“Procurar a melhor versão de cada um de nós. Esse é um caminho de amor incondicional, universal”

No vídeo, uma entrevista, no texto outra. É assim com todas as minhas pessoas. Tive a sorte de o conhecer pessoalmente. depois de ter lido o “Ser Espiritual – da Evidência à Ciência”.  Foi numa tertúlia organizada pela minha querida Alda Almeida, no Hotel da Música. Era eu que estava a  moderar esse ciclo de tertúlias e o Dr. Luís Portela foi um dos convidados. Alguns anos depois, volto a ter o privilégio de estarmos à conversa, desta feita na BIAL.  Hoje, partilho-as convosco convosco,  uma existencial, a outra biográfica.  Obrigada Dr. Luís Portela por ser uma d’as minhas pessoas. Obrigada a vocês por estarem desse lado, connosco.

Para o Dr. Luís Portela, um verdadeiro mestre não admite que lhe chamem mestre, pois ele é apenas mais um entre os outros. Pronto! Eu não vou chamar-lhe nunca, mas para mim é. Um mestre. Concordo, é como qualquer um de nós, uma partícula ínfima  deste todo infinito a que decidimos chamar Universo. No entanto, o Dr. Luís Portela é uma partícula especial, pertencente a uma pequena minoria que nos vai ensinando e guiando. Que vai iluminando o nosso caminho com a sua própria luz! Ele,  que aos 12 anos pediu à mãe para o dispensar de ir à missa, porque queria ia ver os jogos de Voleibol e Andebol do FCP, no campo da Constituição, que sonhou ser monge budista e aos 27 anos teve, quase contra a sua vontade, de  assumir a Presidência de uma das mais preponderantes farmacêuticas da Península Ibérica. Pelo caminho, deixou alguns sonhos para trás, como o da  prática  da Medicina, mas não deixou de seguir os seus sonhos de sempre: ajudar os outros e investigar e promover o esclarecimento espiritual. 

CA- Jogava à bola quando era pequenino?

LP- Jogava. Nunca fui muito talentoso (risos), mas gostava de jogar.

 

CA- Tinha assim um melhor amigo com quem brincasse mais?

LP-Não muito. Sou filho único, por parte da mãe e tenho irmãos por parte do pai. Mas, lembro-me na minha infância muitas vezes, de jogar à bola comigo próprio. O meu pai tinha-me dado umas joelheiras, eu tinha um boné e  ia para o quintal de casa e atirava a bola à parede e mergulhava para  defender as bolas que eu próprio atirava (risos). O meu pai também me comprou um stick de hóquei e lembro-me de andar a jogar sozinho contra mim próprio.

 

CA- Que outras recordações tem da sua infância?

LP-As memórias que  tenho são as de viver com uma família de gente séria, honesta, que procurava transmitir-me os valores da vida. Também me lembro que tinha muito gosto em ser o melhor aluno, muito gosto. Era bem comportado, gostava muito de aprender e tenho essas memórias da escola muito presentes. Naquela altura usava-se pouco o Jardim-Escola, ou a Pré-Primária, e eu não passei por nenhum desses, mas a verdade é que quando entrei para a primeira classe já juntava as letras, já sabia contar. Assim, terminei a Escola Primária, sempre na frente. Eu tinha muito gosto em ser o melhor aluno. Mas isso, foi acontecendo de forma natural, porque as professoras também exigiam de mim, também porque me consideravam o melhor. Houve uma vez, na 3.ª classe, chamava-se assim, naquela altura, o terceiro ano de hoje, fracturei o braço direito e tive de andar com o braço engessado uns tempos. E a Professora pôs-me a ensinar os meninos mais pequenos. (risos). Era o eu fazia. Foi uma grande responsabilidade, mas foi uma experiência muito boa, recordo-me disso. A minha escola era muito exigente. Já não existe,  era o Colégio Vieira de Castro, e não tínhamos intervalos. Estávamos toda a manhã a trabalhar e toda a tarde também. Quando queríamos ir à casa-de-banho levantávamos o dedo e pedíamos licença, mas não tínhamos intervalos, estávamos sempre a trabalhar. Amigos meus, hoje em dia, quando sabem destas coisas, acham que eu e os meus colegas devíamos ter sofrido imenso com esse ritmo de trabalho tão intenso, mas eu não sofri nada. Eu só pensei sobre o tema, quando estava a terminar a 4.ª classe e, em conversa com uns vizinhos meus, que andavam numa Escola Oficial, percebi que eles tinham intervalos e iam todos jogar à bola para o recreio. Até aí, eu não sabia que nas outras escolas era assim, portanto não tinha sofrimento nenhum. E, de facto, eu atribuo a esse nível de exigência da escola, os hábitos de trabalho que fui adquirindo ao longo da vida. Eu, ainda hoje, sou capaz de estar 3, 4, 5 horas seguidas, sentado a uma mesa a trabalhar, sozinho ou em equipa, sem necessidade de interromper, ou de fazer intervalos. Também vem dos tais valores que adquiri pela mão da minha mãe e do meu pai e pela mão dos meus avós, sobretudo dos maternos, que foi com quem mais vivi quando era pequeno.

