“Grande parte deste percurso foi mesmo de joelhos no chão, numa atitude muito humilde, abandonei a vida de príncipe que tinha em Serralves. Era, por assim dizer, o Jardineiro do Rei, para passar a cultivar a terra, de joelhos no chão.”

No vídeo, uma conversa, no texto, outra. É assim com todas as minhas pessoas.

Admiro o Luís Alves, o agricultor que inspira outros a verem na terra o seu futuro e o do país. Portugal é mar, mas muito terra (para cultivar) também. Na entrevista que vão ler, conhecemos o menino,  o homem, o agricultor urbano,  o pai, que acredita num mundo melhor, em que as pessoas tomam consciência do seu papel fundamental para fazer deste um mundo melhor. Quem visita o seu Cantinho  das Aromáticas: https://www.cantinhodasaromaticas.pt percebe isso.

O que não nos mata, torna-nos definitivamente mais fortes e criativos, já agora. A história de vida do Luís também é um exemplo disso. Apetece-me afirmar que a coerência e a consciência são a alma deste negócio fabuloso!

 

O menino da cidade, sem nenhum agricultor na família, pelo menos até à segunda geração,  que se encantava com plantas e animais de todas as espécies e que contagiava todos os seus amigos e vizinhos a fantasiar  com as  histórias e os desenhos que o Luís criava a partir da Natureza, acabou a ser analisado pelo psicólogo do Banco, onde o pai trabalhava, apenas para vir a descobrir aquilo que ele já sabia:  que era um miúdo absolutamente normal, à excepção do facto de ser um “freak” de bichos e plantas, mas esta notícia veio seguida de outra, uma boa. Havia uma escola para meninos como o Luís, era em Sto Tirso, ainda existe e chama-se Escola Profissional Agrícola Conde de São Bento.

Crescido a brincar aos Indios e Cowboys, às fisgas,  a jogar à bola, e a achar que ia ser futebolista, tinha um fascínio pelos documentários da BBC Vida Selvagem.  Sir David Attenborough era e ainda é um dos seus heróis, e  faziam- no sonhar em viver um dia na selva, em plena Amazónia, com as tribos indígenas, queria experimentar aquela vida,  subir a uma árvore, ter uma casa na árvore. E, não vivendo propriamente  na selva,  é na Natureza que o Luís faz o seu dia-a-dia, o seu e dos seus funcionários, que já rondam uma dúzia. Como se resume uma história assim, de quase 45 anos, em algumas linhas? Não sei, por isso vos deixo o essencial da nossa meia hora de conversa boa, com cheiro a ervas aromáticas e embalados pelo chilrear dos passarinhos.

 

CA- O que aprendeste nesta escola?

LA- Eu fui aluno interno.  Eu hoje, como pai, imaginando a minha filha com 15 anos, longe, não é fácil, mas compreendo os meus pais, porque ter sido interno, foi muito mais vantajoso para mim.  Tenho tantas  conquistas dessa época: independência, autonomia, que guardo como uma das memórias mais saborosas da minha vida. Tive de aprender a gerir um orçamento mais cedo do que é normal. A distância e o fortalecer do coração, para aguentar essa distância dos pais e dos amigos durante a semana. A disciplina a que estávamos sujeitos também me formou.

Claro que, de vez em quando, fugíamos do Internato e íamos até à tasca da esquina, beber vinho verde tinto na malga (risos). Uma certa irreverência no meio de tanta disciplina”. (risos)

 Era uma escola que nos impunha uma certa disciplina, tudo isso foi absolutamente decisivo para ajudar a construir a minha personalidade. E, depois a imensa liberdade de aos 18 anos ir estudar para Trás- os- Montes (UTAD) e sentir vincadamente as 4 estações do ano, naquela região que eu aprendi a amar e onde espero vir mesmo a falecer, espero mesmo, daqui a muitos anos. E essa é uma experiência completamente diferente da Escola de Sto. Tirso, onde eu vivia numa disciplina mais rígida, num antigo convento, estudando Agricultura, e também Matemática, Português e Inglês, como os outros meninos, e depois este admirável mundo novo da Universidade (UTAD), com toda a liberdade e todas as aprendizagens.

