 anos. Corro sozinho, com os meus headphones. Ouço os discos novos. Faço playlists de músicas de sempre, dos clássicos da minha vida: The Cure, … faço listas com refrões fantásticos, tipo Oasis, até nem é uma banda que eu ouça muito, mas um tema que está sempre na playlist das minhas corridas é aquele tema, o “Don’t go away”,  cujo refrão é

“Don’t go away

Say what you say

Say that you’ll stay

Forever and the day

In the time of my life”

Essa música está sempre nas minhas playlists de corrida. Outra que está sempre, OMD, Orchestral Manoeuvres in the Dark, James, U2…

 

CA- Música de uma era?

NG- Música da minha vida.

 

CA- O “Altar”,  não tendo a referência religiosa, não sei…é?

NG- Há um lado de fé neste disco. Eu respeito todas as religiões. Acho que me faria muito bem ter assim uma fé acima de qualquer dúvida.

 

CA- Tu tens. Os The Gift.

NG- Sim, mas também há aí muito de destino e de trabalho e de fazer as coisas certas.

 

CA- No caso do Brian Eno e do Flood e da participação destes dois “deuses” da música no “Altar”, acreditas no acaso ou no que tem mesmo de ser?

NG- Eu, no Brian Eno, nunca tinha pensado. É assim daquelas coisas completamente impossíveis.  Há coisas que depois a vida, por acaso, te leva por certos caminhos, onde estão as mesmas pessoas e as coisas acabam por acontecer. Mas, se ele não nos tivesse visto ao vivo  e não tivesse gostado, estávamos tramados, nunca na vida trabalharíamos com ele.

 

 

CA- Acreditas nessas pequenas coincidências da vida?

NG- Sim. Acredito. Tinha de ser. Isso é o destino. E podes ter fé no destino, mas tens de fazer com as coisas aconteçam, ainda que às vezes seja contra-producente aquela atitude de quem luta muito e procura muito e, nessa ânsia,  acaba por não ver o que está mesmo ali ao lado. Às vezes correr muito não é a táctica mais eficaz. Às vezes, é preciso descansar um pouco, olhar em volta, mudar de direcção.

 

CA-É nessa fase que estás neste momento?

NG- Neste momento, estou a fazer um disco novo, por isso, estou ainda a pensar no que vou fazer, por onde quero ir, não é fácil. O Brian Eno deixou-nos esse problema, elevou o  nível de exigência que nos deixou a pensar:  agora, como vai ser a partir daqui?  Não é para as pessoas, é para mim. E estou nessa fase. Já tenho muitas coisas feitas, mas por exemplo, uma estilista de moda sabe que quer fazer saias, e que são compridas, mas não sabe de que cor, nem as formas. E eu estou assim. Eu tenho as canções feitas, mas não sei que forma lhes hei-de dar, não sei como as vou encaixar.

 

CA- São as músicas que vêm ter contigo?

NG- Vêm. Sempre! Eu não me esforço absolutamente nada. Aquela ideia de 90% de transpiração e 10% de inspiração, comigo é o contrário. Eu ligo a SIC Notícias, abro o piano e ponho o telefone  a gravar. Se não sair nada em dois minutos, páro e só volto no dia seguinte. Não há ali o mínimo de combate.

 

CA-E o que fazes nesse intervalo de tempo?

NG-Vejo televisão. (risos)Não sou de séries, nada. A última série que vi, com alguma vergonha assumo, foi a “Sete palmos de terra” (risos), a primeira série depois da TV a preto e branco, quase (risos). os meus colegas na carrinha, nas viagens estão sempre a falar de séries e eu nada. Eu a ver televisão, estou constantemente em zapping, zapping…

 

CA- És muito inquieto. E nós, o público, agradecemos! Agora queria saber qual é o teu maior sonho, tem a ver com os The Gift?

NG- O meu maior sonho? Assim logo, quero morrer primeiro do que a minha filha. Desde que a minha filha nasceu, isso para mim é o mais importante. Não admitiria o contrário. E é uma coisa que me ocupa algum espaço mental. Dantes não tinha medo de andar de avião e agora, às vezes penso nisso…

 

 

 

CA- Mudou-te muito seres pai?

