“Eu sou uma humanista. Acho que vale sempre a pena correr em nome da humanidade. Eu acho que a vida se faz de intervenção, de acção, de contacto com o outro.”

No vídeo uma conversa, no texto, outra. É assim com todas as minhas pessoas. O dia estava lindo.  A luz, perfeita. Passava, por entre as  folhas das árvores, iluminando aqui e ali a terra cor-de rosa dos Jardins de Serralves.  Havia vento, uma brisa. Cheirava a rosas, acabadas de cortar e, para além dos passarinhos a cantar, ouvíamos o barulho dos corta-relvas. Não  perturbou a nossa conversa, podem crer,  e muito menos as nossas gargalhadas.

 

Esta Humanista, que, sendo agnóstica,  frequentou na meninice, por vontade da mãe, já que seu pai era ateu, as diversas actividades da Acção Católica. Diz que talvez lhe tenham vindo daí as aprendizagens da importância da atenção ao outro. Claro que falámos da sociedade portuguesa e do mundo em geral, de como é urgente as pessoas religarem-se mais  às outras do que às tecnologias. Que é urgente o amor, ou a tal atenção ao outro, como a Professora  lhe chama.

Queirosiana, Eça de Queirós,   “As Farpas” e, claro, ” os Maias” também estiveram presentes. E que surpresa  boa ouvir a Professora falar das suas brincadeiras de criança, da menina que fazia  bolos de lama no quintal da casa, ainda em Braga. Das brincadeiras  com grupo de vizinhos em que   era quase a única menina e do primeiro livro que a marcou, “O Jogador” de Fiódor Dostoiévski. Muito activa e enérgica, talvez lhe venha daí essa confiança que tem na vida e nos desafios que ela lhe traz, dos quais não só não tem medo, como  é incapaz de lhes resistir. Gosta de se ultrapassar, de crescer, sempre trabalhando em  prol da comunidade, da humanidade, do outro.

 

 

 

CA- A que brincava quando era pequena?

Professora Isabel Pires de Lima (PIPL)– Brincava um pouco a tudo a que as crianças daquela época brincavam. Mas, das coisas que me lembro de que gostava muito especialmente, era de brincar no quintal de minha casa, era às Mercearias, às Cozinheiras, hoje em dia seria aos “Chefs”, que agora estão na moda.  (risos). Gostava muito. Fazíamos bolos de terra, eu e os meus vizinhos. Isto numa casa onde vivi até aos meus 5 ou 6 anos. Gostava muito também  de, com eles, brincar com os carrinhos de rolamentos, que os miúdos faziam. Éramos 6, quatro, rapazes, eu e outra rapariga. Tinha muitas brincadeiras com rapazes. Não era uma Maria- Rapaz, mas gostei sempre muito das brincadeiras físicas e nesse aspecto tinha um lado um pouco arrapazado, pelo menos à época, eram brincadeiras tidas por arrapazadas. De resto, gostava muito de brincar aos médicos.  Por uma razão muito simples, o meu pai era Delegado de Informação Médica e, nessa época, não era como hoje. Hoje isto era impensável, mas nessa época, os medicamentos, as amostras com que o meu pai trabalhava estavam lá em casa, guardados numa arrecadação, ao meu alcance. E eu adorava pegar naquelas caixinhas e brincar com elas.

 

 

 

Que sombra boa

CA- Sei que havia muitos livros lá por casa, quando descobriu o gosto pela leitura?

PIPL- Eu acho que descobri  a leitura com as  histórias que me liam, os meus pais. Ambos, mas talvez até mais o meu pai do que a minha mãe, que era Professora Primária e, portanto, quando chegava a casa já devia estar farta de ensinar meninos e de ler histórias, por isso lembro-me que era mais o meu pai que me lia as histórias. E depois, continuei a ler sempre, fui uma grande leitora na minha adolescência. E, nós sabemos, nós que lidamos com o livro, sabemos  quantos leitores perdemos na adolescência. Esse é um momento crítico. Na infância não há problema neste momento. Há muitas estruturas que incentivam a leitura e funcionam. Onde a coisa se torna difícil é depois na adolescência, porque as solicitações são cem vezes maiores e mais variadas do que aquelas que eu tinha na minha adolescência. Mas, na minha altura era tudo muito diferente. Eu vivia numa cidade de província, em Braga e havia dois cinemas apenas, que funcionavam ao fim-de-semana. A televisão tinha uma programação diminuta e pouco ou nada direcionada para as crianças. Tínhamos férias longas, muito diferente dos dias de hoje, que eu compreendo que nestas circunstâncias tenha de ser assim, mas nós naquele tempo, tínhamos férias longas, e com tudo isto, os livros ocupavam-me muito do meu tempo.

