“Acho mesmo que por vezes, aprendemos coisas onde menos esperamos.”

No vídeo uma  conversa, no texto outra. É assim com todas as minhas pessoas. A Katty Xiomara recebeu-nos no seu atelier. Eu estava muito curiosa, como estou sempre em relação a todas as pessoas com quem me vou cruzando, aqui e não só, mas em relação à Katty, aguçava-se-me a vontade de saber mais sobre esta estilista tão bonita, com ar frágil, de  boneca e cuja carreira conhecemos há mais de 20 anos.  A Katty que afinal  é uma força serena, um oceano profundo, de ideias em constante movimento, foi quem com 18 anos apenas,  conseguiu motivar os pais a trocarem  Caracas, Venezuela, onde nasceu, por Portugal. Veio à frente, a apalpar terreno, para casa de uns tios e, 4 meses depois, os pais já tinham vendido tudo  lá e vindo para cá de vez.

A Katty tem um sonho, tem muitos, temos todos sempre, como ela diz, mas há um  que é  enorme, meio utópico, que paira como que uma nuvem sobre ela e que é bem a prova da consciência que a Katty tem da humanidade que a rodeia e do planeta em que vivemos,  que temos de, mais do que nunca, conservar. Partilho convosco mais uma conversa boa. Desta vez  com esta  estilista de sucesso que, sempre fez e  faz, o caminho, caminhando, e que encontra sem o procurar.

 

CA- Nasceste em Caracas, Venezuela. Foi difícil vir para Portugal?

Katty Xiomara (KX)-Não. Nada. Nós já conhecíamos, vínhamos cá nas férias. Quem deu o primeiro passo fui eu, porque as minhas duas irmãs, nós somos três-eu sou a mais nova-e as minha irmãs já estavam as duas casadas, ficava eu com os meus pais, que a minha diferença de idade para as minhas irmãs, ainda é grande, 8 anos da irmã mais velha e 6 da minha outra irmã, portanto, eu ainda vivia com os meus pais, quando elas saíram.  Eles perguntaram-me se eu queria vir para Portugal e eu disse logo que sim. Eu queria mesmo vir. Até fiz pressão, achava que aquele era o momento certo. Queria estudar fora, e  assim foi.

 

CA- Com as tuas irmãs, em miúda, como eram as brincadeiras? Elas brincavam com a irmã mais nova?

KX- Brincavam, sim. E elas até eram muito próximas, na idade e não só, depois houve uma fase em que se afastaram um pouco, mas eu acabava sempre por acompanhá-las. Não havia, não acho que tivesse sentido ali uma solidão muito grande.

 

CA- Como a mais nova, tinhas mais mimo e mais atenção, são essas as tuas recordações?

KX– Sim, de certa forma sim, em parte sim, mas por outro lado, sou a terceira, por isso, sou a que tenho menos fotografias, (risos) ninguém se lembra de nada das minhas primeiras palavrinhas. Ainda por cima, a minha irmã mais velha, aparentemente falava muito e falou desde cedo… também havia menos paciência, para me aturar, a minha mãe já era mais velha.  Não sinto assim uma diferença considerável na minha educação, nem naquilo que eu sinto por eles, mas sinto que havia uma diferença. Também somos todas diferentes de carácter e, também sentia essa adaptação a cada uma de nós, como fazem todos os pais para cada um dos seus filhos. Mas, objectivamanete a maior diferença que sinto e é sobretudo agora, porque na altura não. Sinto isso agora , porque às vezes vou procurar fotografias minhas em pequena, porque me pedem e de facto sou a que tenho menos fotografias e foi acontecendo de forma gradual. A mais velha é a que tem mais, depois a do meio menos e eu menos ainda, e quando há, são sempre fotografias em que estamos as três juntas.

 

 

 

CA- Brincavas com bonecas, vestia-las, criavas vestidos para elas?

KX- Brincava sim. Era aí que ia para o pé da minha mãe, que me ajudava a  fazer as roupas. Eu tentava aprender alguma coisa. Era tudo feito à mão. Fui mais de brincar com a roupa das bonecas do que com as bonecas propriamente. Não era tanto de montar cenários ou histórias, mas mais de criar as roupas para as bonecas. A minha mãe tinha um cantinho no quarto, perto da janela, onde fazia tricot  e era onde eu me acochilhava com ela, pertinho, para ela me ajudar a fazer as  minhas coisas.

