“Não quero viver a minha morte a pensar na vida e portanto também não quero viver a minha vida a pensar na morte.”

No vídeo uma conversa, no texto outra. É assim com todas as minhas pessoas. Hoje, com o Miguel Guedes, com quem me encontrei nos Jardins do Palácio de Cristal, rodeados pelas árvores, “Often Trees”. Não resisti à  referência óbvia ao nome do oitavo e  mais recente álbum dos Blind Zero, apenas para saber do fascínio do Miguel por estes seres, que aqui e ali vão aparecendo nos temas das canções que escreve. Fiquei  a saber que o Miguel nunca subiu a nenhuma, apesar de ter crescido  numa casa enorme, em Gaia, com um quintal enorme, agrícola e florícola, com um miradouro para o caminho de ferro. Mas, que nunca subiu a nenhuma árvore. Ainda há tempo. Um dia, quem sabe?

Outras memórias afloraram, até porque, segundo o Miguel, “as recordações de infância vão aparecendo mais  à medida que vamos envelhecendo. Acho que ficam mais presentes, ou pelo menos vão mais directas ao osso. Vamos esquecendo aquelas que não nos importam muito. Fruto da juventude ou da adolescência tardia, vamos  esquecendo toda a infância. Pelo menos, a minha infância desapareceu-me na entrada na idade adulta. E depois começou a reaparecer a partir do momento em que comecei a  dar valor ao tempo que  passámos com pessoas que já não estão cá,  ou em ambientes a que já não podemos voltar.”

 

Quando era pequeno, sonhou ser Veterinário, como qualquer criança sensível, diz ele. Acabou por tirar o curso de Direito  na Universidade de Coimbra. Workaholic e eclético nas escolhas profissionais, desmultiplica-se em carreiras tão distintas que vão da música, nos Blind Zero há quase 25 anos, à Direcção da GDA (Cooperativa de Gestão dos Direitos dos Artistas, Intérpretes Executantes). Também é cronista no JN, escreve sobre os temas mais fracturantes dos dias que vivemos e nunca deixa nada por dizer, muito menos, quando está no “Trio d’Ataque”, como comentador desportivo, pelo seu, e meu também, já agora,  FCP. “Do futebol, lembro-me sobretudo dos rituais que nós tínhamos para ir ver os jogos, ao estádio das Antas, de subir a Av.ª Fernão de Magalhães com o meu avô e o meu pai, com uma bandeira, com uns bordados à volta, de entrar à socapa no estádio das Antas por baixo da alçada do braço de alguém, era pequenino, não tinha bilhete, mas era assim, as crianças entravam pelas mãos das pessoas, sem bilhetes, com cartão de sócio ou sem ele. Não havia torniquetes, e o segurança, na altura, a pessoa que estava na porta, deixava entrar os miúdos. E essas foram as minhas primeiras memórias do FCP, as minhas primeiras experiências no ainda  Estádio das Antas.”

Também falámos da emotiva despedida do antiguinho Estádio das Antas e das memórias olfactivas e musicais da adolescência. De como a opinião dos outros afecta, ou não, a um artista do nível dele, de como é no palco e fora dele e de como esses “dois Miguéis” são um e o mesmo, apesar de serem completamente diferentes. E quanto ao  super-poder que o Miguel gostaria de ter. Pois é! Um super-poder, o Miguel Guedes gostava de ter um, mesmo. A sério. Não estou a brincar. Quem não gostaria?

Fiquem com o Miguel Guedes. Vão adorar. 🙂

 

CA- O que sonhavas vir a ser? Jogador da bola, Rock Star?

MG-Nunca tive muito jeito para ser jogador de futebol. Adorava jogar à bola e ainda gosto,  era um defesa central empedernido e duro. Jogava na minha escola, com os meus amigos e talvez por ser muito bom aluno, eles tinham uma espécie de respeito e nunca tinham coragem de me tirar da equipa por isso. Mas, as minhas imensas limitações técnicas (risos) nunca diminuíram a minha imensa vontade de jogar. O meu ídolo de infância, talvez por ser mais parecido comigo,  era o Freitas, um defesa central do FCP, que fazia uma dupla imbatível, mas muito dura com o Lima Pereira.

 

 

CA- Qual é a tua primeira memória como portista?