 

 

CA- o que fazia nessas férias (tão) grandes?

PIPL– Reportando-me a esse período do meu crescimento, em Braga, onde eu vivi até aos 16 / 17 anos. Ia para a praia quando os meus pais tinham férias, mas antes disso, íamos muito para a piscina, que era quase um segundo lar nesse período. Era uma piscina onde não havia praticamente ninguém, porque só faixas sociais muito diminutas é que frequentavam uma piscina municipal,  e que era excelente, de resto, nova, com óptimas instalações. Também não havia muito o culto do exercício físico, por isso, nós passávamos o dia todo lá. Os nossos pais às vezes iam almoçar connosco lá, porque nós íamos para lá sozinhos, evidentemente. Tínhamos cerca de 10, 11, 12 anos e íamos e vínhamos, a pé, sozinhos. Outra coisa que fazia nas férias grandes,  vários cursos da Acção Católica, que eu frequentava a Acção Católica, e também ia por períodos longos para a Madeira. A minha mãe era madeirense  e tinha família lá, avó, bisavó até aos 5 anos, e tios avós e portanto, íamos para lá passar temporadas. Passeávamos, eu ia muitas vezes com a minha avó para lá com a minha avó que, quando eu nasci, veio viver para cá, e eu ia para a Madeira com ela por períodos de 2 ou 3 meses e os meus pais iam depois lá ter connosco, durante um mês. Aí, tínhamos banhos de mar, passeios pelas Levadas, subíamos as Ribeiras. Eu tenho de confessar que me fartava de férias. Chegava a Setembro e estava cheia de vontade que as aulas começassem.

 

CA- Lembra-se do primeiro livro que a marcou?

PIPL– Não muito. Não. Quer dizer, lembro-me que me marcaram aqueles clássicos da literatura para a adolescência, “os Cinco” de Enyd Blyton, li essa série de rajada. “A Condessa de Ségur”, esses assim, para a adolescência da época. Depois, a partir de uma certa altura, começo a ler, fundamentalmente até com alguma frequência, muitos clássicos portugueses: o Camilo (Castelo Branco), até porque era o que havia lá por casa. Na aldeia, na Madeira, havia estes clássicos e eu lia-os. Mas, houve um livro que me marcou muito e eu lembro-me bem dele, tinha eu uns 15 anos, foi um presente de aniversário,  “O Jogador”, de Dostoiévski. Foi um livro que me impressionou imensíssimo, imensíssimo, porque é um livro relativamente breve, e sendo denso, como todos os livros de Dostoiévski, não é dos mais densos.  Lembro-me que me impressionou muito, por causa de toda aquela questão da busca do “eu”,  da compreensão do “eu”, a compreensão dos comportamentos,  a questão da incapacidade de controlar os próprios comportamentos e que é muito o tema central das obras dele e isso deve ter-me impressionado muito, porque na adolescência nós debatemo-nos com isso e eu recebi-o em plena adolescência. Também li nessa época os Neo-Realistas, eram escritores que estavam na biblioteca do meu pai, e eu lia-os: o Soeiro Pereira de Gomes, o Alves Redol, o (Fernando) Namora, li nessas alturas alguns desses.

 

CA- Nascida em Braga, veio com 17 anos para o Porto. Quando é que  a Invicta a conquistou?

PIPL- A partir dos meus 30 e tal anos, passei a sentir-me mais portuense do que bracarense. Vejamos, eu vivi em Braga até  aos meus 16, 17 anos. Os meus pais não ficaram em Braga, não eram de Braga. Eu tenho dois ou três grandes amigos em Braga ainda das relações dos meus pais, alguns ainda vivos, mesmo muito amigos. Também tenho as minhas antigas colegas de liceu com quem ainda de vez em quando me encontro, mas na verdade, passei a ir pouco a Braga. E o Porto passou a ser muito mais a minha cidade do que Braga. E o próprio envolvimento com a vida da cidade, incluindo a vida cultural e depois a vida política, fez-me ser cada vez mais portuense.