 

CA- Quem te influenciou a ser estilista? Houve alguém?

KX- Talvez a minha irmã mais velha. A minha irmã mais velha chegou a fazer uma série de pequenos cursos e um deles era de confecção, mesmo de confecção e eu lembro-me que na altura, comecei a achar imensa piada e até a pedir-lhe para fazer um desses cursos com ela, portanto íamos as duas. E aí foram o que poderei dizer os primeiros vestidos que fiz. Foi com ela e ela foi quem me inspirou. Quando eu vim para Portugal, a minha  ideia não estava fechada em relação ao quereria fazer. Eu até queria estudar Moda, mas não propriamente como profissão. Era assim um pouco como a minha irmã tinha feito na Venezuela, mais para ter um outro background, mas nunca para seguir como profissão. Não via as coisas assim lá, na Venezuela. Se calhar, se tivesse feito um curso assim, não o usaria nesse sentido e   cá, nem sabia como é que este mundo funcionava, nem sabia qual era o estado das coisas, em termos de evolução de moda em Portugal. Por isso, a minha ideia era  Design Gráfico e cheguei a inscrever-me no curso. A minha intenção era fazer os dois cursos, mas o horário do CITEX era extremamente puxado e eu não conseguia conciliar com o horário da Faculdade. Decidi fazer primeiro o curso de Moda, porque era só de 3 anos e depois, voltaria à Faculdade para fazer Design Gráfico, e era assim que eu estava a pensar, mas não foi assim que aconteceu. Foram surgindo algumas oportunidades  e era a altura de as abraçar, de começar  a experimentar.

 

CA- Foi por essa altura que surgiu o Portugal Fashion?

KX– Sim,  foi por aí… Eu participei num concurso que havia no Porto, que era o Porto de Moda, organizado pela “Eusébio e Rodrigues” e pela Câmara Municipal do Porto, penso eu… ganhei o primeiro prémio e acho que essa experiência foi um ponto de viragem.

 

 

CA- Então, o teu caminho foi aparecendo à tua frente?

KX-Sim, não fui eu que o procurei, nem imaginava que seria assim. Por outro lado, encontrei muito cedo a minha cara-metade (o Zé Manel), o meu marido, que é Designer Gráfico e de facto, tudo o que eu sei, nessa matéria, até hoje, aprendi com ele. Há aqui uma complementaridade muito grande  entre nós. Já estamos juntos vai fazer 25 anos.

 

CA- Há uma grande sintonia entre vocês. Isso sente-se. Já não vos dissociamos um do outro.

KX– É. Hoje em dia, já não somos só eu e ele, temos uma equipa a trabalhar connosco há muito tempo, o que faz com que já haja uma comunicação muito natural entre todos nós. De facto, acho que ele e eu nos complementamos bastante bem, pessoal e profissionalmente falando, criamos um equilíbrio. E ele acaba por me ajudar a fazer aquilo que eu sempre gostei de fazer e eu aprendo sempre com ele. Talvez por isso também, eu não tenha aquela sensação de percurso  incompleto, por não ter feito o curso de Design Gráfico. Isso foi-se desvanecendo aos poucos, porque o Zé Manel acaba por me complementar nessa área.

 

 

 CA- Neste percurso de 22 anos de  carreira, já surgiram dúvidas?

KX- Como marca, existe desde 2000, mas a minha carreira já tem 22 anos sim. Dúvidas? Tive, claro! Ainda tenho dúvidas, muitas, criativas e outras. (risos). E continuam a haver, em todos os sentidos. Ainda dou comigo a pensar: será que é isto que tenho de fazer? Será que é este o meu percurso de vida? Será que estou a fazer bem? Será que aprendi tudo o que devia aprender? Não. Essa é uma resposta que tive desde o início. Acho que todos os dias aprendo e todos os dias vou continuar a aprender a não ser que me feche no meu mundo, que não é a minha vontade. Acho mesmo que por vezes, aprendemos coisas onde menos esperamos. Portanto, não podemos, sem dúvida, fechar-nos a nenhum tipo de experiências.

 

 

 

CA- Tens algum momento marcante que exemplifique o que disseste?