 

CA- Era uma mãe confidente, a sua?

LP-Não muito. Foi uma mãe austera, exigente, que procurou preparar-me para a vida. Não conversava muito comigo, mas procurou transmitir-me  duas coisas, principalmente: uma era que eu tentasse sempre encontrar as soluções para a vida e a outra era que  eu confiasse em mim. Uma coisa curiosa, é que o meu pai também tinha essa preocupação, que eu soubesse resolver, encontrar as soluções para a minha vida.

 

CA- De que forma faziam isso os seus pais?

LP– Transmitindo-me confiança em diversas situações. Há pais que fazem tudo aos filhos e os meus diziam-me como se fazia e depois motivavam-me a fazer. Cada um ao seu jeito, quer a minha mãe, quer o meu pai, tiveram esse objectivo de quererem  que eu, por mim próprio, encontrasse as soluções.

 

CA- Aos 12 anos pediu à sua mãe para o dispensar de ir à missa. Porquê?

LP- Porque queria ir ver os jogos de Voleibol e Andebol do Futebol Clube do Porto no campo da Constituição, que eram ao Domingo de manhã naquela altura. Queria ir com o grupo de amigos da missa, com quem tinha feito a Catequese. Eles entravam pela porta principal e escapuliam-se pela porta lateral para ir ver os jogos e eu queria fazer o mesmo, mas achei prudente pedir autorização à minha mãe. agora, deixe-me lembrar-lhe que nessa altura a missa, cerca de uma hora,  era dada com o padre de costas para a assistência e era dita em Latim. O que é que uma criança de 12 anos estava ali a fazer? (risos)  E, foi nessa altura que me afastei da religião Católica. Libertei-me. E foi muito bom. Eu sou um livre pensador.

 

 

 

CA- Quando percebeu que tinha uma vida interior tão rica, que tinha perguntas dentro de si?

LP- Percebi que gostava dos assuntos existenciais, quando tinha uns 13 ou 14 anos, mas não tinha a noção que os outros da minha idade não davam a mesma atenção que eu a estes assuntos. Só me apercebi disso quando os meus filhos tinham mais ou menos essa idade e eu fui reparando que nem eles nem as outras crianças ligavam a essas coisas e que até seria invulgar esse interesse. (risos) Só aí, já nos meus 30 é que percebi isso. Mas, houve um  episódio, tinha eu uns 12 anos que também me marcou. Uma senhora, uma vizinha, emprestou um livro qualquer, espiritualista, à minha mãe. E a minha mãe demorou o seu tempo a lê-lo e depois, quando devolveu o livro à senhora, agradecendo, a senhora perguntou-lhe:

-“E deu-o  ao seu filho a ler? Mas deu-o ao Luísinho a ler?”

Ao que a minha mãe respondeu:

-“O meu filho é miúdo, não liga a estas coisas…” E a senhora insistiu para que a minha mãe me perguntasse se eu queria. A minha mãe, com pouca convicção lá me perguntou se eu o queria ler e eu quis. Li-o e gostei. Gostei bastante.  A minha mãe ficou admirada (risos). E a partir deste episódio ficou claro para mim e para a minha família que eu gostava destes temas. E digo para a minha família, porque o meu avô materno também tinha um amigo que gostava dos temas espiritualistas. Bem, deixe-me  dizer-lhe que na altura, os temas espiritualistas eram confiscados pela PIDE, que é uma coisa que eu ainda hoje tenho dificuldade em perceber porquê… De maneira que eu lembro-me do meu avô trazer alguns livros que esse seu amigo me emprestava. E eu, com uns 14 ou 15 anos, pedia ao amigo do meu avô, o Senhor Vieira Soares, se me emprestava alguns dos seus livros para eu ler.