 

CA- Ter sido ministra da Cultura foi um desafio. Correu muito bem. Confia na vida?

PIPL– Confio na vida e dificilmente resisto a um desafio. Sou muito curiosa e sobretudo, gosto de inflexões. Gosto de coisas novas. Não sou nada conservadora no que diz respeito à minha actividade profissional. Gosto de me experimentar, de descobrir campos novos, não me assusta, gosto bastante até. Eu, na Universidade, e acho que acabo por ter um percurso de cerca de uns 10 anos na vida política, em parte, por isto que vou dizer, eu fui  uma universitária à moda antiga. Eu comecei a minha carreira universitária em 1974. Fiz um percurso, muito típico da época, fiz todos os meus estudos na mesma Universidade, licenciei-me, doutorei-me, tudo. E, nessa altura, a Universidade, anos 70/80, era muito fechada à comunidade, muito diferente do que acontece hoje em dia, em que a Universidade está muito presente na comunidade. E eu, sem qualquer cálculo ou intenção, procurei uma vida exterior à Universidade. Até porque frequentava os teatros, os cafés onde se conversava sobre tudo, o “Piolho”, a “Árvore”. Eu sempre me entrosei um pouco com as instituições da cidade e também comecei a ter solicitações para palestras, para falar disto, a falar daquilo. Além disso, trabalhava, como ainda trabalho em Literatura Contemporânea e no romance do metade do séc. XIX, e trabalhei um clássico, como o Eça, que é sempre alguém que está sempre na ordem do dia, acabei por  ter muitas solicitações culturais e a responder a elas. Provavelmente, por isso é que um dia, o Partido Socialista se lembrou que eu pudesse fazer parte de uma lista para deputados, coisa que nunca me tinha passado pela cabeça. Aliás, quando o PS me contactou eu achei que eles queriam que eu fosse Comissária de qualquer coisa ou outro cargo qualquer que eles normalmente querem uma Independente para fazer esse género de coisas, nunca para ser deputada.  Claro que também sempre houve da minha parte um interesse pela política, mas a política como reflexão, um assunto sempre presente na casa dos meus pais. Estive muito envolvida no 25 de Abril, como muitos dos estudantes da altura. O meu pai era um democrata, sempre muito interessado pela coisa pública. Julgo que na juventude, este “julgo” decorre das circunstâncias em que se vivia, julgo que esteve próximo do Partido Comunista na juventude dele. Sublinho, “julgo”,  por vários motivos, inclusivamente também pela relação próxima com um irmão dele, um tio meu que eu não cheguei a conhecer e que esse, sim, sei que foi militante  do Partido Comunista, morreu muito cedo e eu já não o conheci. O meu pai, sempre foi  um homem muito atento à coisa pública, à política, por assim dizer. Em minha casa, os temas políticos, sempre fizeram parte da nossa vida familiar, mesmo numa altura em que na maioria das casas isso não acontecia. Acho que, também por isso, a política, me interessou.

 

 

CA- Queirosiana, vamos agora, como não poderia deixar de ser, falar d’ “Os Maias”: “Não vale a pena correr para nada e tudo na vida é ilusão e sofrimento”. Isto é o final do romance. Acha que a vida é isto?

PIPL- Eu não sei se a vida é assim. Sei que a leitura que o Eça faz do Portugal da época era essa (1888). Faz este ano 130 anos e eu, que não sou muito atenta a efemérides, estou neste momento a trabalhar com uma instituição que vai apresentar uma exposição no final do ano sobre  “Os Maias” e o Eça. Uma instituição de referência. Voltando a essa expressão, é  preciso dizer que a leitura que  Eça faz do seu Portugal contemporâneo. O Eça e seus companheiros de geração, o Antero de Quental, o Oliveira Martins, é uma visão extremamente pessimista e crítica relativamente às elites, que é o caso n’”Os Maia”. O que ele faz nesta obra é uma crítica muito forte à incapacidade das elites para cumprirem o seu papel, de elaborarem um projecto para o país, de transformar, de intervir eficazmente. No fundo, se virmos bem, “Os Maias”,  é um romance que procura pensar o país. É esse o grande tema.  E aqueles dois protagonistas, Ega e Carlos, que pertencem a uma elite cultural e social, mostram-se incapazes de levar a cabo os seus projectos. Perdem-se ambos numa espécie de diletantismo sem objectivo, sem nexo. E o Carlos envolve-se naquilo que é uma paixão impossível e todos os outros ingredientes da paixão romântica, que o manieta e que o leva a entrar num círculo do qual não consegue sair. Esse episódio final d’”Os Maias” é, no fundo um episódio de reconhecimento,  da afirmação do percurso de desistência daqueles dois, daquelas duas figuras.