KX- Muitas…Por exemplo, eu sou Madrinha da campanha  de prevenção solar nas escolas da Maia, já há algum tempo, mas sou bastante despistada, nem sei dizer desde quando. Mas, sou Madrinha desta campanha há algum tempo e todos os anos há um pequeno desfile com chapéus, que são feitos pelas próprias crianças. E é fantástico! É muito, muito giro. Todos os anos é uma escola diferente do concelho da Maia. E ver o empenho, não só das crianças, que são muito pequeninas, pré-escolar e divertem-se muito,  é muito giro ver o empenho dos pais. Mesmo com as vidas e os horários difíceis de hoje,  e o desfile acontece normalmente a um dia de semana, sempre a uma hora em que é muito complicado para os pais estarem presentes e estão sempre presentes e muitas vezes são os pais. Não é como antigamente em que só vinham as mães, vêm os pais. E é muito bonito ver o empenho que eles colocam neste trabalho. Acabas sempre por aprender com a criatividade das crianças e dos pais, claro! Eles fazem chapéus com as coisas mais inverosímeis e o resultado é muito interessante. Houve um, que eu nunca me lembraria, de fazer um chapéu com pacotes de leite, outro fez do chapéu o Sol e à volta, o Sistema Solar, com os outros planetas. É muito bom ver a criatividade, ver que as pessoas começam a olhar para os assuntos de outras formas.

 

CA- Consegues descrever a sensação de estar na passerelle no final de cada desfile?

KX- Eu só vejo luzes. Eu tento procurar caras, mas por norma só vejo luzes. Eu acho que fico lá imenso tempo e as pessoas dizem que eu saio muito rápido. Mas, o momento de pausa, quando chego lá à frente, parece tão longo, tão longo…

 

CA- E, se calhar, a sensação também muda de colecção para colecção…

KX- Sim, cada colecção é diferente. A experiência lá dentro, nos bastidores também. É sempre diferente. E depois há momentos em que saímos para a passerelle ainda muito mergulhados no que aconteceu nos bastidores, que por vezes são momentos caóticos e por isso ficamos a achar que não correu bem e torcer para que quem está a ver não se tenha dado conta. Antigamente, ainda tinhas algum feedback do desfile através das palmas que batiam, mas hoje em dia não se bate palmas, porque está toda a gente com o telefone na mão… Por isso, não sabes muito bem como correu até àquele momento em que sais para a passerelle. Só ali é que tens a reação de quem está a ver.

 

CA- Alguma vez ficaste com a sensação de vazio, de obra acabada e agora, o que faço?

KX – Não. Isso não, é mais uma sensação de alívio, porque é o último momento daquela colecção. Já está pronta há muito tempo. Antes disso, já tinha estado na minha cabeça. Na verdade, quando chega o momento do desfile, já nem a podes ver, portanto é mesmo uma sensação de alívio. E o que há a fazer é partir para a próxima, é partir para outra, que até já se vai começando a formar durante a anterior colecção. Se ficar retida naquela em que estou, a grande tentação é ir modificando e ir fazendo mais e mais mudanças e não pararia nunca e aqui no atelier enforcavam–me (risos). Por isso, há que partir para a próxima.

 

CA- Os bastidores de um desfile são o caos, há assim algum momento que te tenha marcado mais?

KX- Há muitos, muitos momentos, normalmente são maus, não são bons, mas acabam por passar. Lembro-me de vários, há um de um macacão em que a aderecista decidiu vesti-lo pela perna e a manequim ficou com o macacão entalado na cinta e por isso não saiu para a passerelle, aquele coordenado não desfilou. Outra  vez, uma manequim foi roubar um coordenado a outra, porque queria desfilar mais vezes e só um não era suficiente para ela, outros…tantos… os sapatos que não servem, as roupas, uns mais de rir, outros menos,  mas há assim um que me marca mais. No início, lembro-me de me ter acontecido uma vez eu ter bloqueado, porque esta situação de gerir as entradas em passerelle não é fácil. É preciso gerir bem o tempo para que as manequins consigam sair do desfile, trocar de roupa, voltar ao desfile e isto sempre mantendo o ritmo que pensámos para a colecção. E não é fácil fazer estes cálculos, muito menos nas  4 horas antes do desfile. E 4 horas que nunca são 4,  sobretudo, quando somos estilistas novos, as manequins só vêm experimentar as roupas umas 2 horas antes, porque estiveram  a desfilar para não sei quem e a maquilhar para  não sei quantos e houve uma vez, no início, em que eu bloqueei. Era uma Moda Lisboa, e eu disse “eu não consigo…” Eu bloqueei. Estava tudo baralhado na minha cabeça, eu não percebia como ia arranjar solução, mas felizmente desbloqueei. Comecei a pensar, saem todas como estiverem. (risos) O Zé Manel ajudou-me e eu consegui tomar as rédeas da coisa e correu bem. Os bastidores de um desfile são muito caóticos. Quem nunca fez, não percebe logo o método, como as coisas funcionam e a questão é que não se pode demorar, é tudo muito rápido. É muito stress durante o desfile para os manequins, mas para nós, os estilistas, o pior é o antes, ou porque a uma não servem as calças, à outra são os sapatos, é que nós não temos medidas de nada. Nós fazemos tudo mais ou menos e quando não serve, lá temos nós de trocar o coordenado  nº1, que tinha tempo de trocar de roupa, porque só voltava a entrar no nº18, mas depois mexemos numa, temos de mexer na outra e trocar mais outra e gera-se aqui um círculo vicioso, é o caos. E é assim mais difícil, porque em cada colecção eu tenho uma história, as peças seguem uma uma determinada ordem para que façam aquele sentido que eu defini.