NG- Mudou. Mudou. Eu não estou preparado para ser pai ainda. Vou fazendo o melhor que posso, e se calhar quando a Mia tiver 30 anos, comntinuarei a não estar preparado, porque… qundo eu soibe que ia ser pai, ofereceram-me livros e eu nem o primeiro parºágrafo li. Eu acho que cada caso é um caso, não há fórmulas. A roupa pode servir de irmão para irmão, mas mais nada. E até a roupa, a partir de uma certa idade, começa a ser uma escolha pessoal. As personalidades são muito diferentes e os pais, não há ninguém que nasça para ser pai. Sabemos lá nós se nascemos para ser pais, ninguém sabe. Até pode ser um pai fantástico e fazer uma filha frustrada… então não nasceu para ser pai. Errou e tudo.  Em relação a mim, vejo que neste momento as coisas estão a correr bem, a Mia é feliz, e gosta muito de mim e eu muito dela e damo-nos super bem, entendemo-nos muito bem, mas eu continuo a lutar contra mim, porque há coisas que eu não sei se estou a fazer bem. O meu pai deu-nos uma educação, mais até com o meu irmão, que era o primeiro, bastante austera, não sei se fez mal. Porque hoje em dia, aqui estamos nós, porreiros da vida, com uma boa banda, educados. Se ele se calhar tivesse sido mais leve, se não tivéssemos tido do tanta rigidez na nossa educação, também não era um exagero, mas era rígido o meu pai, até em termos de dinheiro e tudo. O meu pai nunca nos deu muito. Sempre trabalhou para nós, para nos dar uma boa educação, uma boa vida, mas não nos dava muito dinheiro, é curioso… A minha mãe é que tratava desses assuntos, das prendas dos amigos, desse tipo de coisas assim. E se calhar, o meu pai estava certo.

 

CA- Tu és diferente com a tua filha?

NG- Um bocadinho…a minha filha faz de mim o que ela quer. (risos). Espero que ela não leia isto com 18 anos (risos). Eu não lhe dou muitas coisas, mas faço-lhe tudo. Mas a minha filha é muito sensível e isso deixa-me muito orgulhoso. Ainda agora fomos os dois ver o “Coco”, o filme e passado um bocadinho estávamos os dois a chorar agarrados um ao outro. E isso orgulha-me. Aí, confirmo que estou a fazer um bom trabalho como pai, mas continuo a achar que não estou preparado. Ainda por cima, com o tipo de vida que eu tinha, de andar de um lado para o outro, eu não estava preparado para ser pai… e agora ando um bocado a apanhar as coisas..

 

CA- Se calhar, tens razão. Ninguém está preparado e vamo-nos fazendo pais e mães, à medida que os nossos filhos crescem também.

NG- E esperamos que  a coisa corra bem.

 

CA- Quem são as pessoas mais importantes da tua vida? Se tivesses de escolher duas.

NG – Essa é difícil, mas só duas, a minha filha e a minha mãe.

 

CA- Tens algum arrependimento, daqueles que se pudesses, farias tudo diferente?

NG- Não. Mesmo nas coisas piores, há sempre um lado bom a tirar e cresce-se. Há feridas para lamber e depois corre sempre bem.

 

CA- Acreditas nas lições que tiras dos maus momentos?

NG- Sim, claro!

 

CA- Estamos cá para aprender?

NG- Sim, e às vezes, para cometer o mesmo erro.

 

CA- Isso é a história do cão do Pavlov e dos reflexos condicionados, e voltamos a repetir os mesmos erros e fazemos todos muito isso.

NG – Não temos hipótese, isso é o destino!

 

Obrigada Nuno Gonçalves!

 

 

 

Realização e Fotografia – Igor Sterpin TUCANDEIRA FILMS

https://www.linkedin.com/in/igor-sterpin-4778a474/

 

 

 

 

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