 

CA- Quanto mais lia, mais queria ler?

LP-Sim, era assim, mas lia de tudo um pouco, do Yoga, do Espiritismo, da Rosa Cruz, da Teosofia. Eu com uns 15 ou 16 anos, comecei a fazer uma leitura comparada da Bíblia Católica com a Bíblia Protestante, que é uma coisa que eu hoje, não teria pachorra para fazer, mas naquela altura, achava piada. Queria tentar perceber. E, às vezes dou comigo próprio a tentar perceber por que razão fazia isso. E acho que era porque eu lia  e encontrava coisas muito bonitas, de que gostava muito, mas também encontrava coisas de que não gostava e que me faziam confusão. E queria perceber as diferenças entre as duas Bíblias, perceber porque é que havia uma Bíblia Católica e uma Protestante. Gostava de perceber. Por essa altura, 16, 17 anos, até porque comecei a ler muitos títulos do Budismo e comecei a interessar-me pelo Tibete, e acalentar a ideia de poder um dia ir viver para o Tibete, isolar-me do mundo. Também pus a hipótese de ser Frade, mas depois mudei de ideias.

 

 

CA- O que o fez mudar de ideias? Apaixonou-se? (risos)

LP-Também aconteceu, mas não foi o que me impediu de realizar este sonho. A causa  essencial foi quando comecei a fazer meditação, ou relaxamento, como se lhe queira chamar, quando tinha 17 ou 18 anos. E isso aconteceu devido a um episódio muito peculiar na minha vida de estudante. Eu fiz a escola secundária no Alexandre Herculano, quando era só um liceu de rapazes. As raparigas andavam no Rainha Santa. Nós nem para o passeio delas podíamos ir, nem elas para o nosso. Aquilo era completamente separado. Se algum dos rapazes, fosse apanhado no muro do liceu a espreitar para o Rainha Santa, era castigado. (risos) Isto hoje contado aos meus filhos e aos meus netos, acham tudo muito estranho e era. (risos) Quando cheguei à Faculdade (Faculdade de Medicina da  Universidade do Porto), e tinha imensas colegas, raparigas, eu achei muita graça (risos).

Agora veja o que aconteceu, eu na Escola Primária era muito bom aluno, o melhor aluno muitas vezes, no liceu era aluno de Quadro de Honra e chego à Faculdade e passo aqueles primeiros meses a olhas para as minhas colegas, completamente distraído com elas. De repente, estávamos em Março ou Abril e eu ainda não tinha começado verdadeiramente a estudar (risos). No liceu, nós tínhamos pontos, testes e aquilo ia tudo muito certinho, íamos acompanhando o estudo. Na Faculdade, chega-me a primeira época de exames e só aí me concentrei e comecei a estudar. Apercebi-me então, naquela altura havia poucos exames semestrais, mas eu percebi que para ter umas notas razoáveis tinha de estudar imenso e que estava a comportar-me mel. No segundo semestre, mudei o comportamento e comecei a estudar mais. Como eu tinha aquele brio, aquele gosto de ser bom aluno, comecei a não medir bem a coisa. Comecei a dormir 3 ou 4 horas por noite e estudava, estudava, estudava. Deitava-me cedo e levantava-me às 4 ou 5 da manhã, para estudar. Anatomia e outras disciplinas que tínhamos naquela altura eram matérias complicadas… e de repente, num dado dia daquele Verão, descobri que não retinha nada do que estudava. Lia qualquer coisa e duas ou três páginas à frente já tinha esquecido tudo. Percebi que havia qualquer coisa que não estava a passar-se bem comigo. Falei com o meu pai, o meu padrinho era médico e ele aconselhou-me um psiquiatra. Lá fui e tive sorte. Que quando ele me perguntou o que é eu estava a fazer e eu contei-lhe o meu ritmo de estudo e as minhas 3 ou 4 horas de sono,  ele disse-me logo que isso eram muito pouco. E eu até havia, vezes, em que fazia directas… O psiquiatra disse-me que eu não podia fazer mais isso na vida. Tive uma coisa que naquela altura se chamava um Esgotamento. E a receita foi uma coisa muito interessante: primeiro, ensinou-me a relaxar e a meditar e a segunda coisa foi que durante os 6 meses seguintes, eu não podia pegar num livro para estudar. Podia ler outras coisas, estudar é que não. Só podia fazer praia e ir ao cinema e coisas assim (risos). Isso é que foi uma terapia. (risos) Foi uma altura interessante, em que li mais, fui relaxando, meditando, viajando  um pouco mais ao encontro de mim próprio,  fui valorizando a minha presença junto do mundo.Ou seja, eu ponderava ir para o Tibete, porque tinha um enorme prazer de procurar uma via de purificação por mim próprio. E percebendo a riqueza de eu estar em contacto com o mundo, fui descobrindo que se calhar era ainda mais enriquecedor, mais valoroso eu tentar encontrar o caminho da purificação em contacto com o mundo do que isolado. Fui valorizando a minha presença aquilo a que eu chamo este mundo-escola. E se estou neste mundo-escola, é para aprender, não é para me refugiar dele. É tão rico nós estarmos em contacto com o mundo, com as pessoas, passar pelas dificuldades. Às vezes são mesmo as dificuldades que nos trazem mais ensinamento. E foi então que pus de parte essa ideia de ser monge tibetano. Mas, andava eu com estas ideias na cabeça,  e o meu pai morreu de repente. Marcou-me muito. Eu tinha 21 anos e o meu pai tinha 50. Passei a ser um trabalhador-estudante. Estávamos em 1972, eu trabalhava, ia às aulas quando podia, e não me sobrava tempo para mais nada. Ou seja, andava eu com as minhas ideias, muito teórico e a morte do meu pai obrigou-me, entre aspas, a  um realismo muito grande. Tive de começar a trabalhar, auto-sustentar-me, perceber que a minha vida estava muito dependente do que eu fosse capaz de fazer.

 

 

CA- Nunca sentiu revolta nessa altura?

LP- Não. Revolta não senti.

 

CA- Nunca deu por si a perguntar: “porquê a mim?”

LP-Isso tem acontecido algumas vezes, mas quando me faço essa questão, é mais no sentido de procurar saber o que é que eu fiz que me está a proporcionar isto? Parece que eu não seria merecedor, mas  devo ter feito algo para sofrer essas consequências. Acho que, desde criança, como já disse, foi marcante para mim, a educação que a minha mãe, o meu pai e os meus avós me deram, foi a importância da responsabilidade. Quando algo me acontece, eu sei que há sempre ali uma responsabilidade da minha parte. Os 20 anos de prática de Karate também me desenvolveram esse sentido. Sou cinturão negro de Karate, e quando praticava, eu não podia dizer que alguém me tinha dado um soco, eu só podia dizer que consenti que fulano me desse um soco.

 

CA- Mas da morte do seu pai não teve qualquer responsabilidade, isso não o revoltou de forma nenhuma?

LP- Não. É a vida. É assim. Nesse aspecto, eu acho que devemos ser exigentes connosco próprios, mas não perante a vida.

 

 

 

CA- Porque quis ser médico?

LP- Foram duas as  razões pelas quais idealizei ser médico: ajudar os outros e fazer investigação nas áreas de que eu gostava. Começar pela área das Neurociências e avançar para a Parapsicologia. Foi isso que fui fazendo. Fui deixando para trás o monge tibetano, o frade e veio então a vontade de ser médico. Fiz a especialização em Psicofisiologia, onde trabalhei 6 anos ainda e lutei para conseguir uma Bolsa para ir para Cambridge fazer um doutoramento e ganhei a bolsa. Acabei o curso como trabalhador-estudante e comecei a trabalhar no Hospital de S. João e na faculdade ainda a trabalhar também em BIAL.  Sentia que ia rebentar outra vez, se me mantivesse naquele ritmo tão exigente. Lembro-me que houve um dia em que tinha feito URGÊNCIA, saí do hospital à uma da tarde e depois fui trabalhar para BIAL à tarde. Foi um dia de grande actividade na Companhia e cheguei a casa para jantar por volta das onze da noite. Eu tinha os meus 28 ou 29 anos. Já era casado. Eu casei cedo, com vinte e três. Não tinha tempo para namorar, queria resolver a minha vida e como já tinha a minha independência económica, decidi casar. Como eu dizia, nesse dia, ao jantar, a mãe dos meus filhos, a dada altura, tinha ido à cozinha buscar qualquer coisa e quando voltou, eu estava  com o nariz enfiado no arroz, a dormir em cima do prato (risos), bem demonstrativo do meu estado de exaustão, com os meus 28 ou 29 anos. Eu acho que já era presidente da Companhia.

 

 

CA- Foi aí que teve de escolher entre a prática da medicina e BIAL?

LP- Foi. Tive de escolher. Mas, eu tentei por tudo vender os meus 31%, a parte que tinha herdado do meu pai, mas ninguém comprava. Eu não sentia vocação para empresário, não tinha interesse nenhum em trabalhar numa empresa, nem gostava muito de lidar com dinheiro. Mas, a questão que se colocava ali era que eu tinha uma enorme admiração pela obra do meu avô e do meu pai, mas tentei vender a minha posição na empresa. Ninguém comprava, porque entretanto, também tinha vindo o 25 de Abril em 1974 e eu estava a tentar vender em 1978. Naquela altura, Portugal sob o ponto de vista político, social, económico, estava numa situação complicada e ninguém queria comprar a minha posição. Ao meu irmão mais velho, agradava-lhe a ideia de eu ir para Inglaterra, Cambridge, fazer o meu doutoramento, e ele ficar a governar a empresa sozinho. Só que eu pedia-lhe para ele me pagar pra eu ir para Inglaterra. Eu ia fazer um percurso de investigador, não era muito bem remunerado… e meteu-se-me na  cabeça que a empresa poderia soçobrar e eu não queria estar ligado a isso. Portanto, eu queria que ele me pagasse, ainda que fosse pouco e eu ia à minha vida de investigação. Mas, o meu irmão não me queria pagar e achava que não tinha que pagar e nessa altura eu tive novamente de decidir. E, tal como já lhe disse antes, devemos ser exigentes connosco, mas não com a vida, e naquele momento a vida parecia que estava a empurrar-me para ficar na empresa. Pronto! Decidi-me. Paguei ao meu irmão e a todos, fiquei com a maioria. Ainda assim, naquela altura fiz alguns contactos com algumas multinacionais a  tentar vender, mas ninguém queria comprar e fiquei eu com BIAL. E fiquei pela honra que era para mim dar continuidade à obra do meu avô e do meu pai. Eu não tomaria essa atitude por nenhuma outra empresa.

 

 

CA- Portanto, nunca se arrependeu de ter deixado a medicina?

LP-Não. Fui vivendo o que a vida me foi proporcionando e eu aceitei e adaptei-me e procurei viver bem e cumprir e fazer as coisas  bem e fiz. Acho que fiz. Olho para trás e acho que fiz as coisas bem. Tive sempre alguma nostalgia, mas nunca me senti infeliz. Sempre pensei que aquilo de que gostava mais era lidar com o doente, com os alunos, gostei muito de dar aulas, e gostava muito de poder fazer investigação, mas tinha de aceitar. Quando, aos 27 anos, me fui empenhar, fui  à Banca, aos amigos, buscar dinheiro para comprar a maioria da BIAL, eu fiquei empenhado até à ponta dos cabelos. (risos) Hoje dizem-me que tive visão, eu acho que me desenrasquei. Correu bem. Eu acho que não foi visão de negócio. Eu procurava sempre dar sequência à obra do meu avô e do meu pai e fazê-lo o melhor possível. Conhecia a empresa, mas sabia pouco de negócios, por isso rodeei-me de pessoas que sabiam, Rodeei-me de bons, excelentes profissionais que vieram trabalhar para BIAL. Também procurei o aconselhamento de alguns gurus do negócio, americanos, europeus e procurei ir beber às melhores fontes para fazermos um bom caminho. E acho que conseguimos. Mas, dizia eu, quando aos 27 anos decidi dar sequência à obra do meu avô e do meu pai, eu aquele meu objectivo de contribuir para o esclarecimento espiritual da humanidade, de poder fazer investigação, ficou estagnado. Então o que eu  pensei sempre foi, se a empresa correr bem e eu tiver uns tostõezinhos a mais, eu prometo a mim próprio que os vou  investir, ajudando  investigadores na área a fazerem aquilo que eu não vou fazer. Eu a fazer, era só um, se eu conseguir apoiar 10 ou 12 investigadores, vou conseguir multiplicar que eu iria fazer sozinho. Não disse a ninguém, não revelei a ninguém, mas prometi a mim próprio que o iria fazer. E assim fiz. Cinco anos mais tarde, criámos o Prémio BIAL e dez anos mais tarde, as Bolsas de Investigação na área da Psicofisiologia e da Parapsicologia e criámos a Fundação para gerir essas investigações com o Conselho de Reitores das Universidades portuguesas.

 

CA- Hoje em dia, quantos investigadores a Fundação BIAL apoia?

LP- Eu pensei para mim mesmo que se apoiasse 10 ou 12 era fantástico, mas hoje em dia, já são 1351 investigadores no total de 25 países diferentes. (abaixo o link)

https://www.bial.com/pt/fundacao_bial.11/a_fundacao.15/a_fundacao.a36.html

 

CA- Foi seguindo sempre a sua intuição ao longo da vida?

LP-Sim. Sempre segui, mas sempre procurei  colocar-lhe alguns limites. Fiz aquilo que o (Carl) Jung aconselhava, de seguirmos a nossa intuição, mas sempre pondo algumas reservas. E eu só o li mais tarde, mas percebi que esse era o caminho que estava a fazer. É bom percorrermos o nosso caminho de crescimento, é bom sermos exigentes connosco mesmo, no sentido do tal auto-aperfeiçoamento de que falava há pouco, mas também é muito bonito aceitarmos o mundo como ele é. E isso foi uma coisa que a  vida me foi ensinando, a ser cada vez mais tolerante para com o mundo. Eu tenho muito prazer em ser muito exigente comigo e ser tolerante com os outros. Acho que devemos aceitar a vida tal e qual como ela nos vai acontecendo.

 

 

CA- A vida é o que tem de ser ou aquilo que queremos que seja?

LP- Bem, eu acho que o destino é um fenómeno balizado. Nós, quando vimos à Terra, temos um determinado tipo de percurso mais ou menos dentro de um determinado leque. Se nos esforçarmos bem, as coisas acontecem na melhor das hipóteses. Se não nos esforçarmos nada, é na pior das hipóteses. Essa é a minha concepção de destino. Agora, o nosso livre-arbítrio é fundamental. E depois, o poder da intenção, da boa intenção, contínua e continuada, que se mantém, de uma forma honesta e transparente,  procurando sempre dar o melhor de nós. E, aprender com o que a vida nos traz. E, por exemplo, aquele esgotamento que eu tive aos 17 anos foi uma aprendizagem muito útil ao longo da vida. Eu fiz uma vida de muito trabalho, com 5 horas de sono por dia, mas eu já sabia reconhecer os sinais de quando estava a ultrapassar os meus limites e aí eu abrandava o ritmo e recuperava as energias.

  

CA- A meditação também ajudava? Continua a praticar?

LP- Houve períodos em que fiz mais, outros em que fiz menos. Umas alturas mais do que noutras. Hoje em dia faço todos os dias, de manhãzinha cedo.

 

CA- A transmissão de pensamento existe mesmo?

LP-Na minha opinião e seguindo a opinião que alguns teóricos colocam, é algo que todos temos. E é algo que se pode desenvolver. As competências do âmbito da espiritualidade são coisas que ninguém nos ensina, que se conquistam. É um aprendizado que se faz em conjunto com os outros, mas que tem uma componente solitária muito grande.O encontrarmo-nos connosco próprios é algo que só nós podemos fazer, mais ninguém pode fazer por nós. E o caminho faz-se fazendo. Todos nós temos sensibilidade mediúnica. Uns ouvem, outros vêem, outros sentem, outros cheiram, outros encorporam. Há quem tenha uma forma  desenvolvida e nada das outras e há quem tenha duas ou três ou até diferentes tipos de sensibilidade. E hoje, está provado que há várias técnicas que permitem desenvolvê-las. Mas, para mim, o mais importante é as pessoas perceberem que não há mal nenhum   em terem essa sensibilidade. Que isso é uma coisa boa. Ninguém vai ao médico quando vê ou ouve bem. As pessoas vão ao médico quando vêem ou ouvem mal. Por isso, não têm de se sentir mal se têm esse tipo de sensibilidade. Isso é bom e permite a uma pessoa que a tenha,  aperceber-se quando entra num ambiente mau. Pode sair de lá ou desviar-se, enquanto que o que não tem, não pode fazê-lo, nem tem como defender-se. E também é importante saber que se mantiver o pensamento positivo, vai manter-se positivo, mesmo que venham de fora agulhadas de agentes físicos ou espirituais que procurem perturbar esse seu caminho. Se começa a produzir um pensamento negativo, coisas negativas começam a acontecer-lhe. É  fundamental o auto-domínio e a auto-disciplina, nomeadamente na manutenção do pensamento positivo. E os pensamentos negativos de que falo não são no de desejar mal aos outros, nem pensamentos de ódio e de rancor, não só. refiro-me àquele tipo de pensamentos em que as pessoas começam a achar que não vão ser capazes de fazer isto ou aquilo. E se começam a pensar que não vão ser capazes, então não vão ser mesmo. Se metem isso na cabeça, não serão mesmo capazes. E mais do que isso, só o facto da pessoa duvidar de que é capaz, já está a pôr em causa a sua capacidade.

 

CA- É preciso muita consciência, muita força para manter o pensamento positivo?

LP-Eu acho que é um exercício de aprendizado. E quando se diz que é preciso muita força, é o mesmo exercício que o montanhista faz quando começa. Vai ali a um monte em Gondomar e acha que muito alto. Mas, depois de subir aquele, ganha vontade de ir subir para o Gerês ou para a Serra da Estrela,  sempre a subir e quando lá chega até se ri de ter achado que o primeiro monte que subiu era difícil, quando agora, olhando para trás, até lhe parece plano de tão fácil que era. E na vida espiritual é assim. É exactamente assim. E vamos fazendo o caminho.

 

CA- Um caminho solitário?

LP-Sim. É um caminho que tem algo de isolado, a pessoa tem de o fazer por si e vai aprendendo  que não tem de partilhar tudo com o outro. Pelo contrário, quando às vezes, partilha algumas coisas, “pimba”… leva canelada! É um caminho de uma delicadeza extraordinária. A pessoa tem de aprender o que é importante fazer, como vai fazendo e o que pode  ir partilhando ou não. E há momentos em que é importante partilhar, para ajudar o outro a crescer, e há momentos em que não deve partilhar, porque senão o outro em vez de ajudar, vai prejudicar-nos.

 

 

 

CA- E os seus livros? São uma partilha?

LP- Sim, são. Partilho aquilo que fui aprendendo ao longo dos anos, e quem quiser estar, está, quem não quiser estar não está.

 

 

 

 

CA- E nesse caminho solitário, o que escolhe partilhar com os seus filhos e com os seus netos?

LP– Partilho o que eles querem que eu partilhe.  Eu não baptizei os meus filhos, por exemplo. Sou um livre pensador e achei que não devia obrigar os meus filhos a coisa nenhuma, portanto deixei que eles escolhessem o seu caminho. E é curioso que tenho filhos que casaram pela Igreja e baptizaram os filhos, e outros não casaram pela Igreja nem baptizaram os filhos. E eu vivo bem com isso, acho que é muito saudável que assim seja.

 

CA- Vê neles curiosidade em relação aos temas da espiritualidade?

LP-A minha postura perante a família é relativamente semelhante à que tenho em relação aos seres em geral. Claro que estou mais próximo deles, mas eu nunca gostei de vendedores de ideias, os dono da verdade.Para mim, os grandes mestres foram seres que tiveram as suas dúvidas, que anunciaram aquilo que lhes parecia a verdade. Para mim, o verdadeiro mestre não admite que lhe chamem mestre. Ele é um entre os outros, também ele busca. Pode ir um bocadinho mais à frente, mas é mais um, por isso cada um deve fazer o seu caminho.

 

CA- Mas, vê nos seus filhos e netos essa mesma curiosidade?