 

Há momentos hilariantes nos bastidores dos desfiles

 CA- Como funciona o teu método de trabalho? É uma inspiração que te chega, como é?

KX– Há um método que não é fechado, ou seja, nem todas as estações correm da mesma forma, mas há um ciclo-base, comum a todas. Há um pensar, uma espécie de um nuvem de pensamento do tema ou temas possíveis para cada colecção. Normalmente, é um derivado, não é que existam grandes diferenças, mas começa a formar-se uma nuvem que contém várias coisas, que pertencem ao mesmo universo e que, em determinada estação eu me sinto mais atraída para aquele tema e quero depurá-lo. Depois entra a matéria-prima, e eu posso fazer uma ou outra para mim, com o meu conceito, mas não  muita coisa, porque na  verdade, os nossos mínimos ainda são pequenos e não temos capacidade para chegar a um fornecedor e pedir uma exclusividade, um tecido feito desde a raíz. Por isso, tenho de combinar aquilo que encontro, em função do tema que tenho e a palete de cores, também coordenar com o desenho, que normalmente temos sempre bordados ou estampados na nossa colecção, tudo isto acontece um bocado ao mesmo tempo e há que conciliar.

Dúvidas? Há sempre…

CA- Quando andas nessa fase, a tua família sente as tuas mudanças de humor associadas ou não te deixas afectar muito?

KX- Eu penso que sentem, mas eu não sou uma pessoa muito volátil… Obviamente, tenho os meus momentos bons e maus, mas por norma sou pacífica. A não ser que esteja a passar um momento extremo, sou muito  pacífica. Sou é uma pacífica muito inconstante.  Posso estar muito em baixo, mas, depressa desanuvio. Raramente, eu fico um dia inteiro em baixo. Não faz parte da minha maneira de ser. A minha filha costuma dizer que eu “ não bato bem da cabeça”. E então à noite, ela diz que tenho qualquer coisa que desperta em mim, uma espécie de loucura. (risos)

 

CA- Por falar em Noa, achas que ela vai seguir as tuas pisadas?

KX- Não, arte não. Completamente fora desse caminho. A Noa é mais das Letras, História, na verdade. Adora a Geografia também.

 

CA- Quando não estás a trabalhar, a criar, o que gostas de fazer?

KX – Bem… um criativo está sempre a trabalhar,  mesmo quando lês um livro, que eu adoro ler, há sempre alguma ideia, acabas sempre por correlacionar as coisas ou algo que desperta em ti a vontade de explorar algum tema naquela época em específico… Mas, sim, quando não estou aqui a trabalhar, gosto muito de ler, de cinema, de jardinagem até gosto, mas não tenho muito jeito. A minha mãe tinha, mas eu nem por isso…

 

CA- Um sonho. Tens?