 

CA- Significado desta frase para a sua vida?

PIPL– Para mim, não faz qualquer sentido. Eu sou uma humanista. Acho que vale sempre a pena correr em nome da  humanidade. Eu acho que a vida se faz de intervenção, de acção, de contacto com o outro. Mas, voltando a essa atitude do final d’Os Maias” Não vale a pena correr para nada e tudo na vida é ilusão e sofrimento”, dá azo aqui a um a leitura ambígua, porque por um lado leva-nos a essa leitura que acabei de referir, por outro lado, eles acabam por correr para apanhar o Americano, e às vezes, o que nos motiva pode ser uma coisa prosaica, naquele caso eram as favas com chouriço ou outra coisa qualquer, já não sei o que era exactamente. Eles correm para chegarem a tempo ao restaurante, ou à tasca, onde iam comê-las. Mas eles correm para chegar a tempo a qualquer coisa.

 

CA- Como intelectual e académica, que valor dá ao pensamento nas decisões importantes da sua vida?

PIPL- Eu sou académica. Fui educada e treinada para pensar. Procuro ser reflexiva, procuro pensar, mas isso não significa que reconheça o papel importantíssimo das emoções, àquilo que podemos chamar de intuição ou pensamento emocional. Dou muita importância a isso, também. Aliás, eu acho que o pensamento é composto por uma inteligência cognitiva e uma inteligência emocional e quando pensamos, convocamos essas duas formas de inteligência e se não as convocarmos, estamos mal, porque não vamos pensar bem. Hoje em dia, a Neurociência, já prova isso mesmo. E a emoção vai sendo cada vez mais complexa à medida que nós seres humanos, nos fomos complexificando, evoluindo como espécie.

 

 

CA- Com o advento das redes sociais, é mais do que nunca urgente permanecer (humano)?

PIPL– Sobretudo eu acho que aquilo que importa desenvolver, em meu entender, é o juízo crítico. É a capacidade de escolha, é treinar essa capacidade. Por isso, é que eu acho tão importante a literatura ou outras artes, aquilo  que exige o treino da  interpretação. Aliás, a literatura exige esse trabalho porque é uma arte, feita através da matéria verbal,  é  arte. Eu acho que é aquilo que importa sobretudo desenvolver, é a capacidade crítica. E é por isso que eu acho que o ensino que estamos a oferecer hoje em dia aos nossos jovens, está estruturalmente errado. E o melhor exemplo disso é o 12.ºano. Estamos a treinar meninos que são cavalinhos de corrida, treinados para terem 20 valores naquele exame e depois chegam à universidade com duas palas, porque nada lhes interessa para além daquilo que é teoricamente o programa. Os professores não têm culpa, porque eles têm de cumprir o programa e cumprem. Ora, um professor tem por função, cumprir um programa e fazer vir à colação mil coisas que um certo dado do programa convoca. E hoje em dia, vemos os miúdos a fazer observações ao professor e a resposta que recebem é, “não vamos perder tempo com isso.” Outra coisa que é muito importante e falta nos dias de hoje é tempo para os miúdos brincarem. Brincarem, não fazerem nada, deixarem. E, como hoje me dia a escola tem de ocupar os meninos o dia todo, a escola, fruto da vida de hoje. E a escola torna-se uma grande seca para os miúdos. Tenho a certeza que a escola será muito diferente das de hoje. Será uma escola de projectos, que convocará vários professores, de várias áreas, com os meninos a trabalhar, interessados, motivados.