 

 

 

 

 

CA- Quando arrancaste com o teu Cantinho das Aromáticas, https://www.cantinhodasaromaticas.pt há quase 20 anos atrás, estavas à frente do teu tempo, o que se traduziu em dificuldades ainda maiores. Se, hoje em dia, aconselhas e esclareces muitos do agricultores que vêm ter contigo, tu não tinhas ninguém a quem recorrer? Como explicas a tua certeza de que aquele era o caminho a seguir?

LA- Não tinha muitas certezas Cristina. Eu tinha mais impulsividade e uma vontade de fazer enorme. Eu tinha uma energia gigantesca, que ainda vou mantendo, embora já castigado pelo tempo e pelos 45 anos (risos) e por um certo aburguesamento, físico, sublinho, não intelectual, mas o que me levou a arriscar foi muita impulsividade que me levou a cometer milhares de euros de erros e em boa parte,

a minha necessidade  de partilhar com outros foi a vontade de evitar que estas pessoas que iam investir em agricultura, não cometessem os mesmos erros do que eu.” 

É claro que durante estes 16 anos de percurso, vacilei muitas vezes, apeteceu-me atirar a toalha ao chão, passei por tantas dificuldades. Tive de aprender a viver com tão pouco. Eu, que era um “príncipe” dos jardins de Serralves, que tinha um salário bestial, tinha uma vida fantástica e hoje em dia, transformei-me num mitra, que não desperdiça 1 cêntimo sequer…eu negoceio um cêntimo.

CA- Começaste a dar muito mais valor a tudo?

LA- Sem dúvida. E, por isso, sobretudo por ter passado por essas dificuldades e tentar espelhar isso nos outros, para evitar que cometam os mesmos erros, porque

eu continuo a achar que é possível viver da agricultura com dignidade.”

Temos é de aplicar novas ferramentas, que antes não estavam lá.  Felizmente, hoje, com inputs novos, com pessoas mais novas, com outras formações, a investir em agricultura e a procurarem, até, este ideal mais romântico associado a este  processo, estas ideias frescas têm vindo e têm contribuído para que haja de facto uma ideia de maior dignidade deste tipo de vida.

” A Natureza é maravilhosa, com todas as suas imperfeições, é maravilhosa, porque tende sempre para o equilíbrio.” O desafio nisto tudo é termos de tirar partido, criando um modelo económico, que tem de conviver com as mesmas regras do modelo económico vigente. E isso é ainda mais difícil, sobretudo quando se faz agricultura em pequena escala. Por isso, a enorme criatividade que tivemos de associar a este projecto, para lhe conferir valor-acrescentado àquilo que fazemos. E fizemo-lo de muitas formas. Isto que estamos aqui a fazer hoje, é muito interessante, porque eu sou a pessoa mais anónima do planeta, ou melhor, as pessoas da minha classe. Tu não conheces as pessoas que fazem a tua laranja ou a tua alface. Eu costumo dizer, a brincar, que sou tão anónimo, a minha classe é tão anónima, quanto os piratas de informática dos dias de hoje. Ninguém faz ideia de quem eles são, ninguém faz ideia de quem nós somos.

 

 

 

 

CA- Qual é o teu maior sonho?

LA- O meu maior sonho era plantar uma floresta gigante de Carvalhos. É o meu maior sonho.

CA- Espero que o concretizes. Por ti e pelo bem do nosso país. Portugal é mar. É o que mais ouvimos dizer, mas eu acho que Portugal é muito terra. Acho que o futuro de Portugal pode bem estar na terra. Concordas?

LA- Sim. O que eu gostava que acontecesse neste país, até porque vamos perder costa progressivamente nos próximos 20 anos, portanto aquela ideia de mar e de proximidade de mar, provavelmente vai mudar, com as alterações climáticas. Já está a mudar, noutras partes do mundo. “Eu acho que, cada vez mais, Portugal, faz sentido no interior do país. Voltar ao interior, às sombras, às árvores, voltar aos cursos de água.”