KX- Muitos. Acho que nunca paramos de sonhar. Mas, há uma série de coisas que cada vez mais me inquietam, sobretudo na minha área. Não é fácil e está a passar por mudanças enormes, muito complicadas e que afectam muitíssimo o ambiente. Isto coloca-me numa posição muito complicada, porque por um lado eu preciso,  de facto, de vender mais, mas também sinto a necessidade de educar as pessoas a consumir menos. É muito complicada esta gestão, mas há assim um projecto-sombra, que paira sobre mim, uma coisa meio utópica, que é a  criação de uma espécie de laboratório onde as pessoas possam aprender elas próprias a tratar do que é delas, do seu vestuário e não só. A minha ideia é criar aqui algo mais criativo, também de um ponto de vista onde as pessoas possas elas próprias fazer alguma coisa e não apenas deixar isso na mão de outros. Ou, pelo menos, onde se apercebam que o processo é como é e que não é tão rápido como se faz parecer. É que o “fast fashion” não só está sempre a debitar peças novas, como leva a percepção às pessoas que é só estalar os dedos e está pronto. Também não é tanto assim…falta muita consciência em relação à forma como as coisas são feitas. É  um bocado como acontece com certas crianças, americanas por exemplo, houve um estudo recente que diz que há muitas que não sabem de onde vem a carne, o chocolate, não têm a mínima percepção de como as coisas são feitas. O leite chocolatado vem das vacas castanhas… e coisas deste género… ditas por crianças já quase adolescentes. E esta falta de consciência é complicada, porque esta informação se perdeu.  Hoje em dia é tudo tão rápido, tão aparentemente fácil, que as pessoas estão a perder a consciência de como as coisas acontecem.

 

CA- Ao lado de uma grande mulher, há sempre um grande homem?

KX- Claro! (risos) Sim, é verdade. Eu e o Zé Manel complementamo-nos mesmo muito. Não vou dizer que cada um de nós, sozinho, não consiga ficar estruturadamente bem, ser íntegro, pessoa inteira, mas há uma… uma necessidade de nos sentirmos presos um ao outro, um pouco como na história do “Principezinho” com a Raposa. O excerto é mais ou menos assim: nós cativámo-nos um ao outro, agora somos responsáveis um pelo outro.

 

CA- Que lindo! E essa ligação, sintonia, isso que vos une sente-se. Das vezes que vos fui encontrando, vejo sempre o brilho no olhar do Zé Manel quando estás a falar e tu igual com ele. É muito bonito ver-vos.

KX- Por enquanto ainda é assim. E é algo que eu aprecio muito e cultivo, rego muito este jardim. Até certo ponto, fui sempre mais desligada da família, talvez por ser a filha mais nova, muito independente, mas perdi o meu pai, vai fazer agora 7 anos, e a minha mãe, fez 10, e quando perdi é que senti. Então agora, cultivo muito esta minha família. A Noa também. Para já, ainda gosta muito de estar connosco, ela já tem 14 anos, mas gosta muito de estar connosco e de passar tempo connosco, de ir  ao cinema connosco, de sentar-se a ver televisão connosco, de ler um livro, ela num lado, eu noutro, mas estamos juntas, a ler, sem falar que também é muito importante. Depois, tempos os pais do Zé Manel. Não tenho os meus pais, mas tenho os pais dele, que já são meus pais há  muito tempo, desde que eu conheço o Zé Manel. Há aqui um complemento familiar muito grande e que, felizmente, eu noto que, para já, mesmo a minha filha se dá conta disso e valoriza isso. A Noa percebe que tem a sorte de chegar a casa e estar connosco a qualquer hora e isso é raro. Ela estuda ao nosso lado enquanto nós trabalhamos e isso é raro. Ela está sempre com os avós, está sempre com os pais e isso é muito raro. Por enquanto, a Noa sabe, por contraste com os colegas, que o que ela tem é raro.

 

 

CA- Como é para ti um dia perfeito?

KX- Um dia perfeito é quando tudo corre bem. (risos). Isso é raríssimo, que há sempre coisas a correr mal, (risos)… Eu adoro os Sábados! Não é que não trabalhe, mas normalmente costumo tirar a manhã para mim. De manhã eu e o Zé saímos, damos uma caminhada, tomamos café fora e  caminhamos pelo bairro e pela zona da Baixa. E,   essencialmente é isto, é caminhar e falar. É das coisas mais simples e é o que sabe melhor.  E, se calhar um dia perfeito exactamente isso, é ter esses momentos simples, mas dares-te conta deles, não deixá-los passar despercebidos.  E, às vezes, não temos noção, porque aquilo que nos faz feliz está tão perto, e precisamos de distância para avaliar as coisas, ou precisamos perdê-las para valorizá-las. Quando as coisas que nos fazem felizes estão muito perto, damo-las tão por garantidas, que nem as desfrutamos.

 

Obrigada Katty! 🙂

 

Realização e Fotografia – Igor Sterpin TUCANDEIRA Films

https://www.linkedin.com/in/igor-sterpin-4778a474/

 

 

 

 

 

 

 

 

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