 

CA- É urgente o amor? De novo, Eugénio de Andrade, que sei que é um poeta que aprecia.

PIPL- Claro, o amor faz de nós humanos. A humanidade não existe sem amor, sem estabelecimento de laços entre as pessoas.

CA- E sente que é mais urgente o amor, nos dias em que vivemos, neste tempo das redes sociais…?

PIPL- Sim, sinto que é necessário mais religamento verdadeiramente humano entre as pessoas, menos virtual, acho que sim, porque se há algo que nos faz humanos é essa capacidade de atenção ao outro, seja a que nível for, podemos chamar-lhe amor, isso faz de nós humanos. No mundo actual… ou melhor… vamos cá ver, eu não acho que o mundo já tenha sido melhor e agora é pior,  acho é que me preocupa o estado do mundo. Vemos que o estado do mundo está perigoso, mas, quando digo isto,   faço simultaneamente o exercício de pensar: o mundo não está para acabar, eu é que estou para acabar. É por isso que confio na capacidade do Ser Humano de  encontrar soluções para os desafios que se lhe colocam. Até porque se não encontrar, a humanidade acaba. Isso é algo que hoje está claro aos nossos olhos. Mas, eu confio que a humanidade encontrará soluções e que podem passar pela ligação, pelo respeito pelo outro. Para mim, o grande desafio da humanidade de hoje é que ela conhece-se nas suas grandes diferenças. Porque há 50 anos atrás, só as elites tinham acesso as essas informações. O resto da população vivia no seu bairro, na sua rua, na sua cidade, no seu país, restringido à sua pequena comunidade sempre. O outro existia muito vagamente, nos livros, quando muito num filme ou outro… Hoje, o outro diferente de nós, está ao nosso lado, com uma cultura diferente, um passado diferente, uma forma de viver diferente, está ao nosso lado.

 

O mais importante

CA- E constatamos que afinal o outro é muito mais igual do que afinal nós pensávamos.

PIPL- E para mim, isso constitui um desafio, mas a atitude da esmagadora maioria das pessoas, é “não mexam no meu mundinho, que está organizado desta maneira e não mo desorganizem. Isto mesmo, nas culturas cristãs, que tinham obrigação redobrada de ter uma atenção ao outro como a ele mesmo.

 

CA- Rir é o melhor remédio?

PIPL – Rir é importantíssimo. Essa lição tirei-a também do Eça. Foi muito útil nessa atenção ao riso, e na  importância do riso, da ironia, à importância de nós criarmos distanciamento em relação a nós próprios, de termos a noção do nosso lugar ínfimo no mundo e de termos capacidade de criarmos distância em relação àquilo que dizemos e que fazemos e daquilo que somos. acho que não nos levarmos a sério é uma coisa óptima. O Eça dizia, muito jovem ainda, em 187 e pouco numa “Farpa”, que são textos de intervenção, de uma actualidade quase pungente, de tal forma é actual, bastava substituir assim aqueles cargos do género: conselheiro ou senhor, mudam os nomes e está lá tudo, mas dizia eu, numa primeira “Farpa” que ele escreve em 1871, com o seu amigo Ramalho Ortigão, ele  traça um quadro extremamente negativo da sociedade portuguesa, naquela época, muito curioso também de alguma actualidade, faz um quadro muito negativo  e termina a dizer assim: “Vamos rir, pois, porque rir é uma Filosofia e em Política Constitucional é uma opinião.” (risos). Ora, eu acho que é mesmo isto! Rir é uma Filosofia e uma opinião. Na verdade, eu tendo a rir muito. Até tendo a rir inconvenientemente alto demais (risos) e sobretudo, tendo a construir uma atitude irónica, perante aquilo que faço, aquilo a que me dedico.

 

 

CA- É também essa a mensagem que passa à família?

PIPL-Sim. A minha família, acho eu que  sabe, valorizo muitíssimo a minha vida profissional. Não me consigo conceber sem uma vida profissional activa e preenchida, mas tenho distância em relação a essa vida, isto é, não acho que esteja a fazer alguma coisa que vá marcar o mundo e a humanidade. Acho que tenho a perfeita noção de que tudo isto é muito relativo e não devemos levar tudo a peito. Eu sou muito empenhada na minha actividade, seja a nível académica, na investigação ou  o ensino, quer na política, quer aqui em Serralves, onde estou apenas no Conselho de Administração, eu procuro, emprenhar-me , fazer  o meu trabalho o melhor possível e tentar que o meu contributo seja útil para a comunidade.