Nós temos um luxo. Não houve revolução industrial em Portugal. Ao contrário da maioria de outros países, nós temos muito território verde no país, que só não é pristino, porque, deixámos de ter a nossa floresta endógena. Apostámos, erradamente, numa monocultura, mas a boa notícia é que há esperança. E a esperança reside na alteração de comportamentos, da nossa parte, enquanto habitantes deste país. Nós às vezes, achamos que fomos educados a pensar de forma global, tentando apresentar uma resposta de perspectiva global quando nos apresentam um problema, mas eu acho que as respostas são, cada vez mais, dadas ao nível local e com acção, fazendo. Muito mais do que peticionando ou mostrando irreverência virtual nas redes sociais, é fazendo, dando o exemplo. Tal como fizemos aqui, com este projecto, que de certa forma influenciou outras pessoas, e isso deve-se ao facto de ter sido muito vivido, é uma experiência tão honesta, e foi e é vivida com muita autenticidade.

Grande parte deste percurso foi mesmo de joelhos no chão, numa atitude muito humilde, abandonei a vida de príncipe que tinha em Serralves. Era, por assim dizer, o jardineiro do rei, para passar a cultivar a terra, de joelhos no chão,”

CA-E lema de vida, tens?

LA-É difícil escolher um. Mas há algo que pauta a vida de qualquer agricultor que já tem a mesma longevidade que nós já temos aqui, que é a coerência. Temos de tentar ser coerentes com os nossos princípios. E isto é algo cada vez mais difícil de conseguir nos dias que correm. Costumamos dizer que toda a gente tem um preço, e quando nós seguimos um modelo de longo prazo que implica o cultivo de seres vivos e  dependes deles para viver, tens de ser muito coerente com os teus princípios, sobretudo quando fazes agricultura sustentável. A coerência. Posso eleger a coerência como um lema de vida que vou tentando seguir sempre. Acho até que conseguimos ser mais eternos quando conseguimos manter esse nível de coerência.

CA- Gostavas de acabar os teus dias no campo?

LA- Sim. Gostava de viver em Trás-os-Montes, uma vida bem tranquila, mais despojado deste lado material, que é para isso que tenho vindo a trabalhar todos os dias. Quero viver numa quinta, num lugar sossegado.

 

CA- Que mundo queres deixar à tua filha Beatriz?

LA- Olha, aquele que está ali naquele (foto com a Beatriz por trás) quadro. Quero deixar-lhe um mundo em que o futuro seja bom, em que haja a possibilidade de futuro, porque hoje em dia vivemos assim numa incerteza de futuro catastrófico. Um mundo de verdade, de consciência, de consciencialização, de beleza que é das coisas que mais me encanta. A beleza das atitudes, dos comportamentos… Um mundo de revolução. Eu gostava que a minha filha estivesse preparada para a próxima revolução. Eu acho que é a do indivíduo, tal como as gotas de chuva, quando se juntam formam uma poça de água e depois, várias poças, formam um rio, e depois um oceano. Quando todos estivermos  mais próximos na enorme escadaria que é a consciência, hoje ainda estamos todos muito em níveis diferentes, mas quando todos estivermos mais próximos, juntos vamos formar esse oceano, que é a revolução necessária, para conseguirmos viver melhor neste planeta. Caso contrário, se nós não tomarmos consciência do que se passa à nossa volta, de que temos de mudar radicalmente os nossos hábitos, a forma como comemos, como consumimos, os nossos objectivos relativamente ao presente e ao futuro, o mundo não vai estar lá para os nossos filhos, vai deixar de existir.

Eu acredito que é a revolução do “eu” que toma consciência e subimos todos, uns se calhar mais escadas do que outros e posicionamo-nos nessa escadaria numa posição mais alta. Sem essa revolução da consciência, o mundo não tem futuro.”

 

 

 

 

Obrigada Luís! Por seres uma das minhas pessoas.

 

 

 

Realização e Fotografia – Igor Sterpin TUCANDEIRA FILMS

https://www.linkedin.com/in/igor-sterpin-4778a474/

Be First to Comment

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *