“Os erros que cometo normalmente são erros novos, não repito os que já cometi.”

No vídeo, uma entrevista, no texto outra. É assim com todas as minhas pessoas. Sinto que temos de quebrar o ciclo  em que andamos todos hoje,  desconectados, a correr, e às vezes, sem chegar a lado nenhum. Foi esta a maneira que encontrei de partilhar convosco, pessoas que acho incríveis. Conheci o Nuno Santos, quando trabalhava na RTP, claro. Um líder, nato! Não porque mandasse, mas porque nos inspirava a todos a sonhar os sonhos que ele sonhava.  E, juntos, ele de “mangas arregaçadas” connosco, concretizávamos-los. Foi uma época especial que a RTP viveu. Tive a sorte de fazer parte dela e de conhecer pessoas incríveis como o Nuno. Mas há mais pessoas. E hei-de partilhá-las convosco, claro!

 

Li, uma vez, na biografia do Bono Vox, que era importante manter sempre a perspectiva. Marcou-me essa frase, foi há uns 15 anos que a li. Não a entendi na sua plena dimensão. Desde então, a vida tem-me mostrado de maneiras e em circunstâncias bem diferentes, a verdadeira importância desta atitude na vida. Senti-a, em diversas vezes, nesta conversa com o Nuno. Isso ou aquele tema tão célebre dos  Monty Pithon, “always look on the bright side of life…” Visionário e  optimista, é um pragmático romântico o Nuno Santos. Não sei se ele concordará, ou se sequer faz algum sentido, mas esta é a minha opinião. Vale o que vale e toca a assobiar gente boa: “always look on the bright side of life…” ou  a ler a entrevista que o Nuno me deu. 🙂 

CA- Nuno, a tua irmã é mais velha do que tu?

NS- Sim, 8 anos.

 CA- Brincavam juntos?

NS-Não, por uma razão mais ou menos fácil de explicar, não fere em nada a nossa relação de irmãos, mas nós somos de uma certa maneira, dois filhos únicos. Isso tem a ver com a diferença de idades. Quando eu nasci, a minha irmã já tinha 8 anos. Quando eu tinha 8 anos, ela tinha 16. Já era adolescente. Nós encontrámo-nos na idade adulta. E encontrámo-nos bem, porque hoje somos muito próximos. A partir da idade adulta, tornámo-nos muito próximos. E eu sei, ela contou–me já em diversas ocasiões, que o meu nacimento foi para ela um momento de grande emoção e de grande felicidade. Também há uma explicação para isso. Os meus pais tinham perdido um casal de gémeos, um ano e qualquer coisa antes de eu ter nascido e isso foi um momento doloroso para a família. A minha irmã teve provavelmente menos percepção disso, era uma menina com 6 anos quando isso aconteceu, mas ainda assim, sentiu. E, portanto o meu nascimento foi muito ansiado, muito aguardado, e  um momento também muito feliz para ela.

 

 

CA- Apesar da diferença de idades, que recordações de infância tens com a tua irmã Cristina?

NS-Eu já me lembro sempre dela crescida, assim uma rapariga, porque quando eu comecei a ter noção das coisas, ela já era grande.

 

CA- Ter uma irmã. Sensação?

NS-Eu sempre gostei e não consegui também fazer isso com o meu filho Pedro, pelo menos até agora, se calhar já não irei a tempo…mas, eu sempre gostei da ideia de ter uma família grande. Gosto. Conheço algumas. Casas barulhentas, mesas cheias, a noção dos irmãos que se amparam uns aos outros e os pais “eles lá se organizam”. E nós também não fomos uma família grande.

CA – Concretizas essa vontade nos teus sobrinhos?

NS-Tenho duas sobrinhas, ou melhor dizendo, tenho três, porque já tenho uma sobrinha neta! E há um facto muito curioso, entre meu nascimento e o do meu filho, e há 40 anos a separar um do outro, só  nasceram mulheres. E a minha família é uma família de mulheres, portanto, eu cresci, com a minha avó, a minha, mãe e a minha irmã, claro o meu pai também, mas com a prevalência de mulheres. Anos mais tarde,  nasceu a minha sobrinha mais velha, que já tem hoje 38 ou 39 anos, depois tenho uma outra sobrinha que já tem 22 anos e a a minha sobrinha-neta, filha da minha sobrinha mais velha, já tem 13 anos, é mais velha do que o meu filho! (o Pedro tem 9 anos). Portanto, eu sempre vivi rodeado de mulheres.

CA- Terás a distância necessária para saber se essas vivências familiares, rodeado de mulheres, te terão trazido uma sensibilidade feminina extra?

NS- Não sei se consigo responder a isso. Consigo com certeza dizer que há uma forma diferente de olhar o mundo entre as mulheres e os homens, mas também, que mesmo que nesta linha que é possível definir, é uma linha ténue. E eu conheço muitos homens com aquilo que nós temos tendência para considerar uma sensibilidade iminentemente mais feminina e também, muitas mulheres com um tipo de atitude que,  por convenção social, se atribui aos homens. E, portanto, eu acho que as convenções sociais aí pesam alguma coisa e quando digo isto, digo, com uma conotação negativa.

 

CA- Que recordações tens do teu pai?

NS– Eu sou um filho tardio. Sendo que hoje, nos tempos em que vivemos, os filhos tardios são algo muito frequente, mas quando eu nasci, o meu pai tinha 43 anos e a minha mãe, 37. Isso era uma coisa muito invulgar para a altura. O meu pai era uma pessoa com uma presença de espírito muito vincada e tinha uma graça natural, também era um homem  muito bonito. Morreu novo e era até uma pessoa cheia de saúde. Foi uma morte inesperada, foi um grande choque para todos. Mas, vista a esta distância foi a melhor morte que se pode ter  nessa situação horrível da vida que é a morte. Ele não aparentava a idade que tinha e quando eu era pequeno e nós íamos a passear-lembro-me do meu pai me contar, sempre com alguma graça- que as pessoas se metiam um pouco com ele: “que bonito que é o seu netinho”… e coisas assim. Acho que ele dizia isso mais pela graça, que eu  nunca senti isso, apesar de ele ser um pai tardio, eu nunca senti isso. Na nossa relação até era um pai mais presente do que os pais da nossa geração. Guardo muito boas memórias do meu pai. Visitei com ele todas os museus de Lisboa e andei  em todos aqueles eléctricos da cidade. Eu fiz uma série de coisas de que me lembro ainda hoje com o meu pai. Comecei a ler porque ele me incentivou a isso e também  por imitação,  de o ver a ele. E todas essas memórias estão todas muito presentes ainda hoje.

 

CA- Replicas com o teu filho Pedro, o que o teu pai te fazia?

NS – De uma forma muito natural, acho que sim. Muito do que o meu pai me fazia, ficou e se calhar eu acho que faço isso com o meu filho Pedro, porque é o que eu acho que está certo, é assim que acho que se deve fazer.

 

 

CA- Partilhas muito com o teu filho as tuas histórias de quando eras pequenino?

NS- Falamos muito sobre a minha infância sim. Falamos bastante, no geral, mas da minha infância também. Ele não conheceu o meu pai, que quando ele nasceu, o meu pai já tinha morrido havia muito tempo e, no entanto o Pedro fala muitas vezes dele. Isso é  a consequência das muitas vezes que já lhe falei do avô. Acho que em muitas circunstâncias sem sequer dar por isso. contando histórias, ou indo buscar exemplos ou dizendo: “ sabes que uma vez o pai esteve aqui com o avô…” faço isso com alguma fluidez.

 

 

 

CA- O que é a saudade para ti Nuno? É diferente de há uns 5 ou 6 anos atrás, antes de teres saído do país?

NS- Eu estive 5 anos fora de Portugal. Acho que a nossa relação com aqueles que nos são próximos, com aqueles de quem gostamos, com o país até, muda muito numa circunstâncias dessas. E eu sou até uma pessoa muito pragmática. O que tem de ser, tem de ser, é para ser feito, faz-se, e procuro tirar sempre de uma situação de dificuldade, aquilo que são as lições e as oportunidades que decorrem daí. Mas, eu acho que nestes 5 anos fora do país, essa palavra ganhou outra dimensão, outro sentido para mim e talvez hoje valorize muito mais algumas situações que no passado não valorizava tanto…

 

CA – A presença?

NS- Sim. A presença. A importância do tempo, a importância das pequenas coisas. Não me custa nada dizer isso…

 

 

CA- Lembras-te do momento em que te despediste do teu filho Pedro antes de saíres do país?

NS- A saída foi preparada durante meses. Essa decisão foi tomada, fui lá (a África do Sul), percebi o que me ia acontecer, como ia viver, tive tempo, não foi uma coisa que me tivesse acontecido de um dia para o outro. Deu-nos a todos tempo para nos prepararmos, mas depois há “o” momento. E o momento foi doloroso sim. Claro! Mas, custava-me mais, curiosamente, quando vinha a Lisboa e depois quando tinha de voltar a ir embora. Havia momentos muito dolorosos, muito, muito dolorosos, mas fi-lo sempre. Tinha de o fazer!

 

CA- Nesses momentos, a vida não fez sentido.

NS- É preciso procurar sempre um sentido para a vida. Tem de ser!

 

 

CA- És um fã de Fernando Pessoa. que autores viajaram contigo nestes 5 anos fora do país? Apesar do pouco tempo que te sobrava para ler, imagino…

NS- Não… sobrava-me muito tempo, porque os nos meus 3 anos de África do Sul e Dubai, em qualquer desses 3 anos, eu fiz mais de 100 viagens de avião e a maior parte delas inter-continentais. E, embora eu durma muito nos aviões e com grande facilidade, o que é uma vantagem, também, há alturas em que não dá. E, portanto, lia. Gosto de ler biografias. Mantive-me sempre mais ou menos actualizado com o que ia saindo. Para mim, foi um bom exercício ler em Inglês, como em Espanhol, no último ano fora, já em Madrid. Mas, (Fernando) Pessoa esteve quase sempre comigo. É um autor que eu revisito muito. Há dois poetas que eu releio muito: Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner. E é engraçado  que nós estamos aqui, junto ao mar e que das coisas que eu mais gosto da Sophia, têm a ver com o mar.

 

CA- Diz Fernando Pessoa: “ o povo português é essencialmente cosmopolita e nunca um português foi verdadeiramente português, foi sempre tudo.” Sentiste isto nos teus anos fora?

NS-  Sim. Senti. Não vou dizer que isso tenha sido uma novidade para mim,         ou inesperado,  o que senti é  que uma coisa é tu achares que isso pode ser  assim, outra coisa é tu sentires, perceberes e teres de facto contacto com essa realidade.    E é que os portugueses têm mesmo uma grande capacidade de adaptação. O ser humano, por natureza, tem uma grande capacidade de adaptação e os portugueses, mesmo não deixando de viver um pouco em comunidade. A nossa comunidade em África do Sul já tem muitos portugueses, de segunda e até de terceira geração, que de portugueses já só têm quase só o nome e o passaporte e já falam muito pouco português, mas também há ainda muitas pessoas mais velhas, que foram daqui há muitos anos e nem vêm muito a Portugal, mas mantêm uma ligação muito forte a Portugal e às coisas de Portugal e no entanto, naquilo que têm de fazer para a sua actividade, para o seu trabalho, fazem-no muito bem. Acho que nem todos os povos são assim. Não tenho um conhecimento sociológico suficiente que me permita dizer que isso é exclusivamente português, mas que é português, é!

 

 

 

CA- Valeu a pena ir?

NS- Ah, valeu sim. Sim! Valeu a pena ir. Eu fui em circunstâncias muito difíceis. Uma coisa é tu escolheres ir, outra coisa é teres de ir, seres confrontado com a inevitabilidade de ir e eu fui assim. O que senti naquele momento? Que eu não tinha espaço para trabalhar em Portugal naquele momento. E, portanto, quando não tens espaço para trabalhar no teu país e tens de trabalhar, vais procurar trabalho fora do teu país e se te reconhecem valor fora do teu país, melhor. Se te querem, e se te pagam e se te consideram, melhor!

 

CA- Não sentiste nunca revolta?

NS- Não. Não tenhamos medo das palavras e eu tenho um sentido muito arreigado da justiça e eu senti-me tremendamente injustiçado naquele momento, naquelas circunstâncias. Agora, uma coisa são esses sentimentos, outra coisa são os acertos de contas e isso não. Isso já não é para mim.

 

 

 

CA-África do Sul, alguma vez te tinha passado pela cabeça?

NS- Se me dissessem que eu iria ter de sair de Portugal e me perguntassem para onde iria trabalhar, eu dificilmente diria, que era para África do Sul, porque não é o óbvio. Mas, para mim, foi muito interessante e importante. Para além de ser um país lindíssimo, com um impacto avassalador nos sentidos, é um país em que o contraste social, em que o que aconteceu nos últimos 30 anos (o fim do Apartheid foi apenas em 1994) foi tão forte, marcante e é ainda tão presente que é um país onde só se tu fores absolutamente insensível é que não percebes que tens alguma coisa a aprender. E eu acho que aprendi algo sobre a natureza humana também naqueles anos. E eu acho que por junto, se estive, mais do que um mês seguido, porque eu viajava muito, uma parte da nossa operação estava no Dubai e eu tinha de  ir a Angola e a Moçambique, praticamente todos os meses, tinha de ir ao Brasil e tinha de vir cá, portanto eu acho que se, por junto, eu estive mais do que um mês ou um mês e meio seguido, na minha casa de Joanesburgo, terá sido muito, mas na verdade a minha base era lá. Era lá que eu tinha a minha casa, o meu carro, era lá que eu era cidadão, que eu tinha o meu domicílio fiscal e eu aproveitei bem o país. Tanto naquela faceta que África do Sul tem de mais apelativo, dos safaris, da natureza, o mais conhecido, mas também dos lados mais desconhecidos. Procurei  os sítios todos onde o Mandela esteve, de Robin Island, ao Soweto, dos mais conhecidos aos mais recônditos. Fui testemunha lá da morte de Nelson Mandela. Foi um momento de que já estavam à espera, mas foi, ainda assim, um momento muito impactante no país. Bem… África do Sul é um país onde nós aprendemos sempre, é um país onde temos sempre muito a aprender. Se nós não aprendermos nada com o que aconteceu num sítio onde o mundo esteve dividido entre homens brancos para um lado e homens negros para o outro, indianos ainda para outro, durante décadas, feito a ferro e fogo, de uma forma hostil, violenta e isso não foi há 200 ou 400 anos, isso foi agora, o Mandela saiu da prisão em 1991. E, por isso, os problemas raciais estão muito longe de estarem resolvidos lá, por isso ainda há muito para absorver, e  portanto a aprendizagem ali é incrível.

 

CA- Foi lá que te apaixonaste por Jacarandás ou já levavas isso daqui?

NS-Não, isso já levava daqui. Em Lisboa, há umas avenidas, há umas zonas da cidade com muitos Jacarandás, e onde florescem nesta altura do ano e é muito bonito, mas Jacarandás, como em África… em Joanesburgo, ao pé de minha casa havia uns exemplares incríveis, em Pretória, outros e até em cidades mais perdidas, no Zimbabwe e por aí fora, no Quénia, havia-os lindos de morrer. E florescem ao contrário no calendário, e por isso normalmente eu aproveitava os Jacarandás duas vezes no ano, porque conseguia vir sempre aqui um pouco nesta altura e via-os em Lisboa. E depois, em Outubro, Novembro, por aí… aproveitava-os em África, na Primavera do Hemisfério Sul.

 

CA- Eram cheiros que te traziam até casa?

NS-Sim… quer dizer, quando saía de casa em Bryanston, que era o bairro em que vivia em Joanesburgo, e  apanhava o caminho para ir trabalhar, de carro, que lá não é uma ideia muito sensata andar a pé, eu apanhava os Jacarandás, e sim, lembrava-me de Lisboa, claro que sim.

 

CA – Viajavas muito até nas tuas memórias, olfactivas, visuais, o que te trazia até cá?

NS- Sim. Bastante. É importante dizer-se, até porque é verdade, eu acho que a vida já foi mais difícil do que é hoje, em que sentido? As tecnologias encurtam muito as distâncias. Eu, se não falei com o meu filho todos os dias daqueles 5 anos, falei 90% dos dias. Vi-o e ele viu-me. A deitar-se, a levantar-se, a lavar os dentes, a tomar o pequeno-almoço, a jantar, a entrar na escola, a sair da escola…isso é o mesmo que estar ao pé dele? Não. Claro que não é o mesmo que estar ao pé dele, mas é  muito diferente do tempo do navegadores e muito diferente de ser emigrante dos anos 30, 40 ou 50, em que para se fazer uma simples chamada telefónica, as dificuldades eram imensas, o preço era absurdo, Internet então nem se fala. Nesses tempos, a vida era muito mais dura. Nós vivemos de acordo com as nossas circunstâncias. Tem de ser.

 

CA- És um  homem muito diferente hoje?

NS – Não. Sou, no essencial, a mesma pessoa que era quando cheguei à idade adulta. Claro que aprendi muito. Os erros que cometo normalmente são erros novos, não repito os que já cometi, mas a minha matriz, a minha forma de olhar o mundo, a minha forma de me relacionar com as pessoas, aquilo em que eu acredito e a minha forma de estar na vida, isso eu já era assim aos 16 ou 17 anos. E não vou deixar de ser assim. Também pago o meu preço, a nível pessoal e profissional, mas não vou deixar de ser assim.

 

 

CA- Sem fazer futurologias, como vês o futuro da comunicação?

NS-  Eu acho que estamos numa era muito estimulante para trabalhar nesta indústria. É também um tempo incerto e, por isso em que se correm muitos riscos, mas há vários canais de saída. E isso é também um teste para os profissionais. A questão é saber se vamos perceber quais são os canais certos, sair por esses canais e fazer com que o que fazemos nos faça felizes e que seja rentável também. Se vivemos desta actividade, tem de ser rentável. Agora, eu estaria capaz  de dizer que nenhuma indústria se alterou tanto, ou até de forma tão radical, como a indústria dos media / tecnologia, porque de uma certa maneira, elas convergiram. Eu pertenço a uma geração que foi testemunha e que viveu essa mudança, porque eu comecei a trabalhar num tempo em que não havia computadores numa redacção. Não havia, apareceram logo a seguir, mas quando eu comecei, não existiam computadores, telemóveis muito menos. Trabalhávamos com faxes, telex’s, máquinas de escrever já em fim de vida, cassetes nas redacções de televisão. O Mundial de Futebol de 19 e tal… montado em U-matic, que hoje em dia é um sistema pré-histórico e anacrónico de edição de imagem. Já nem falo em Betacam e outras coisas que tal… eu sou da ápoca do analógico, muito antes  do digital. A velocidade com que tudo isso se alterou e a maneira como isso transfigurou a nossa indústria, exige de nós o famoso multi-tasking. A tal capacidade de cada um de nós, responder a vários desafios, a ter diferentes ferramentas ou capacidades ao mesmo tempo e fazer tudo, de preferência, bem ou muito bem.

 

 

CA- Que sonhos comandam a tua vida?

NS- Todos os sonhos do mundo (risos)…Agora que voltei, quero desfrutar deste regresso. Saí de Madrid e voltei a Portugal no final de Março, mas a certeza de que ficava cá, tive-a agora, porque eu mantive sempre em aberto a possibilidade de continuar fora. Por isso, só a partir de agora, é que me vou reorganizar por cá. Tenho sempre planos para o futuro, mas também percebi que a vida, em muitos momentos nos desmonta esses planos. Estou sempre preparado para accionar um plano B, portanto, acho que é um pouco como aquela canção, escrita pelo Vinicius (de Moraes): “A vida é a arte do encontro, mas tem muito desencontro nessa vida.”

 

 

CA- És o pai que gostarias de ser? Fazes essa análise?

NS-Faço essa análise, penso nisso, acho que é uma espécie de auto-análise diária e eu conheço exemplos de excelentes pais,  em que os filhos não saíram propriamente uns tipos fantásticos e conheço pessoas extraordinárias, filhos de pais negligentes. Portanto, também acho que não há uma fórmula. O que eu acho é que o nosso dever enquanto pais é fazermos o nosso melhore é isso que eu procuro fazer como pai.E também acho que há maiores probabilidades de os nossos filhos serem melhores pessoas se nós formos bons pais, do que o contrário, mas não é matemático, não é 1+1=2.

 

CA- Qual é o teu maior desejo para o teu Pedro?

NS- Que ele seja feliz. Que ele escolha a vida dele e já lhe vou dizendo isso. Tento retirar-lhe algum do peso a que, hoje em dia, os miúdos estão sujeitos. Acho que ele tem de ter disciplina, rigor, método e uma caminho, uma estrada definida, isto, a vida, não é assim de qualquer maneira, mas acho que uma criança é uma criança, tem de correr e libertar-se, brincar, gritar e sujar-se.

 

CA- Jogas à bola com o teu filho?

NS-Ele joga mais do que eu (risos), que ele é mais leve. Mexe-se melhor, mas sim, jogamos à bola os dois.

 

CA- Como é um dia perfeito para ti?

NS- Um dia perfeito para mim é um dia sem horários, é um dia perto do mar, mas sem muito calor, em que se possa ir à água, mas sem excesso de sol e sem preocupações. É curioso que eu ao longo dos últimos anos dei muita importância à ideia de não trabalhar. Eu gosto muito de trabalhar e gosto muito do que faço, mas alguns dos meus melhores momentos ao longo dos últimos anos, foram nas fases em que não trabalhei e em que não precisei de trabalhar. Por exemplo, eu fiz agora muito recentemente uma viagem de praticamente um mês de carro pelos Estados Unidos e se eu tivesse de trabalhar, isso teria sido impossível. Se pudesse agora estar uma temporada sem trabalhar, estaria. Sei que ia arranjar sempre coisas para fazer, incluindo, nada.

 

CA- Isso é uma coisa com que as pessoas têm muita dificuldade hoje em dia, não fazer nada.

NS-Concordo. Mas eu sei não fazer nada.

Obrigada Nuno!

 

NUNO SANTOS CV (muitíssimo) resumido:

Jornalista, estreou-se na rádio aos 17 anos, tendo sido repórter e ‘pivot’ de televisão durante a década de 90 e exercido depois funções ligadas à programação e à gestão de conteúdos.

Trabalhou na SIC, na SIC Notícias e na RTP, de onde saiu para desempenhar um cargo de gestão de conteúdos no grupo sul-africano de comunicação Multichoice.

Após ter estado nos últimos dois anos a dirigir a unidade de negócios da produtora e distribuidora de conteúdos ‘The Story Lab’, com sede em Londres e ligada à multinacional Dentsu Aegis Network.

 

Realização e Fotografia – Igor Sterpin TUCANDEIRA Films

https://www.linkedin.com/in/igor-sterpin-4778a474/

 

 

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