 

CA- Como é um dia perfeito para si?

PIPL– Um dia perfeito para mim é um em que que, dentro das actividades que eu tenho de desenvolver, tenha tempo para fazer algum exercício físico, seja  uma caminhada, seja ginásio, tenha tempo para ler. Gosto de não ter pressa e de ter tempo para ler. Um livro que não seja de trabalho, um que me apeteça. Agora ando a ler um de um escritor portuense, João Paulo Sousa, foi meu aluno na Universidade há muitos anos, e  foi uma surpresa muito boa. Aliás, não foi boa, foi muitíssimo boa. É um  livro que se chama, penso eu,  “O rosto de Eurídice”, eu sou especialista em  não fixar os títulos dos livros que leio, mas penso que é este o título certo deste romance, que é interessantíssimo, por sinal. Estou a ler também um romance do Valério Romão, escritor bastante curioso, que eu tenho acompanhado. Trabalha um bocadinho sobre de temas de margem, digamos assim. É um escritor que aprecio. Vou começar a ler um livro de Mário Cláudio, que me chegou ontem, um livro de memórias. É um peso pesado da ficção portuguesa, de uma capacidade produtiva excepcional. O Mário Cláudio é um homem muito culto e reconheço que não tem uma escrita fácil. Dos últimos livros dele, “Astronomia”, que é uma auto-biografia, é um livro absolutamente extraordinário. Está dividido em três partes e a primeira parte, que é a eu se refere à infância é uma coisa absolutamente deslumbrante. É um dos grandes momentos da literatura contemporânea, na minha opinião. Continuando, com o que é, para mim, um dia perfeito, e reportando-me aos dias normais do quotidiano, almoçar bem, este bem, quero dizer com tempo e comer daquelas coisas que gosto. Ali em Matosinhos, gosto muito de peixe, acompanhada de uma boa conversa e, tendo feito todas estas coisas,  para um dia ser perfeito, gosto de chegar ao fim do dia com a sensação de que  cumpri alguns dos objectivos que tinha para aquele dia. Alguns, porque nunca se cumprem todos eu pelo menos, não. Claro que também gosto de um dia em que a minha filha, só tenho uma, vai lá a casa, janta por lá. E nessas ocasiões, janto a sério, porque normalmente não janto muito a sério, só almoço a sério. (risos) Gosto de cozinhar. Esse também é um dia de que gosto muito. De coxinhar parava família e para os amigos, também saõ dias perfeitos esses.

 

 

CA- O que é o mais importante para si na vida?

PIPL– Para mim, o mais importante é o equilíbrio entre várias esferas, espaço para a família, espaço para uma vida profissional activa e preenchida e espaço para o próprio. É importante ter espaço para podermos preguiçar, fazermos um pouco daquilo que nos apetecer, e nisso as mulheres são terríveis, em não encontrarem tempo para elas próprias e acabam por destruir muitas coisas, quer vida familiar, quer profissional, exactamente porque não se dão esse espaço. Para mim, o mais importante na vida é o equilíbrio entre estas três componentes.

 

 

Obrigada Professora Isabel Pires de Lima

CA- O seu maior sonho?

PIPL-Tentando descentrar-me um bocadinho de mim, em termos mais amplos, era que a humanidade, fosse capaz de se unir, de se organizar, deixando de destruir o planeta e ser capaz de garantir uma qualidade ambiental para as gerações que aí vêm. O meu maior sonho hoje, é muito esse. É de ter expectativas em relação à capacidade da Humanidade para estabelecer uma relação mais normal com o ambiente. A nível individual, os meus sonhos são muito simples. Tenho 65 anos, se quiser saber,  o meu maior desejo é o de ter uma expectativa de vida de 15 ou  20 anos, com saúde e qualidade de vida.

Muito obrigada Professora Isabel Pires de Lima!

 

Realização e Fotografia – Igor Sterpin TUCANDEIRA Films

https://www.linkedin.com/in/igor-sterpin-4778a474/

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