LP-Vejo. Nuns mais do que noutros, quer nos filhos, quer nos netos. Assim, a minha postura junto deles é esta, aqueles que querem conversar mais comigo, conversam mais e eu com eles, aqueles que querem conversar menos, converso menos e aqueles que não querem, pura e simplesmente conversar, sobre estes temas, não conversam e eu não converso. Portanto, é à medida do cliente. (risos) E faço o mesmo com os meus amigos. Tenho bons amigos, de 40 anos de amizade, que nunca conversaram uma palavra de espiritualidade comigo, nem eu com eles. Respeito. São pessoas que sabem que eu gosto desses temas. Se não conversam comigo sobre eles, é porque é um tema de que não gostam, de que não querem ou de que não lhes apetece falar. Eu não vou maçá-los com isso.

 

CA- E ao contrário, o que lhes ensinam os seus filhos e com os seus netos?

LP- A mim? Muita coisa. Eu acho que na vida, quando estamos atentos e disponíveis para aprender, podemos aprender todos os dias, a todas as horas. É uma questão de estarmos atentos e disponíveis e as crianças são um manancial. Alguns amigos meus riem-se quando digo que aprendo muito com os meus netos e com os meus filhos. Acham que é uma atitude simpática da minha parte. Mas não. Eu aprendo com as coisas bonitas e com as menos bonitas, menos boas. Aí, tento encontrar a melhor maneira de os ajudar a corrigir esses aspectos. É muito fácil castigar uma criança, mas é muito mais difícil engendrar maneira de a conquistar, de lhe dar a cana em vez de lhe dar o peixe ou até de a mentalizar a procurar a cana para pescar. (risos)

 

CA- Nem todos temos as mesmas capacidades para aprender?

LP-Temos todos o mesmo potencial de aprendizagem. O potencial está lá. Eu gosto muito desta ideia, cada um de nós tem exactamente o mesmo potencial do outro que está ao lado. Ou se quisermos ser mais atrevidos, a Cristina, sentada aí nessa cadeira, a olhar para mim, tem o mesmo potencial que Jesus Cristo tinha.Quanto mais atentos e disponíveis estivermos, quanto mais focado estiver o nosso esforço, de uma forma honesta e transparente, num caminho positivo e construtivo das coisas, as coisas positivas, vão acontecendo.

 

CA- O que é mais importante para si na vida?

LP- Se eu penso que a vida é um  mundo-escola, o mais importante para mim é acabar a actual vida terrena com a consciência tranquila de dever cumprido. Acabar a vida, dizendo, consegui melhorar, evoluir e isso é bom para mim e bom para todos. Porque o bom percurso para um é bom para todos. Quando aprendermos a estar de bem connosco, automaticamente sentimos a necessidade de estar de bem com os outros, e vamos gradualmente focar-nos em ser cada vez mais úteis aos outros, esquecendo-nos cada vez mais de sermos úteis a nós, mas isso é intrínseco ao caminho de aprendizado espiritual.

 

CA- Como é um dia perfeito para si?

LP-Um dia perfeito para mim é um dia de Verão, um dia de Primavera, um dia de Inverno, um dia de Outono. (risos) Um dia em que faz sol, ou chuva, calor. Eu não sou esquisito. Perfeitos? São os dias todos. A perfeição dos dias está na nossa capacidade de fazermos as coisas acontecerem bem.

 

 

CV resumido, muito resumido e bibliografia

Nasceu em 1951 no Porto, onde se licenciou em Medicina. Exerceu atividade clínica apenas durante três anos e foi durante seis docente universitário. Aos 27 anos, quase contra a sua vontade, assumiu a presidência daquele que entretanto se tornou um dos maiores grupos farmacêuticos da Península Ibérica – a Bial. Em 1994, criou a Fundação Bial, que apoia, com  Bolsas de Investigação Científica, 1351 investigadores de 25 países diferentes. Atribui um dos maiores prémios europeus na área da Saúde. É Comendador da Ordem do Mérito, de que mais tarde veio a receber a Grã-Cruz. É também Professor Honorário da Universidade de Cádiz, em Espanha. Em 1998, foi distinguido com o Prémio de Neurociências da Louisiana State University, nos EUA. Colabora regularmente na comunicação social, tendo publicado já 9 livros.

Para Além da Evolução Tecnológica

À Janela da Vida

Esvoaçando 

Serenamente.

Encarar a realidade

Os Poemas da minha Vida

O Prazer de Ser

Ser Espiritual

Da Ciência ao Amor

 

Realização e Fotografia – Igor Sterpin TUCANDEIRA Films

https://www.linkedin.com/in/igor-sterpin-4778a474/

 

 

 

 

 

 

 

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