MG- Sou portista desde que me lembro, sendo que não me lembre desde quando me lembro.  Tenho ideia de que o meu primeiro jogo tenha sido com equipas monocolores, ou seja, uma camisa preta, podia ser a Académica, o Estoril, o Amora, na altura, podiam ser muitas equipas. Tal como tenho a ideia de que o meu primeiro filme deve ter sido uma coisa infantil entre o “Herbie” e aquela gazela, o “Bambi”. Mas, do futebol, lembro-me sobretudo dos rituais que nós tínhamos para  ir ver os jogos, ao estádio das Antas, de subir a Av.ª Fernão de Magalhães com o meu avô e o meu pai, com uma bandeira, com uns bordados à volta, de entrar à socapa no estádio das Antas por baixo da alçada do braço de alguém, era pequenino, não tinha bilhete, mas era assim, as crianças entravam pelas mãos das pessoas, sem bilhetes, com cartão de sócio ou sem ele. Não havia torniquetes, e o segurança, na altura, a pessoa que estava na porta, deixava entrar os miúdos. E essas foram as minhas primeiras memórias do FCP, as minhas primeiras experiências no ainda  Estádio das Antas, até ao momento em que me despedi do estádio antiguinho. Foi um momento muito emotivo, não só pelo jogo, mas também pela passagem para o novo estádio, o do Dragão, porque foi uma falsa passagem. A equipa foi obrigada a vir jogar ao estádio das antas devido ao estado do terreno, mas  naquele que se pensava que seria o último jogo naquele estádio, eu estive quase numa homilia com o Álvaro Costa, à noite, na penumbra, debaixo duma morrinha que caía e despedimo-nos de uma forma muito sentida.

 

 

CA-A que cheirava essa despedida? Quais são as tuas memórias?

MG- Cheira sempre a relva. Os cheiros são daquelas memórias que marcam profundamente, mas que aparecem muito pouco, mas marcadamente o cheiro a relva.

Por acaso, por falar em memórias olfactivas, há uma muito viva, que me transporta até umas férias com os meus pais. Fomos para S. Pedro de Moel e eu andava insistentemente a ouvir um disco, no meu walkman, da Suzanne Veja, “Solitude standing”, o segundo disco dela. E esse disco convoca-me muitas memórias olfactivas, sobretudo dos cheiros dos pinhais. Também me lembra a pergunta da minha mãe a querer saber porque andava eu a ouvir uma miúda a cantar, ao que eu lhe respondia sempre que não era uma mida, que era uma mulher, olhando cm um esgar lateral. É um disco que  eu ainda ouço muitas vezes.

 

CA- Esse miúdo solitário tinha a música como companhia, mas nunca tinhas pensado ser uma rock’n’roll star, ou tinhas?

Eu não tive grandes sonhos desses. Quis ser veterinário, que era uma cena típica para crianças sensíveis e depois acabei por tirar Direito. Ainda fiz um ou dois testes psico-técnicos, como se usava na altura, mas eu acho que o ensino secundário não estava na altura, nem hoje ainda apto para ajudar os alunos a descobrir vocações profissionais. E eu não tinha ideia nenhuma do que queria ser. Talvez pelo facto de eu gostar se fazer várias coisas e então essa multiplicidade já existia. Tentei entrar em Relações Internacionais, na UMinho, porque achei que era algo que me standardizasse menos e que me permitiria conhecer muitas pessoas e diferentes, falar línguas estrangeiras,  achava eu… a m´dia era bastante alta, não entrei por duas décimas e entrei na minha segunda opção, Direito, em Coimbra. Escolhi Direito, porque, como se dizia na altura, tinha muitas saídas… (risos) E tinha. Mas teres de escolher a tua carreira naquela idade é cedo demais. Aliás, acho que aprendemos muita coisa cedo demais, sem termos a devida maturidade para retermos o que nos estão a ensinar e portanto, aprendemos coisas que não nos formam verdadeiramente. É tudo cedo demais. Eu, por exemplo só descobri o encanto da Matemática no 12.º ano, com Filosofia. Tive a sorte de ter uma professora de Filosofia na Escola Secundária de Valadares, chama-se Amélia, e é extraordinária. E com ela, decobri que podia ver “ As Asas do Desejo” de Wim Wenders, de 30 formas diferentes, porque me apareceu Aristóteles, apareceu-me o (Ludwig) Feuerbach, apareceu-me o Kant, apareceu-me aquela malta toda e de repente, tudo tinha interpretações múltiplas. Uau! E foi aí que descobri a Matemática. Já não ia a tempo, que já não tinha a disciplina, nem ia ter, graças a Deus (risos), mas descobri que poderia ter gostado.

 

 

 

CA- Worcaholic do mais eclético que há, se tivesses de escolher só um caminho profissional, qual seria?

MG- Porventura, algo que ainda não tivesse feito. Porque eu acho que estamos sempre à procura de algo diferente que nos preencha. Há sempre uma rotina que se instala em tudo e queremos variar. Mas, se tivesse mesmo de escolher, gostava de ser músico a tempo inteiro. E quando digo a tempo inteiro, não é o tempo profissional que gastaria com esse trabalho, porque eu ouço música e penso em música 24h/24h. Tem mais a ver com o eu ter mais alter-egos na música, porque a música que eu faço não é tudo o que eu quero fazer na música. Os Blind vão fazer 25 anos. E eu escrevo mais de 90% das letras. São as mesmas 4 pessoas que desde 1994 que se mantêm juntas a fazer um determinado tipo de música. Isso, naturalmente convoca um determinado tipo de esqueleto, que depois não me permite fazer tudo naquela dimensão.  Seria um absurdo, quase uma traição estética ao caminho que estás a  fazer. Teria de ser outra coisa e são essas outras coisas que eu tenho vontade de fazer. Se faço isso na minha vida, porque não teria vontade de o fazer na música.

 

CA- Acreditas no acaso?

MG –Eu acredito fundamentalmente no acaso. Eu nunca programei nada de especial na minha vida, nunca tive grandes metas, nunca sonhei em cima de um monte. Acho que o mundo interior que nos habita é demasiadamente forte  para acharmos que podemos sonhar o mundo exterior. Nunca fiz grandes planos. Acho que tenho uma dimensão real do presente, isso sim. E talvez isso me permita estar bem comigo no presente, sem ter grandes arrependimentos das coisas que fiz, o que me traz uma grande satisfação. Não há nada de que me arrependa profundamente, e vou acreditando no acaso. Com isto, não quer dizer que não haja consistência, que não haja muito trabalho, planificação, responsabilidade e metas. Mas, eu nunca procurei atingir uma meta que não visse, que não achasse exequível. Sempre foi assim.

 

 

CA- Não consegues passar sem…?

MG-Não consigo passar muito tempo sem o amor dos meus. Não consigo passar sem me pôr à prova. Acho que às vezes precisamos de alguns sopapos, para crescer. Acho que por vezes, temos uma vida demasiado fácil e eu não consigo passar sem me estimular, com coisas diferentes, sem me contestar a mim próprio. Há uma permanente insatisfação e uma certa contemplação que eu pretendo que seja mais aguda, mais crítica e mais forte. Daqui para a frente, devo, devemos, ser mais contemplativos em relação a tudo o que se nos oferece, sobretudo  em relação àquilo que não sabemos como foi criado. Há muitos estímulos simples que não valorizamos por nos parecerem banais, e na verdade são essenciais. Com isto não quero dizer que estarei próximo de um retiro hippie (risos), longe disso, mas confesso que não gostaria de acabar os meus dias em Nova Iorque, mas em África!

 

 

CA- Até que ponto as opinião dos outros te afecta?

MG – Artistas e pessoas que acabam por ter uma dimensão pública do que fazem têm sempre de viver com isso e têm de aprender a relativizar muito, sobretudo numa era de opinião particular partilhada, de redes sociais, em que toda a gente tem uma opinião. E eu acho isso lindamente, mas o direito à opinião não é o direito à agressão. Eu tenho a sorte de, na esmagadora maioria dos casos, tenho opiniões positivas, mesmo de pessoas de outros quadrantes políticos, clubísticos e musicais. E são três meios muito sensíveis para a opinião pública. E eu sempre fui sensível à opinião dos outros. Cresci a ler crítica, de cinema, de música. Eram os meus guias. Eu gostava de ler e de escrever sobre, dar a minha opinião. E quando, no início da minha carreira de artista, fui confrontado com as opiniões das pessoas que me amavam ou que me odiavam, porque era assim, sem meios termos, eu acabei por criar uma espécie de concha protectora em relação às coisas que não faziam sentido, tanto as coisas demasiado boas, seja as menos boas. Hoje em dia, relativizo muito a opinião dos outros, e também as minhas.

 

 

 

 

 

 

CA- Quem és tu agora?

MG- Eu não nego a carga genética. Não posso fazê-lo e quanto mais o tempo passa, mais importância lhe dou. Faz mesmo todo o sentido. Nós não somos mesmo uma tábua rasa, como algumas correntes filosóficas defendem. Não acho nada disso. Nós nascemos com um património e somos  muito fruto de um primeiro contexto. E depois há a forma como absorves a cultura, a que te dão e a que tu procuras. As sensibilidades são diferentes de pessoa para pessoa. Há coisas maravilhosas que eu detesto, mas é assim que as sinto. Por outro lado, há coisas rarefeitas e que a mim, me tocam, e que são aquelas pequenas coisas que eu transporto, uma espécie de “Small blue thing”, da Suzanne Veja (do primeiro disco). E é por aqui que  encontro o quem sou eu agora.  Procuro ainda imaginar-me fora daqui. Tirar férias de mim mesmo. Sou um inquieto tranquilo, até demasiado tranquilo para o meu gosto, apesar de fazer muitas coisas diferentes. Acho que gostava de ser mais na vida, como sou em palco, mais livre, mais visceral.  Quem sou eu agora? Sou feliz! E isso é uma coisa boa de dizer.

 

 

 

CA- E se pudesses ter um super-poder, gostavas? Qual seria? 

MG– Gostava que não fosse injectável, que tivesse nascido dos meus genes e aflorasse à minha pele, era o dom da ubiquidade. Era maravilhoso poder estar em vários sítios diferentes ao mesmo tempo, mas não gostava que as minhas diferentes personalidades se conectassem. Eu era dois, mas dois, mas cindível, não conectava com o meu outro eu,  e só contactaríamos depois, na morte, morreríamos ao mesmo tempo. (risos)

Muito obrigada Miguel por seres uma das minhas pessoas! 🙂

 

 

Realização e Fotografia – Igor Sterpin TUCANDEIRA Films

https://www.linkedin.com/in/igor-sterpin-4778a474/

 

 

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